MASSIMO PINCA / REUTERS
MASSIMO PINCA / REUTERS

Coronavírus será um teste para nosso estilo de vida conectado

A epidemia ameaça a estabilidade de tudo, dos sistemas de informação às encomendas na Amazon

Charlie Warzel, The New York Times

06 de março de 2020 | 14h00

A conectividade contínua define a vida no século 21 e a infraestrutura que sustenta tudo isto é digital (a Internet e nossas plataformas de mídia social) e física (a gig economy, ou economia que gira em torno dos serviços de aplicativos, o e-commerce, os locais de trabalho globais). Apesar das duas primeiras décadas tumultuadas do século, grande parte do nosso estilo de vida conectado escapou do estresse de algum evento global singular.

Mas a possibilidade de uma pandemia global representada hoje pelo novo coronavírus ameaça mudar completamente o cenário. Se o vírus alcançar níveis extremos de infecções globalmente, muito provavelmente este será o primeiro teste de fato do nosso modo de vida no século 21, expondo a fragilidade oculta de um sistema que sempre pareceu impecável.

O exemplo mais claro é a nossa economia global e conectada, que já resistiu a uma profunda recessão. Podemos ter uma escassez de importações cruciais. Na quinta-feira, a FDA – Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos – reportou uma das primeiras carências de um medicamento de uso humano (não especificado) em consequência de transtornos na cadeia de fornecimento. A agência monitora 63 fabricantes na China fornecedoras de aparelhos médicos “que poderão faltar se houver uma perturbação no fornecimento”.

As preocupações com o futuro da economia global resultaram em quedas recorde de juros, com os preços  do petróleo em queda. Na semana passada, os Estados Unidos registraram o pior declínio nas bolsas desde a crise financeira de 2008. Índices de ações importantes em todo o mundo despencaram entre 4% e 12%.

“É comum, quando pensamos em redes, falar sobre um intercâmbio entre eficiência e resiliência”, afirmou Jon Stokes, fundador da Ars Tecnica e vice-editor do The Prepared,  website com vistas à preparação para emergências. “Os computadores nos permitem operar com eficiência e complexidade a um nível insano, mas perdemos resiliência no sistema”. “Projetamos sistemas supondo uma situação constante de normalidade. Mas agora estamos prestes a atingir um enorme nível de estresse, e isto é iminente. Isto fará o sistema vergar de uma maneira inquietante a ponto de acarretar o rompimento de partes dele. E é impossível prever o que irá quebrar”.

Uma pandemia global também vai testar outros sistemas que são mais difíceis quantificar. O principal deles é nosso complexo sistema de informação. No caso de uma doença generalizada, precisaremos confiar em informações supervisionadas e acuradas para nos mantermos seguros. Embora a Internet tenha tornado a distribuição mais fácil, a democratização da informação criou plataformas e economias de propaganda que recompensam a desinformação.

E, no caso do coronavírus, a propagação de desinformação e os rumores sobre a epidemia na China inundaram o Facebook e o YouTube, e ao mesmo tempo foram se adaptando a novas plataformas. Como disse Ryan Broderick, do BuzzFeed News, “vídeos não comprovados que surgiram nas mídia chinesa e compartilhados por influenciadores locais no Twitter, e depois no WhatsApp, alertavam os usuários contra sites de consulta do governo que não existiam na realidade, e pessoas compartilhavam curas fictícias no caso do vírus”.

Nos últimos anos ficou claro que nosso ecossistema de mídia social é facilmente pirateado para incentivar comportamentos de bandidos, ampliando ainda mais as existentes tensões e desacordos. Resultado? Um clima político volátil, onde as notícias são usadas como arma para ganhos políticos – um clima ainda mais exacerbado pelos algoritmos protegidos como segredos corporativo que ditam a informação que vemos. Seu caráter desconhecido alimenta ideias conspiratórias sobre o fluxo e o controle da informação. A confiança naquilo que vemos online diminui, e a fadiga das notícias se torna mais geral, especialmente entre os consumidores menos interessados em política.

Uma pandemia global, e o temor e a incerteza diante da expectativa, só aumentarão o estresse sobre um sistema complexo e já falho. Politicamente já podemos observar os contornos da guerra de informação em torno do coronavírus. Para os democratas, a resposta ao vírus é uma demonstração da falência dos sistemas de seguro privado e da assistência médica pública dos Estados Unidos – e uma maneira de enfatizar a incompetência do governo Trump

Ao mesmo tempo, o governo e a mídia pró-Trump invocam notícias factuais sobre a gravidade do vírus e que a alegação de inércia do governo tem um viés político, minimizando os riscos para os americanos. Uma crise de saúde pública real se torna mais um evento em que você escolhe sua própria realidade, um instrumento para ampliar as divisões.

