ALEX SILVA/ESTADAO
Nos 80 anos da paróquia, não haverá missa com fiéis; na terra natal de Parise, suspensão já dura 5 semanas ALEX SILVA/ESTADAO

Coronavírus leva a hábitos religiosos online

Nova realidade obriga lideranças religiosas a adotarem ferramentas digitais; mas falta de atividades em grupo é o principal desafio

Paulo Beraldo , O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

 

Quando o padre Paolo Parise chegar neste domingo à Igreja de Nossa Senhora da Paz, no centro de São Paulo, para realizar a celebração dos 80 anos da paróquia e a tradicional missa, não encontrará fiéis. Nem haverá comunhão. Durante a semana, não houve aulas de catequese, confissões, casamentos nem batizados ali. 

“Sexta, sábado e domingo por aqui é tudo muito agitado. Mas, com o avanço do coronavírus, tudo foi diminuindo”, contou o italiano que vive no Brasil há quase 30 anos. Quem quiser acompanhar a missa feita por três padres em conjunto terá de usar a internet - prática adotada por outras denominações religiosas no Brasil e no mundo desde o início da pandemia. 

Na Primeira Igreja Batista de São Paulo, as reuniões e eventos também foram suspensos e as atividades online estão sendo estimuladas, incluindo cultos. Aconselhamentos pastorais e reuniões de oração passaram a ser virtuais. “É uma crise com impactos emocionais e econômicos, além dos epidemiológicos. Por isso, muitos pastores estão oferecendo ajuda com alimentos”, complementa o pastor Davi Lago. 

Rituais religiosos e tradições não passaram ilesos ao vírus. A Diocese de Roma fechou mais de 900 igrejas e o papa liberou os fiéis de irem à missa aos domingos. No Vaticano, a Praça de São Pedro não tem mais eventos. A Arábia Saudita fechou os portões de suas principais mesquitas para as tradicionais orações de sexta. Eventos religiosos em Israel foram suspensos e os sempre lotados templos hinduístas da Índia estão com restrição para funcionar.

As medidas de isolamento e distanciamento social representam um desafio para as religiões, uma vez que os encontros e eventos fazem parte de uma tradição que atravessa os séculos. “Os rituais são mecanismos de conexão das pessoas com a comunidade e com a divindade. Eles tocam muito no sentimento e no imaginário”, explica o doutor em Ciências da Religião Luiz Bueno, professor da FAAP. “A impossibilidade de realização desses rituais religiosos tem um impacto muito grande nas comunidades.”

“Os templos religiosos são fundamentais em épocas de crise porque acolhem, são um lugar onde se busca a saúde mental e espiritual”, concorda Jihad Hammadeh, líder muçulmano em São Paulo e vice-presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas. Os islâmicos fazem várias orações ao dia, na mesquita ou em casa. Mas as preces semanais típicas de sexta, realizadas em grupos nas mesquitas, foram canceladas. Jihad conta que há cerca de 30 mesquitas no Estado - todas fechadas. Ele tem feito aparições virtuais em redes sociais para manter contato com fiéis. “É difícil, mas temos de pensar na saúde primeiro.”

Ação semelhante à adotada pelos judeus em São Paulo. Com 40 sinagogas fechadas, o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista, conta que algumas instalaram estúdios e decidiram transmitir pela internet as orações. “Estamos proibindo o público de entrar, algo que era impensável. A gente trabalhou a vida inteira para estimular as pessoas a estarem na sinagoga”, diz o rabino. “Mas entendemos como algo necessário e temporário. Em breve esperamos retomar o face a face com muito beijo e abraço.” O presidente da Confederação Israelita do Brasil, Fernando Lottenberg, diz que há iniciativas de voluntários para apoiar pessoas idosas a fazer compras em farmácias ou mercados, e propostas de atividades aos que ficam em casa. Uma dessas ações são “jantares virtuais” por Facetime. 

A nova realidade também se impôs na Igreja de Nossa Senhora da Paz. As aulas de catequese para cerca de 100 crianças foram suspensas. E as missas para brasileiros e imigrantes na capital paulista em cinco idiomas não terão fiéis a partir deste domingo. As três celebrações serão transmitidas virtualmente. Casamentos, batizados e crismas estão suspensos. As aulas de Português para estrangeiros também foram temporariamente canceladas. Assim como o auxílio para os refugiados com documentação, o atendimento psicológico e as confissões. 

As primeiras medidas foram entregar a hóstia na mão e não na boca do fiel, não dar as mãos na oração do pai-nosso e não pegar nas mãos ou abraçar os fiéis antes de eles entrarem nas igrejas. “Algumas novenas que chegavam a ter 400 pessoas também foram canceladas”, afirma Parise. O padre italiano conta que em seu país há igrejas sem celebrações há cinco semanas. 

Adaptação

Para Francisco Borba, sociólogo e coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP, as cerimônias digitais e a velocidade com que as religiões tiveram de se adaptar reforçam um processo já existente. “Antes, elas existiam, mas as pessoas não se preocupavam tanto em ver.”

