Reuters
Reuters

Coronavírus se esconde no organismo para ampliar disseminação, diz pesquisador

Paulo Saldiva, professor do departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), estuda o comportamento do vírus

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2020 | 10h00

O novo coronavírus pode se dissimular no organismo humano e contagiar outras pessoas sem que o infectado saiba que está disseminando o vírus. De acordo com o professor do departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva, além de ser mais agressivo que o H1N1, a covid-19 tem um tempo maior de latência no organismo.

O paciente apresenta febre em no máximo dois dias com o vírus da influenza, período que aumenta para até 12 dias no caso do novo coronavírus. "Isso significa que a pessoa com o vírus pode estar contaminando outras pessoas sem saber", disse.

Saldiva está à frente de um grupo da USP que desenvolveu um protocolo para que se coletem tecidos durante a autópsia das vítimas da covid-19, montando um biobanco que poderá ser compartilhado pelos pesquisadores para estudar a doença e suas manifestações sistêmicas.

Ele já atuou em outras pandemias, fazendo a autópsia de dezenas de pessoas vítimas do H1N1. Até a tarde desta quinta-feira, 16, a equipe tinha feito autópsia pelo método minimamente invasivo em 15 corpos. A expectativa é chegar a 50 para entender a dinâmica da doença e planejar ações terapêuticas, como disse ao Estado.

É possível comparar o novo coronavírus com outros vírus, como o H1N1?

Esse vírus é mais agressivo que o H1N1. A contagiosidade é similar, mas a agressividade dele é um pouco maior. A outra característica que o torna mais letal é que o tempo de latência, entre você estar contaminado e desenvolver doença clínica, também é maior. No H1N1 em no máximo dois dias você estava com febre. Nesse vírus pode ficar até 10 ou 12 dias sem sintomas, enquanto ele vai minando o organismo. Isso significa que a pessoa com o vírus pode estar contaminando outras pessoas sem saber.

Já dá para entender como o vírus age no organismo e se há diferença nos corpos de homens e mulheres?

Fizemos 15 autópsias, mas só temos as análises de dez. Vamos ter a resposta para isso mais à frente. Agora estamos fazendo o PCR (exame molecular) de todos os órgãos para saber para onde o vírus foi. A gente sabe que, além do pulmão, os vírus estão indo para o cérebro, os rins e os testículos, mas a gente ainda conseguiu concluir o estudo. O que sabemos é que ele é muito rápido e extremamente agressivo, principalmente no sistema respiratório. A maioria estava com as vias sanguíneas que irrigam os pulmões obstruídas por tromboses.

Alguma dificuldade para conseguir material para o estudo?

Os familiares, mesmo num momento de perda, concordam em autorizar o uso desse material. Já que não podem doar o órgão, eles entendem que estão doando conhecimento. Mesmo na tragédia, existe esse aspecto sublime. O número está subindo todo dia, pois estão vindo mais corpos e todo dia tem autópsia aqui. A gente não conseguiu analisar todos. Dividimos o nosso time em dois grupos. Um faz o procedimento, junto comigo e uma sonografista, enquanto outro pessoal analisa o material colhido para devolver rapidamente ao hospital. Nos últimos dois dias, não deu nem para ter contato com o outro grupo que analisa, pois estou fazendo autópsia estes dias todos.

Na autópsia minimamente invasiva, qual o risco para a equipe?

Para entender como o vírus age em nossas defesas, é necessária a coleta de tecido humano das pessoas que morreram infectadas. A maior parte dos protocolos ressalta que esses procedimentos devem ser feitos em salas com proteção viral de nível 3 ou 4, que são poucas no mundo, geralmente associadas a países que se preocupam com o bioterrorismo. Nosso sistema se baseia na coleta através da pele, guiada por métodos de imagem, com agulhas mais espessas que as empregadas em tecido vivo. Isso pode se constituir um patrimônio para que a gente entenda melhor para combater essa doença, e tem de ser feito rápido, pois a doença vai durar alguns meses e a gente espera poder dar informações úteis para a sociedade.

Quando os resultados dos estudos estarão disponíveis?

O material analisado já está sendo disponibilizado, por isso que a gente dividiu em equipe. Estamos devolvendo rapidamente para a sociedade. Já temos artigo científico escrito sobre trombose e está saindo outro sobre a técnica que a gente usa. Estamos produzindo conhecimento para outros médicos e cientistas, divulgando o que está acontecendo. A gente acha que vai chegar rápido em torno de 40 ou 50 casos; vamos ter pacientes de várias faixas etárias, com comorbidades e vários tempos de internação para entender o que acontece ao longo do tempo de internação, como essa doença evolui. Entender porque algumas pessoas morrem com poucos dias, outras morrem com mais dias. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.