Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Corpo em movimento com a medicina chinesa

Tai chi chuan e liang gong são algumas das práticas que ajudam a promover a saúde harmonizando os cinco elementos energéticos no organismo

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

26 de março de 2022 | 05h00

Mover o corpo para se equilibrar. Não apenas no sentido físico, mas de modo integral. É possível trabalhar com os cinco elementos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) para estar em harmonia, por meio de práticas como tai chi chuan ou lian gong.

“Na filosofia chinesa, eles são os cinco movimentos da energia, chamada de chi ou qi”, explica Jaime Kuk, professor de práticas corporais terapêuticas da MTC. “Os cinco elementos são uma forma de tentar explicar como a natureza funciona. Na verdade, são movimentos energéticos presentes em tudo: o início; a expansão plena; a estabilidade; o recolhimento; e a ocultação, quando o movimento se esconde e se torna potencial, para recomeçar o ciclo.”

Em relação aos momentos do dia, ele exemplifica dizendo que a madeira é a manhã, enquanto o sol de meio-dia representa o fogo. O fim de tarde, a terra; o anoitecer, o metal; e a plenitude da meia-noite, a água. E cada elemento se relaciona com órgãos do corpo: a madeira com fígado e vesícula biliar; o fogo com coração e intestino delgado; a terra com baço e estômago; o metal com pulmão e intestino grosso; e a água com rim e bexiga.

De acordo com Kuk, as práticas corporais terapêuticas, todas conhecidas como chi kung ou qigong, têm as mesmas bases filosóficas da MTC e procuram harmonizar os cinco elementos no organismo para promover saúde. “Esse processo deve ser sentido pela pessoa. A gente começa a estudar imitando o instrutor, mas depois tem de sentir no corpo. Isso é chamado de perceber o chi, perceber o sopro vital”, afirma Kuk, que publica vídeos com atividades no seu canal do YouTube e divulga seus cursos em suavecorpo.com.br.

“O chi kung é uma das ferramentas da medicina. Todo médico chinês tem de conhecer e praticar para poder indicar para seus pacientes”, conta Kuk. No Brasil, ele ressalta que as práticas listadas abaixo estão disponíveis nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS).

O tai chi chuan é a mais difundida delas. Mas, mesmo quem já conhece essa atividade deve experimentar as demais, recomenda Flavia Toscano, monitora de Esportes do Sesc Avenida Paulista. “É importante conhecer as outras porque são movimentos diferentes. As técnicas se complementam. Podem ser trabalhadas isoladamente ou em conjunto.”

Segundo ela, todas as atividades a seguir são encontradas no Sesc Avenida Paulista, em algum momento do ano. “A gente sempre tem práticas tradicionais chinesas na programação regular. Agora está ocorrendo um curso de tai chi chuan, que começou em março e termina em abril. Há ainda um programa que mensalmente também traz ioga e práticas mais contemporâneas, como pilates.”

As atividades relacionadas à medicina chinesa, afirma Flavia, são bem flexíveis e adaptáveis para um público heterogêneo como o que os educadores do Sesc estão habituados a lidar, com idades e corpos variados. Todas buscam a harmonização do ser humano e o fortalecimento do chi, conta Kuk, mas apresentam “sutilezas quanto ao objetivo e à forma”. “Não há uma prática puramente de uma coisa só, mas existem as que usam mais de um dos cinco elementos.

Todas nunca separam corpo, mente, espírito e respiração, e visam trazer bem-estar, que é uma referência interna, não externa.” Ao contrário do que comumente se pensa sobre o conceito de zen como alguém mais parado, calmo, Kuk afirma: “Estar zen é estar em harmonia. Com isso, a pessoa é extremamente produtiva, mas não é workaholic e não sofre burnout”. Conheça a seguir algumas práticas corporais terapêuticas da MTC:

Tai chi chuan

“É uma luta, só que, como prioriza o trabalho energético e a harmonização, é mais conhecida como processo terapêutico”, explica Kuk. “Os movimentos devem ser arredondados e contínuos. A pessoa tem de dar e receber. Enquanto uma mão vai para um lado, a outra vai para o outro. O tai chi chuan sempre tem essas oposições”, diz ele. Flavia enfatiza que a proposta é de “equilíbrio das polaridades, do positivo e do negativo em você mesmo, não contra ninguém”.

Lian gong

Desenvolvido pelo ortopedista chinês Zhuang Yuan Ming, o lian gong vem das manobras de fisioterapia da China, diferentes da ocidental, explica Kuk. “É bom para quem sente dor na lombar, no pescoço, no ombro”, recomenda o especialista, sobre a primeira das três partes dessa prática, conhecida como “anterior”. Flavia acrescenta que na segunda parte, chamada de “posterior”, são as articulações de braços, mãos, pernas e pés que são trabalhadas.

I qi gong

“É a terceira parte do lian gong, tem como objetivo a prevenção e o trabalho das vias respiratórias e cardiovasculares”, explica Flavia. Como o i qi gong foca nas vias respiratórias e cardiovasculares, em tempos de pandemia de covid, essa prática pode auxiliar quem anda com dificuldade nessas áreas.

Treinamento perfumado

O nome chinês é xiang gong, mas a atividade é mais conhecida como treinamento perfumado. “Com o movimento repetido de mãos e braços, e depois da bacia, você desbloqueia os canais energéticos. É uma prática ligada mais diretamente aos canais da acupuntura”, diz Kuk. “Acabou se tornando uma técnica que é muito fácil de ser acessada por crianças e idosos.” Como pode ser realizada sentada, é indicada para quem tem dificuldade de locomoção, explica Flavia. Não foi criada por causa do perfume, e sim para fortalecer a saúde. Mas, como as mãos têm os canais energéticos, às vezes podem terminar exalando um cheiro que não está no ambiente, conta Kuk.

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