Qilai Shen/Bloomberg
Qilai Shen/Bloomberg

Coronavírus força o maior experimento de trabalho remoto do mundo

Chineses de diferentes setores estão reinventando seus negócios para não perderem clientela em meio ao surto da doença

Shelly Banjo, Livia Yap, Colum Murphy, Vinicy Chan, Bloomberg

04 de fevereiro de 2020 | 12h01

XANGAI - Com o surto de coronavírus, trabalhar em casa deixou de ser privilégio: passou a ser necessidade. Enquanto as advertências de fábricas, hotéis e restaurantes para que os funcionários evitem as ruas transformam cidades inteiras em cidades-fantasmas, por trás de portas fechadas de apartamentos e casas suburbanas milhares de negócios estão se virando para continuar operando em um mundo virtual.

“É para nós uma grande oportunidade para testar o trabalho em casa em grande escala”, avaliou Alvin Foo, da Reprise Digital, agência de publicidade de Xangai com 400 funcionários que faz parte do Interpublic Group. “Obviamente, isso não é fácil para uma agência de criação que discute e conduz campanhas com base na opinião de muitas pessoas”, ressaltou. “Trabalhar exigirá muito mais conferências de vídeo e telefonemas.”

Os batalhões que trabalham em casa estão em vias de se transformar em exércitos. No momento, a maioria dos chineses ainda está gozando as férias do ano-novo lunar. Mas, à medida que as empresas reiniciarem suas operações, é provável que elas inaugurem o maior experimento do mundo de bate-volta do trabalho para casa. Isso significa que muito mais pessoas estão tentando organizar reuniões com clientes e grupos de discussão via aplicativos de vídeo chats, ou discutindo planos em plataformas de produtividade como WeChat Work ou ByteDance.

A vanguarda desse modelo de espalhamento de empregados são os centros financeiros chineses de Hong Kong e Xangai, cidades com grandes distritos comerciais e financeiros que dependem de milhares de funcionários de finanças, logística, seguros, advocacia e outras profissões de colarinho branco.

Um banqueiro de Hong Kong disse que pretende prolongar as férias no exterior, uma vez que pode-se trabalhar em qualquer parte com um laptop ou um celular. Outros disseram que usarão o tempo e o custo de viagens e jantares com clientes para cortar despesas. Um outro informou que mudou o foco dos negócios para o Sudeste da Ásia. “Ninguém está marcando reuniões. Minha agenda está vazia”, disse Jeffrey Broer, que trabalha com capitais de risco em Hong Kong.

Um dos fatores mais desagregadores da rotina dos empregados são as rápidas mudanças do impacto do vírus, que está exigindo modificações diárias nas diretrizes corporativas. Tiko Mamuchashvili, da cúpula da rede de hotéis Hyatt em Pequim, deveria voltar ao trabalho na sexta-feira passada, mas foi avisada que suas férias estavam prolongadas até 3 de fevereiro. Depois, recebeu o aviso para trabalhar em casa por mais dois dias. Em seguida, o prazo foi estendido até o dia 10. Mas toda manhã ela tem de informar a seu departamento sobre onde se encontra e se está com febre. Com os cancelamentos das reservas de hotéis aumentando, “basicamente o que eu posso fazer é responder e-mails”, afirmou ela.

Alguns administradores se preocupam com que o êxodo dos escritórios possa diminuir a produtividade, mas há também evidências de que o oposto seja verdadeiro. Um estudo de 2015 da Universidade Stanford, na Califórnia, concluiu que a produtividade de funcionários do call-center da agência chinesa de viagens Ctrip aumentou 13% quando eles passaram a trabalhar em casa, graças a menos interrupções no trabalho e a um ambiente mais confortável.    

Embora o vírus possa testar essa teoria em larga escala, ele ameaça um outro novo modelo de negócio: o espaço de trabalho compartilhado, que se multiplicou nos últimos anos nas grandes cidades chinesas. “O centro desse modelo é a comunidade, com pessoas chegando para se reunir”, explicou Dav Tai, do Beeplus, um espaço compartilhado por 300 funcionários. “É difícil substituir essa interação.”

Para muitas empresas, manter os funcionários em casa resolve apenas parte do problema. Muitas delas dependem de fábricas, empresas de logística e outlets que enfrentam os próprios  problemas.  

A empresa de capas para celular Casetify teve várias fábricas de fornecedores fechadas por causa do vírus. “O show tem que continuar”, justificou o principal executivo da Casetify, Wes Ng, que está trabalhando com um laptop no apartamento da família. Ele disse que a Casetify tem estoque para 30 dias, mas não tem plano B para o caso de os fornecedores não reabrirem logo.    

Mesmo para quem pode operar por internet e celular, com o vírus há menos negócios a serem feitos. Banqueiros dizem que o lançamento de IPOs e os negócios sofreram queda. As transações nos primeiros 30 dias de 2020 representaram metade  do mesmo período do ano anterior, segundo dados levantados pela Bloomberg.  “O pior ainda está por vir”, indicou Ting Lu, analista da empresa de pesquisas Nomura. “O coronavírus pode significar no curto prazo para a economia chinesa um golpe mais severo que a SARS, de 2003", comparou.

Embora as estatísticas sugiram que o novo coronavírus não seja tão letal quanto o da SARS, a velocidade com que o surto está se propagando alimenta o medo. Uma boa parte do impacto do coronavírus na economia deve vir do fator psicológico, afirmou Warwick McKibbon, da Universidade Nacional da Austrália em Canberra.

Ele disse que a SARS custou US$ 40 bilhões à economia global e previu que um surto de coronavírus pode custar três ou quatro vezes isso. “O pânico parece afetar mais a economia do que o número de mortes”, disse.

O setor de serviços na China é hoje 41% maior que em 2002 e responde por 53% da economia. Mas, sem clientes, muitos negócios estão no limbo. O lançamento de grandes filmes, previsto na maior parte para as férias do ano-novo lunar, foi adiado.

Fenix Chesn, dono da academia de ginástica Hi Funny em Xangai, disse que vai fechar o negócio por três dias no Festival de Primavera e só reabrirá no dia 10. Ele está incentivando os clientes a continuarem os exercícios em casa, usando os vídeos com orientações que posta. E vê o lado bom: “Se eles adquirirem o hábito, isso será importante para nosso negócio quando a surto passar.” / TRADUÇÃO  DE ROBERTO MUNIZ

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