ZOLTAN BALOGH / EFE
ZOLTAN BALOGH / EFE

Coronavírus já atinge três dos quatro pontos extremos do Estado de São Paulo

Vírus da covid-19 já havia atingido a pequena Populina, no extremo norte, divisa com Minas Gerais, e se estabeleceu também entre os moradores de Cananéia, cidade mais ao sul do Estado

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 17h32

SOROCABA – Passados 70 dias do primeiro registro em São Paulo, o coronavírus já chegou a três dos quatro pontos extremos do Estado. A prefeitura de Bananal, no extremo leste, divisa com o Rio de Janeiro, confirmou nesta segunda-feira, 4, os três primeiros casos da doença. O vírus da covid-19 já havia atingido a pequena Populina, no extremo norte, divisa com Minas Gerais, e se estabeleceu também entre os moradores de Cananéia, cidade mais ao sul do Estado, na divisa com o Paraná. A pandemia só não atingiu ainda Rosana, a cidade paulista mais remota, no extremo oeste, divisa com Mato Grosso do Sul.

Conforme dados da secretaria estadual da Saúde, 334 cidades paulistas já convivem com o vírus – em 153 delas a covid-19 causou ao menos uma morte. Em Bananal, existem ainda 18 suspeitos da doença, mas não houve óbito. A cidade, estância turística de 10.965 habitantes, está na região da Serra da Bocaina, com cachoeiras, mirantes e outras atrações naturais. Conforme o secretário da Saúde, Pedro Luiz Fonseca, a região está fechada ao turismo, mas muitas pessoas não respeitam as restrições. “Houve aglomeração de ciclistas na Bocaina e no Rancho Grande. Pedimos às pessoas que tenham consciência. O esporte é muito bom, mas é preciso bom senso.”

O prefeito Carlindo Nogueira Rodrigues (PTB) chegou a abordar pessoalmente um grupo de motociclistas que decidiu passear na região, causando aglomeração. Em toda a cidade, inclusive no centro histórico, só funciona o comércio essencial. A prefeitura fez parceria com a Sabesp para desinfetar os logradouros públicos. Foram instaladas barreiras no portal de entrada. “Apelo mais uma vez aos nossos moradores, evitem viajar para outras cidades e fiquem em casa. Estamos vendo muita gente na rua. Pedimos encarecidamente que os visitantes não venham agora para Bananal. Deixem para outra ocasião”, disse o prefeito.

 

A pequena Populina, de 4.169 pessoas, registrou o primeiro caso positivo de coronavírus no dia 13 de abril. O vírus pegou uma profissional de saúde de 42 anos que trabalhava no setor de regulação de um posto de saúde. Mais dois casos foram registrados na semana seguinte. A prefeitura tem dificuldade para manter os turistas distantes de suas atrações naturais. O município é conhecido pelas cachoeiras, como as do Córrego Santa Rita e do Arrancado, e pelas prainhas de água doce, às margens do Rio Grande. Outras 12 pequenas cidades da região ainda não tiveram casos do vírus.

Em Cananéia, a covid-19 já causou a morte de duas pessoas, além de ter infectado outras nove. O segundo óbito, no último dia 3, vitimou uma idosa de 96 anos. A cidade histórica, de 12.540 habitantes, no litoral do Estado, divisa com o Paraná, tem a economia baseada no turismo, pesca e criação de ostras. Os passeios à Ilha do Cardoso, com suas praias quase desertas e manguezais, estão suspensos desde meados de março. As embarcações só são usadas para levar pescadores e caiçaras. O comércio essencial, como supermercados, farmácias e padarias, está funcionando, mas funcionários e clientes são obrigados a usar máscaras.

 

Segundo a prefeitura, o estabelecimento que descumpre as regras é multado em R$ 3.430 e pode ter o alvará suspenso. “Infelizmente, alguns comércios já foram multados na última semana de abril”, informou o município. Os restaurantes funcionam no sistema de delivery. A prefeitura chegou a instalar barreiras no principal acesso à área urbana. Com hotéis, pousadas e donos de barcos de turismo amargando grandes prejuízos, a prefeitura está sendo pressionada a afrouxar as regras do isolamento, mas resiste.  

Os 16.643 moradores de Rosana ainda não sabem o que é a covid-19. Até a tarde desta segunda-feira, 4, a cidade não registrava um único caso da doença. O turismo da pesca, que movimenta a economia local, está parado desde o início da pandemia. O balneário municipal, as embarcações e as áreas de camping foram interditados pela prefeitura. No encontro das águas dos rios Paraná e Paranapanema, só navegam barcos dos moradores locais. “Estamos sem hóspedes há quase dois meses, mas aceitamos reserva para setembro”, disse Rita Pedroso, recepcionista de uma pousada.

 Nessa região, conhecida como Pontal do Paranapanema, outras 13 cidades sem casos da covid-19 foram um escudo de proteção para Rosana. As pessoas chegam à cidade por uma rodovia de pista simples, que sai de Presidente Prudente e segue para o interior de Mato Grosso do Sul, pela cabeceira da Usina Hidrelétrica Sérgio Mota. São 150 quilômetros passando por cidades sem casos do vírus, como Pirapozinho, Mirante do Paranapanema, Sandovalina, Teodoro Sampaio e Euclides da Cunha Paulista. A região tem a maior concentração de assentamentos rurais do Estado, com uma estrutura espacial que induz o isolamento.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Presidente Prudente, mapeou as rotas de dispersão do coronavírus no Estado, apontando que os centros urbanos de maior risco estão no eixo de grandes rodovias. Conforme a pesquisa, a difusão do vírus obedece a uma hierarquia, indo de cidades maiores para as menores. Assim, segundo o estudo, os últimos locais a serem atingidos pela pandemia são os pontos mais extremos e isolados do Estado.

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