Papa preside missa em streaming e reza por família confinada

O papa Francisco presidiu neste sábado a missa matutina transmitida em streaming da Casa Santa Marta e se dirigiu “às famílias que não podem sair de casa”. “Talvez o único horizonte que tenham é o balcão. E ali dentro, a família, com as crianças, os jovens, os pais: para que saibam encontrar o modo de comunicar bem, de construir relações de amor na família, e saibam vencer as angústias deste tempo juntos, em família.”

A igreja em Roma suspendeu as celebrações com o povo mesmo na Semana Santa, em abril, a exemplo do que dioceses do mundo todo, incluindo o Brasil, vêm fazendo. Algumas também têm lançado campanha, estimulando a que pessoas fiquem em casa, como Goiânia, que sugere o cumprimento “Deus conosco”, por meio de um sinal da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

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‘Quarentena e quaresma se aproximam muito’, diz padre sobre reclusão por coronavírus

No Brás, o padre Gilberto Orácio de Aguiar lembra que os católicos já estão em meio a um período de reclusão, a quaresma, período de 40 dias em que se prepara para a Páscoa

Entrevista com

Padre Gilberto Orácio de Aguiar

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2020 | 05h00

As portas da Paróquia São João Batista no Brás, na região central de São Paulo, ainda estão abertas nesta semana para os poucos fiéis que ainda passam pelo local, embora todas as missas tenham sido suspensas. A paralisação ocorreu após um comunidado do arcebispo de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer, e uma decisão da Justiça estadual que determinou que os governos municipal e estadual agissem para suspender os cultos religiosos.

No Brás, o padre Gilberto Orácio de Aguiar lembra que os católicos já estão em meio a um período de reclusão, a quaresma, período de 40 dias em que se prepara para a Páscoa. Consideradas as projeções dos órgãos de saúde, a quarentena na capital paulista deve seguir além do feriado da Páscoa. O padre sugere que os fiéis usem esse tempo para continuar refletindo sobre o valor desse período no ano litúrgico.

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Do ponto de vista pessoal, como o senhor se sente ao administrar a paróquia em meio a todas essas restrições?

É um momento de parada, de aceitar esse momento e rever algumas coisas na sua vida e refazer. Estou me sentindo na necessidade de parar e aproveitar esse tempo, não como um desastre ou uma coisa alarmante, mas algo que vai me fazer crescer, eu penso. E ainda, lembrando, estamos na quaresma. Quarentena e quaresma se aproximam muito nos objetivos. Às vezes, quando não queremos parar por amor, paramos na dor. E é o momento. 

Parece que as pessoas ainda não se deram conta do que está acontecendo. Talvez quando começarmos a ter enterros coletivos, velórios, as pessoas comecem a perceber a gravidade do momento. Talvez as pessoas precisem desse momento de dor. Esse momento pode ser muito bem usado e ser muito frutuoso, no sentido de usar esse tempo para ler, rezar, conviver com a sua família. Isso é muito importante. 

Quem sabe esse momento não seja uma porta para descobrirmos algo melhor? Até porque a quaresma é o período que nos encaminha para a Páscoa, é um período de passagem. Isso é muito forte. 

O senhor já viveu algo parecido com isso?

Não. E eu só tenho 52 anos. Durante esse tempo, nunca vivi uma restrição assim. É a primeira vez. 

A eucaristia é um rito importante importante para os católicos, mas não é recomendável para o período da epidemia. Como é lidar com a suspensão dessa comunhão e não saber por quanto tempo será dessa forma?

A paróquia lida com isso tentando acompanhar os fiéis que expressam essa preocupação, conduzindo eles para celebrações em casa, acompanhando as missas pela TV. Enfim, temos de aproveitar e sermos criativos no exercício da fé. Só por não termos isso (eucaristia), perdemos todo o sentido? Não. Vamos redescobrir como exercitar a fé numa situação limite como essa que estamos vivendo. 

Apesar de não haver celebrações, a igreja está aberta?

A igreja refez o horário, então estaremos abertos por algumas horas do dia – não em tempo integral. Principalmente na parte da manhã. Se alguém estiver passando na rua e quiser entrar, durante a parte da manhã estaremos abertos. 

Há alguma recomendação para o caso de chegar aqui um número alto de pessoas?

Eu não creio que nós teremos aglomeração em nenhuma parte do dia. Não terá um número alto de pessoas aqui. As pessoas não sairão de casa, sabendo que não tem missa. Então elas não virão. O fato de não ter missa é justamente para que não haja essa aglomeração. 

Os fieis que estão vindo aqui pedem orientações sobre as atividades da igreja?

Geralmente eles não vêm aqui. Eles pedem pelo WhatsApp. Os que vêm aqui são pessoas que passam e veem a igreja aberta, afinal esta é uma igreja de passagem do que um igreja de bairro. 

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