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Coronavírus: Paulistanos buscam refúgio para quarentena no interior e litoral de SP

Menor risco de contágio e alívio psicológico proporcionado pelo contato com a natureza são alguns dos benefícios apontados pelos turistas

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 11h00

SOROCABA – A maior concentração de casos de coronavírus na capital está levando muitos paulistanos a se refugiar em cidades do interior e do litoral paulista para cumprir a quarentena recomendada pelas autoridades. Em partes do litoral e regiões distantes do interior a circulação do vírus ainda é menor, conforme os números oficiais. As famílias que estão fugindo de São Paulo relatam mais facilidade para ficarem isoladas, menor risco de contágio e o alívio psicológico proporcionado pelo contato com a natureza.

Atento às recomendações do Ministério da Saúde sobre o isolamento social contra o coronavírus, o advogado paulistano Dario Orlandelli, de 81 anos, optou por unir o necessário ao agradável. Dono de um rancho de pesca em Pirassununga, cidade do interior onde mora uma de suas filhas, ele deixou a capital há dez dias, na companhia da esposa, e passa as horas fazendo o que mais gosta. “Fico pescando no rio Mogi Guaçu, sem ser influenciado pelo noticiário. Pego uns peixinhos e solto. É uma terapia e, ao mesmo tempo, uma proteção, pois aqui é bem isolado. A gente tem de se cuidar, mas não pode morrer tédio.”

Ele conta que a esposa, menos afeita à pescaria, fica em casa da filha, na área urbana. A filha e o genro são professores no campus local da Universidade de São Paulo (USP). “Não tem criança em casa e eles também estão seguindo as regras do isolamento.” Dario e a esposa moram em um apartamento, no bairro da Lapa, zona oeste da capital, que está fechado. “Sem poder sair, devido ao risco, a gente ficava a maior parte do tempo na TV vendo notícias pouco agradáveis. Agora, estamos bem resguardados, com o emocional mais leve e vamos ficar (no interior) o tempo que for necessário.”

O empresário Nemer Ibrahim Chiah, de 44 anos, e sua esposa, a cirurgiã dentista Maison Ghandour, de 40, deixaram a capital há duas semanas e foram para a quarentena, com os filhos, Ibrahim, de 8 anos, e Hayfa, de 5, na casa de veraneio da família em Ilhabela, litoral norte de São Paulo. “Costumo vir para a ilha de 15 em 15 dias para passar o fim de semana. Desta vez, antes de começarem os bloqueios, já vim com a família e pretendo voltar só quando acabar essa quarentena.” A família reside em Interlagos, na capital, e tomou a decisão em busca de maior isolamento.

Chiah afirma que a família passa a maior parte do tempo em casa. As crianças estudam e brincam, enquanto ele e a esposa cuidam dos afazeres domésticos. “Minha casa fica muito distante do centro, na costa sul da ilha, e saímos o mínimo possível. Temos uma moça que nos ajuda aqui, é nossa funcionária, mas esses dias ela não está vindo. Nossa rotina está sendo assim: a gente acorda, procura fazer alguma atividade física, caminha um pouco onde não tem gente e, no mais, é ficar em família.” Em quase 15 dias, ele saiu de casa duas vezes. “Estamos tranquilos, rezando para que dê tudo certo e isso passe logo.”

O artista plástico André Balbi, que mora em Moema, na capital, buscou refúgio com parte da família – a esposa, a enteada e uma filha – nas montanhas de São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, onde há 25 anos mantém um ateliê. “Minha base é em São Paulo, onde meus filhos estudam, mas com essa história toda decidimos nos isolar no interior, tentando nos proteger.” Balbi tinha uma exposição na galeria São Paulo Flutuante, agendada para 28 de março, que foi desmarcada devido ao coronavírus. A mostra marcaria a inauguração da galeria.

 Apesar do isolamento, o trabalho do artista não parou, como conta. “As meninas, que estudam na PUC, estão fazendo os cursos à distância. Minha esposa, que é designer, trouxe o computador e está trabalhando. Eu também não parei. O trabalho de criação continua, mas, em vez de ser no nosso apartamento, é aqui nesse paraíso, cercado pelas mil árvores que eu mesmo plantei.”

Quem também se isolou, mas no litoral, foi o músico e compositor paulistano Gabriel Martins, morador da Mooca. Ele conta que está em um lugar inóspito, na praia Barra do Sahy, em São Sebastião, litoral norte paulista. “Como meu trabalho é ligado à natureza, alugo um quartinho aqui, mas minha atividade principal é na capital. Um pouco antes de estourar o coronavírus, eu tinha vindo para compor. Era uma escapada de quatro dias, mas aí aconteceu a pandemia. Estou aqui há 17 dias, compondo e fazendo música. Minha família está em São Paulo, falo com eles todo dia, mas tenho o que preciso: a caneta, o computador, o microfone e meu violão. Tento passar mensagem de paz e serenidade, que é do que o mundo precisa."

A autônoma Cris Chiofalo e seu marido Caio, moradores da capital, decidiram transferir temporariamente a família para o sítio do casal, na zona rural de Sorocaba. A mudança aconteceu há 17 dias, principalmente para proteger a mãe dela, de 75 anos, do novo coronavírus. “Estou com um irmão na Itália e o outro estava na Índia e, pensando na minha mãe, como temos um sítio no km 94 da Castelo (rodovia), a gente tomou a iniciativa de vir para cá.”

Cris e o marido, funcionário de um escritório em São Paulo, trabalham em casa. O local é isolado: o supermercado mais próximo fica a 6 quilômetros e o casal faz compra para o mês. “Conforme o quadro foi se desenhando, e até contaram que tinha um caso de coronavírus em nosso prédio, a gente percebeu que era a melhor escolha ficar aqui no sítio”, relata Cris.

Ela conta que o apartamento não é pequeno para os padrões de São Paulo, mas o sítio se mostrou mais adequado em razão da necessidade de isolamento social. “A gente entendeu que, para trabalhar remoto e ter espaço para minha mãe e para as crianças, era melhor ficar mesmo no sítio. Estamos nós cinco, eu, o Caio, meus dois filhos, o menino de nove e a menina de 13, e minha mãe que tem 75 anos. E tem seu João, que é nosso ajudante, que mora aqui na terra dele.”

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