A poluição de informações toma conta dos nossos sistemas de comércio online também. Os conspiradores, como o website Inforwars, já vêm disseminando o medo de escassez de alimentos, usando o temor para aumentar as vendas de produtos. Gigantescas lojas online, como Amazon, foram inundadas de ofertas de produtos com alto retorno com propaganda falsa de proteção contra o coronavírus. A companhia já baniu mais de um milhão de produtos nas últimas semanas e alertou os vendedores para não cobrarem mais dos usuários.

Apesar das tentativas de moderação da Amazon, o site – cujo tamanho descomunal foi possível graças ao seu alcance global – é difícil de ser protegido contra fraudadores e produtos falsificados. E como outras plataformas, seus algoritmos e conteúdo gerado pelo usuário podem ser facilmente manipulados e falsificados, provocando confusão, nervosismo e compras não seguras.

A Amazon, que é a maior loja do planeta, operando em mais de 180 países, também representa a conexão entre o digital e o físico. Ela reformulou os comportamentos de compra, apoiada por milhões de trabalhadores que operam toda a logística, como o envio do produto, a separação das encomendas e os armazéns.

As práticas trabalhistas da empresa têm sido objeto de crítica. Por causa dos turnos longos e rigorosos, os perigos apresentados para seus motoristas que realizam as entregas e questões salariais. Isso tudo certamente será exacerbado por uma pandemia global. O desejo aumentado de se preparar para se proteger contra o vírus sem dúvida aumentará as encomendas de alimentos e produtos essenciais. Se os casos de coronavírus nos Estados Unidos dispararem, a demanda vai aumentar drasticamente, forçando os empregados que já recebem um baixo salário – mesmo aqueles que podem se adoentar – a se apresentarem no trabalho, sujeitando-os e outros colegas a possíveis contágios. 

Mas o cenário inverso também cria problemas. Imaginemos uma pandemia onde quarentenas ou abrigos exijam que os empregados nos armazéns, ou que realizam entregas, permaneçam em casa, causando pânico quando a Amazon não puder mais atender às encomendas.

Similarmente, a gig economy, um ecossistema frágil que depende da mão de obra contratada em nome de empresas de tecnologia bilionárias para fornecerem serviços no mundo físico, renovou nossas cidades e áreas suburbanas. Mas também é um sistema precário de trabalho e especialmente vulnerável no caso de uma pandemia. 

Como escreveu Alexis Madrigal no The Atlantic, não temos nenhuma maneira de prever como os serviços no âmbito dessa economia de aplicativos, que abrange Uber, Lyft, Instacart, Airbnb, ou até o serviço de passeio de cães Wag, reagirão à epidemia de coronavírus. O que sabemos, contudo, é que os incentivos algorítmicos do serviço e a falta de proteções trabalhistas provavelmente produzirão consequências extremas. “Se esses motoristas decidirem entrar em quarentena voluntariamente, o preço de uma corrida poderá disparar. Pelo contrário, se afluírem para os centros vindos de regiões periféricas, poderão se tornar vetores do Covid-19 dentro das cidades e levar o vírus para áreas periféricas”.

Cada um desses exemplos, e existem inúmeros mais, incluindo nosso atual sistema eleitoral e de campanha, quando um enorme número de pessoas se reúne nos comícios, é um nódulo numa rede imensa e extremamente frágil. Uma rede que vem sendo criada há séculos, mas que nas duas últimas décadas cresceu conectada à tecnologia moderna. 

Nosso modo de vida mudou, de indivíduos para mercados, do local para o global. Até agora, essa interconectividade tem sido uma força, criando uma rede tão grande que cada um dos pequenos nódulos pode ser imperfeito ou falhar enquanto os outros persistem. Mas muito semelhante a um vírus, esse nódulo explora uma pequena vulnerabilidade, criando uma cadeia de reações que permitem que ele debilite seu hospedeiro, uma verdadeira pandemia global que pode se inserir nos ecossistemas interconectados que sustentam nosso modo de vida atual.

Nunca passamos por um teste de estresse. Talvez não necessitemos. Mas, se for necessário, não existe nenhuma garantia de que vamos nos sair bem. / Tradução de Terezinha Martino

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