REUTERS/Zhang Changchun/Handout via Reuters
REUTERS/Zhang Changchun/Handout via Reuters

Coronavírus pressiona o sistema de saúde da China

Governo chinês conta com um sistema médico abarrotado e sobrecarregado; autoridades de saúde pediram aos médicos que prescrevessem combinação de medicamentos antivirais para o HIV e medicina tradicional chinesa aos pacientes

Sui-Lee Wee, The New York Times

29 de janeiro de 2020 | 12h00

Depois de sofrer de febre e problemas respiratórios por mais de 15 dias, Xiao Shibing, de 51 anos, morador de Wuhan, na China, finalmente procurou ajuda em um hospital. Apesar dos sintomas, ele não foi testado para o novo coronavírus - um descuido sugerindo que pode haver muito mais casos do vírus do que está sendo oficialmente relatado.

Em vez disso, Xiao foi informado de que ele tinha uma infecção viral e voltou para casa. Quando ficou mais doente, ele foi para outros três hospitais. Mas nestes lhe foi dito que não havia leitos suficientes.

Como milhares de pacientes chineses preocupados com o novo coronavírus, Xiao está se esforçando para obter ajuda de um sistema de saúde que se esforça para atender até as necessidades básicas dos pacientes.

Xiao, que acabou sendo hospitalizado no domingo - cerca de uma semana após sua tentativa inicial - ainda não foi testado para o vírus.

Enquanto luta para combater o surto de coronavírus, o governo chinês conta com um sistema médico abarrotado e sobrecarregado, mesmo em tempos normais. Embora outras partes da vida cotidiana na China tenham melhorado significativamente na década passada, a qualidade dos cuidados com a saúde estagnou.

Nas grandes cidades como Pequim e Xangai, muitas pessoas precisam ficar na fila desde as primeiras horas da manhã para marcar consultas com médicos. Quando conseguem uma consulta, os pacientes recebem apenas alguns minutos com um médico. Durante a temporada de gripe, os moradores montam acampamento durante a noite com cobertores nos corredores de hospitais.

A China não possui em funcionamento um sistema de atendimento primário, por isso a maioria das pessoas se encaminha para hospitais. Em um dia comum, os médicos estão frustrados e exaustos pois atendem cerca de 200 pacientes.

Isso é mais acentuado nas áreas mais pobres da China - como Wuhan, o epicentro do coronavírus. Os moradores da cidade, em pânico, estão indo para os hospitais caso tenham algum sinal de resfriado ou tosse. Vídeos circulando nas redes sociais chinesas mostram médicos se esforçando para lidar com a enorme carga de trabalho e os corredores do hospital lotados de pacientes, alguns dos quais parecem estar mortos.

Apesar de já ter lidado com o coronavírus SARS quase duas décadas atrás, muitos hospitais chineses em cidades menores estão totalmente despreparados para lidar com um surto tão grande como o vírus atual. Os hospitais de Wuhan postaram mensagens online apelando urgentemente por equipamentos médicos. A situação é ainda mais desesperadora nas áreas rurais mais pobres próximas a Wuhan.

Na semana passada, oito hospitais na província de Hubei - onde Wuhan está situada e onde a maioria dos casos apareceu - fizeram um pedido por máscaras N95, óculos de proteção, máscaras cirúrgicas e aventais cirúrgicos. Na falta de equipamento adequado, alguns trabalhadores médicos recorreram a cortar pastas feitas de plástico para óculos de proteção improvisados.

Yanzhong Huang, membro sênior de saúde global do Conselho de Relações Exteriores, disse que a China investiu muito na construção de uma infraestrutura robusta de saúde pública após a erupção da SARS e que muitos dos hospitais estavam bem equipados para lidar com doenças infecciosas.

“Mas eles aparentemente não previram algo tão repentino, tão agudo e grande”, disse ele.

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A resposta do governo à crise pode exacerbar os problemas. Em toda a China, as autoridades estão fechando cidades, escolas e avaliando os moradores. Mas o bloqueio - afetando 56 milhões de pessoas - pode dificultar o fornecimento de suprimentos médicos para hospitais que precisam desesperadamente deles.

As autoridades chinesas reconheceram que estão tendo dificuldades para lidar com o surto. Em uma entrevista coletiva na semana passada, a comissão de saúde de Wuhan disse que havia longas filas e escassez de leitos. Em resposta, afirmou ter selecionado hospitais como “clínicas de febre” para as pessoas procurarem tratamento.

Com as instalações médicas escassas, o governo local também se comprometeu em construir um novo hospital com 1,1 mil leitos em 10 dias e disse que outro novo hospital com 1,3 mil leitos estaria pronto até meados do próximo mês. Ele está copiando parte do manual do governo durante a SARS, quando construiu um novo hospital em Pequim em apenas uma semana.

No entanto, ainda não está claro que haverá leitos suficientes para lidar com o vírus, que permanece altamente contagioso.

Chen Xi, professor assistente de política e economia da saúde na Escola de Saúde Pública de Yale, disse que é mais importante ter um sistema de trabalho de médicos de família que possam atuar na triagem para os hospitais.

 “Sem um processo eficiente de triagem”, disse ele, “esses dois hospitais não seriam muito eficazes”.

O governo está sob crescente pressão para mostrar que está lidando adequadamente com a crise. Na segunda-feira, o primeiro-ministro Li Keqiang, encarregado de supervisionar a resposta nacional à epidemia, visitou Wuhan para inspecionar os esforços para conter a doença. Ele prometeu fornecer aos centros locais de saúde 20 mil pares de óculos de segurança.

Sem qualquer medicamento comprovado para tratar o novo vírus, as autoridades de saúde pediram aos médicos que prescrevessem uma combinação de tratamentos - medicamentos antivirais para o HIV e medicina tradicional chinesa - aos pacientes. Alguns dos medicamentos prescritos são uma mistura de ingredientes como chifre de búfalo, jasmim e madressilva, bem como medicamentos antivirais para o HIV, como lopinavir e ritonavir.

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Como aconteceu com a SARS, a medicina tradicional chinesa - uma indústria que o governo se comprometeu a desenvolver - está sendo destacada como uma maneira de tratar esse novo coronavírus. Mas não há evidências clínicas de que os cálculos biliares bovino, as raízes das plantas e o alcaçuz possam funcionar para combatê-lo.

Revistas publicaram estudos de cientistas chineses dizendo que a medicina tradicional chinesa ajudou a aliviar os sintomas da SARS. O Ministério da Ciência e Tecnologia da China disse em 2003 que havia encontrado o banlangen, a raiz de uma planta chamada pastel do tintureiro (woad), bem como um líquido composto de ingredientes como ácido cólico, jasmim, chifre de búfalo e madressilva para ser eficaz na cura de uma inflamação aguda dos pulmões.

“Nunca houve um bom agente antiviral, então isso significa que as pessoas tentariam qualquer coisa que tenha algum efeito”, disse Dominic Dwyer, virologista médico da Universidade de Sydney. “Mas não há evidências de benefícios significativos com nenhum medicamento antiviral ou na medicina tradicional chinesa”.

O problema de encontrar um medicamento que possa combater efetivamente uma doença infecciosa como esse coronavírus, SARS ou síndrome respiratória do Oriente Médio é que ele precisa ser testado em número suficiente de pessoas de maneira aleatória e em ensaios clínicos adequados.

“Isso é muito difícil em uma situação de epidemia”, disse Kanta Subbarao, pesquisadora sênior de doenças respiratórias do Doherty Institute, em Melbourne, na Austrália. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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