Brian Snyder/Reuters
Brian Snyder/Reuters

Coronavírus não está em mutação rápida enquanto se propaga pelo mundo

Especialistas sugerem que quando a vacina for criada, ela deve ter dose única como as de sarampo e catapora

Joel Achenbach, The Washington Post

26 de março de 2020 | 15h00

O coronavírus não está sofrendo uma mutação significativa à medida que circula pela população humana, de acordo com cientistas que estudam de perto o código genético do novo patógeno. Essa relativa estabilidade sugere que é menos provável que o vírus se torne mais ou menos perigoso enquanto se espalha e traz consigo informações encorajadoras para os pesquisadores que desejam criar uma vacina que gere imunização duradoura.

Todos os vírus evoluem com o tempo, acumulando mutações à medida que se replicam imperfeitamente dentro das células de um hospedeiro em uma quantidade extraordinária e, depois, se espalham pela população, com algumas dessas mutações persistindo por meio da seleção natural. O novo coronavírus possui mecanismos que funcionam como “revisores” daquelas imperfeições e isso reduz a "taxa de erro" e o ritmo da mutação. O novo coronavírus parece praticamente o mesmo em todos os lugares em que apareceu, dizem os cientistas, e não há evidências de que algumas cepas sejam mais mortais que outras.

O SARS-CoV-2, o vírus que causa a doença covid-19, é semelhante aos coronavírus que circulam naturalmente entre os morcegos. Ele passou a afetar a espécie humana no ano passado em Wuhan, na China, provavelmente por meio de uma espécie intermediária - possivelmente um pangolim, um tamanduá em extinção cujas escamas são traficadas para a medicina tradicional.

Cientistas agora estão estudando mais de mil amostras diferentes do vírus, segundo Peter Thiele, um geneticista molecular do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, que estuda o vírus, disse ao The Washington Post

Existem apenas quatro a dez diferenças genéticas entre as cepas que infectaram pessoas nos Estados Unidos e o vírus original que se espalhou em Wuhan, afirmou Thiele.

"É um número relativamente pequeno de mutações para um vírus que tem passado por um grande número de pessoas", disse Thielen. "Nesse ponto, a taxa de mutação do vírus sugere que a vacina desenvolvida para a SARS-CoV-2 seria uma vacina de dose única, em vez de uma com doses anuais, como a que imuniza contra a gripe comum".

Seria mais parecida com as vacinas contra sarampo ou catapora, ele disse – algo que provavelmente geraria imunização por um longo período. "Eu suponho que uma vacina para o coronavírus possa ter um perfil semelhante ao daquelas vacinas. Isso é uma ótima notícia", disse Thielen.

Dois outros virologistas, Stanley Perlman, da Universidade de Iowa, e Benjamin Neuman, da Universidade Texas A&M University, em Texarkana, ambos no comitê internacional que nomeou o coronavírus, disseram ao The Post que o vírus parece relativamente estável.

"O vírus não sofreu uma mutação significativa", disse Perlman. "Apenas uma cepa 'muito ruim' para todo mundo até agora. Se ainda estiver por aí em um ano, a essa altura poderemos ter alguma diversidade", reforçou Neuman, que contrastou o coronavírus com o da gripe, que é notoriamente instável.

“A gripe tem um truque debaixo da manga que o coronavírus não tem – o genoma do vírus da gripe está fragmentado em diversos segmentos, cada um deles codifica um gene. Quando dois vírus da gripe estão na mesma célula, eles podem trocar alguns segmentos, potencialmente criando uma nova combinação instantaneamente – foi assim que a H1N1, ‘a gripe suína’, se originou”, disse Neuman.

É possível que uma pequena mutação no vírus possa ter efeitos descomunais no resultado clínico do covid-19, dizem os especialistas. Sabe-se que isso acontece com outros vírus. Mas não há sinal de que isso esteja acontecendo com o novo coronavírus.

As dramáticas taxas de mortalidade na Itália, por exemplo, são provavelmente causadas por fatores situacionais - uma população mais velha, hospitais sobrecarregados, escassez de ventiladores pulmonares e consequente racionamento de cuidados que salvam vidas - em vez de alguma diferença no próprio patógeno. 

"Até o momento, não temos evidências que vinculem um vírus específico [cepa] a qualquer escore de gravidade da doença", afirmou Thielen. "No momento, a gravidade da doença é muito mais provável de ser causada por outros fatores". 

Embora uma equipe de cientistas no início deste ano tenha sugerido que possa haver duas cepas distintas do vírus com diferentes níveis de gravidade típica da doença, essa conjectura não foi adotada pela comunidade científica. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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