REUTERS/Rafael Marchante
REUTERS/Rafael Marchante

Coronavírus testa superioridade genética feminina

Médico Sharon Moalem faz análise sobre a relação de mortes de homens e mulheres durante a pandemia provocada pela covid-19

Entrevista com

Sharon Moalem, médico e físico

Daniel Fernandes, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 12h00

Recentemente, em artigo opinativo publicado no The New York Times, o médico e físico Sharon Moalem chamou a atenção para um aspecto pouco explorado da triste pandemia provocada pelo novo coronavírus. A covid-19, aparentemente, atinge mais homens que mulheres. 

O próprio Moalem reconhece ser cedo para uma análise definitiva. Mas na China, em março, estudo indicava que apesar da taxa de contaminação ser parecida, a de mortes para homens era de 2,8% e 1,7% para mulheres. Por aqui, nos dados divulgados pelo Ministério da Saúde, do último dia 15, a situação era a seguinte: dos 1.421 óbitos com investigação concluída pelo governo, 852 eram homens, ou 60% do total, e 40% mulheres, ou 569 casos.

“Infelizmente, minha previsão em relação à sobrevivência feminina diante de pandemias e fomes está sendo ilustrada pelo aumento da mortalidade masculina”, afirma Sharon Moalem em entrevista exclusiva ao Estado

Essa constatação, aliás, faz parte da vida profissional do cientista, que lançará em breve estudo a respeito do tema no livro ‘The Better Half: On the Genetic Superiority of Women’. Ainda sem título em português, a obra deve chegar ao Brasil no primeiro semestre do próximo ano pela editora Cultrix, que acabou de adquirir os direitos do lançamento. Confira a seguir os principais trechos da entrevista. 

Quero começar perguntando sobre o seu novo livro. Na sua opinião, sobre o que ele trata realmente?

Trata-se da superioridade genética feminina e sua vantagem única de sobrevivência que está enraizada no fato de a mulher ter dois cromossomos X em oposição aos homens que possuem apenas um.

Você argumenta, através de duas décadas de pesquisa, que as mulheres vivem mais e têm um sistema imunológico mais forte que os homens. Quanto disso está sendo comprovado pela atual pandemia de covid-19?

Infelizmente, minha previsão em relação à sobrevivência feminina diante de pandemias e fomes está sendo ilustrada pelo aumento da mortalidade masculina observado em todos os países para os quais temos dados, que agora totalizam quase 40.

Em um artigo de opinião recente do The New York Times, você afirmou que essa diferença (a morte de mais homens do que mulheres por causa da covid-19) poderia ser explicada por fatores comportamentais. Mas você vai além e o mesmo artigo afirma que há um problema genético por trás disso. O que exatamente você quer dizer?

Comportamentos como o consumo de álcool e o uso de drogas podem ter um imenso impacto nos resultados de saúde, mas eu argumento no meu novo livro, ‘The Better Half’ sobre a superioridade genética das mulheres, que o maior determinante dos resultados de saúde é de fato cromossômico.

Quando você começou a estudar esse tema, essa diferença entre homens e mulheres? Qual é o interesse especial neste tópico?

Minha jornada começou há 20 anos, enquanto eu recrutava adultos mais velhos para estudos neurogenéticos na doença de Alzheimer e não conseguia encontrar homens adultos saudáveis o suficiente. Disseram-me que o motivo de 80% dos centenários serem mulheres era comportamental. Então, anos depois, eu estava cuidando de bebês prematuros na unidade de terapia intensiva neonatal e vi a mesma vantagem de sobrevivência de mais meninas que chegaram ao primeiro aniversário do que os meninos. Foi então que minha nova hipótese sobre a vantagem de sobrevivência feminina enraizada nos cromossomos sexuais XX começou a tomar forma.

Você cita um estudo publicado pelo Instituto de Medicina da Academia Nacional de Ciências indicando que era necessário considerar como variável importante o fato de o paciente ser homem ou mulher nos tratamentos. Por que isso não é considerado como deveria ser?

O paradigma da força biológica masculina e da fraqueza biológica feminina está profundamente enraizado e, por isso, o novo paradigma que proponho levará tempo para suplantar o atual, que prevalece há muito tempo.

Na sua opinião, quando será possível superar tudo isso? Como você vê o dia depois de amanhã?

A humanidade sempre sobreviveu a todos os desafios que enfrentamos como espécie e acredito que enfrentaremos o desafio de enfrentar esse também.

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