Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

Coronavírus tem potencial de invadir sistema nervoso central; inflamação leva à perda de olfato

Pesquisadores também alertam para a possibilidade de problemas neurológicos a médio e longo prazo

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2020 | 10h00


O novo coronavírus tem potencial para invadir o sistema nervoso central e provocar encefalites e mielites. Esse processo já foi documentado em estudos com modelos animais e parece ocorrer por meio de nervos como o trigêmeo e o nervo olfatório, segundo o professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da  Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Ribeirão Preto, Octávio Marques Pontes Neto. Pesquisadores também alertam para a possibilidade de problemas neurológicos a médio e longo prazo

"Estudos mostram que esse tipo de vírus pode invadir e migrar pelo neurônio e pode induzir a uma confusão no sistema imunológico", explica. "Há casos de mieloencefalite necrotizante hemorrágica no cérebro entre os infectados pelo vírus", afirma o professor. "A gente ainda não sabe exatamente é se o Sars-Cov-2 (o novo coronavírus) age diretamente, se a presença dele é gatilho para doenças imunes ou uma coincidência com outras doenças." 

Conforme o médico, está ficando cada vez mais claro que o quadro da covid-19 não ataca só o sistema respiratório, provocando a hipoxemia - a falta de ar. "Já há estudos que mostram que nos casos mais graves há até 5% de AVCs e outras tipos de enfartes", argumentou.  "A anosmia, que é a perda do cheiro e do gosto, é um dos sintomas mais comuns e decorre da infecção do nervo olfatório”, ressalta Pontes Neto. 

Já há documentação científica também da ocorrência da síndrome do anticorpo antifosfolípide (SAAF), um distúrbio autoimune que agride as paredes vasculares venosas e arteriais, além de motivo para o alerta nos casos de complicações em quadros de hipertensão. "Temos uma polêmica que envolve receptores nas células, a enzima conversora de angiotensina (ECA), usada pelo vírus para acessar o interior da célula", explica. Este receptor é o alvo de uma classe de medicamentos para controle da hipertensão. "Há indicações de suspensão dos medicamentos desta classe para hipertensos, mas há também indicações de que a suspensão do remédio possa provocar o efeito de acúmulo de receptores e, com isso, facilitar ainda mais a entrada do vírus na célula", acrescenta.

Um dos raciocínios dos pesquisadores, segundo o cientista, sugere a hipótese de menor ocorrência da doença em crianças exatamente por elas terem baixa concentração deste receptor. "Parece que por isso as crianças estão mais protegidas." De acordo com ele, o mais grave para pacientes de doenças pré-existentes, como hipertensão e diabete, na verdade, é o descontrole. "O importante é não ter hipertensão ou a diabetes descontrolada", afirmou.

Segundo Pontes Neto, estudo publicado nos últimos dias na revista The New England Journal of Medicine sobre paciente com covid-19  destaca a ocorrência de AVC e múltiplos enfartes pelo corpo do paciente, além de convulsões e de complicações associadas ao desenvolvimento da SAAF. Essa síndrome pode provocar outras complicações do aparelho circulatório, como tromboses. Ela afeta pacientes de outra doença crônica, o lúpus eritematoso sistêmico (LES), além de quadros reumatológicos. "À medida que a pandemia avança, a ciência conhece mais detalhes das complicações da doença e do impacto dela nas comorbidades dos pacientes."

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