Corpos de bebês mal-acondicionados são 'ponta' do problema, diz promotora

Durante vistoria ao hospital ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Cristina Huth Macedo descobriu 40 corpos de bebês

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

14 Abril 2014 | 17h11

RIO - O acondicionamento inadequado de 40 corpos de bebês é apenas "a pontinha do problema" no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), afirma a promotora de Infância e Juventude Ana Cristina Huth Macedo. Ela começou a investigar o armazenamento de corpos quando pediu informações sobre o enterro de um bebê morto no HUPE, em 2012. Foi informada que a criança ainda não havia sido sepultada. Como aquele menino, descobriu outros 39 corpos nas geladeiras do necrotério do hospital, ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

"Os corpos não estavam acondicionados de maneira correta. Uns estavam em sacos amarelos, outros em sacos pretos, outros enrolados com lençol. Era tudo absolutamente irregular. O que a gente viu lá é indescritível, assustador, estarrecedor. Não é forma digna de armazenar qualquer corpo", afirmou Ana Cristina.

Além dos corpos dos bebês, ela contou que, durante a vistoria no hospital, encontrou duas gavetas com pernas e braços amputados que também não tiveram o descarte adequado. De acordo com a promotora, não há risco de contaminação por conta dos corpos armazenados. "A princípio, não (há risco). Peritos legistas que fizeram a vistoria comigo não relataram risco de contaminação para o hospital", afirmou.

Ana Cristina disse que o diretor do hospital, Rodolfo Acatauassú Nunes, não a acompanhou na vistoria. "Não recebi explicação nenhuma para aquela situação. Na melhor das hipóteses, é um descaso, um desrespeito", afirmou.

Descoberta. Os 40 corpos de bebês armazenados foram descobertos por acaso. Uma mulher deu à luz em junho de 2012 um bebê prematuro de 6 meses que pesava 800 gramas. Usuária de crack, ela abandonou o menino no hospital. A promotoria da Infância e Juventude foi comunicada, como é de praxe. A criança morreu em agosto daquele ano. Quando a promotoria enviou ofício, pedindo informações sobre o sepultamento do bebê, para encerrar o caso, foi informada que o corpo do menino continuava no necrotério do hospital.

Em uma vistoria, a promotora encontrou 40 corpos de bebês, 15 deles sem identificação nenhuma. Ela cobra do hospital a identificação dessas crianças por exame de DNA e "sepultamento digno" para os corpos. Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, o diretor do hospital reconheceu a falha e informou que abrirá sindicância para corrigir os problemas. "Há um problema social de as pessoas não buscarem os corpos dos seus filhos que evoluíram mal e vieram a falecer. Não se tem prazo máximo para sepultamento e você pode ter a expectativa de que o familiar vai vir pegar o corpo", afirmou, ao programa. Procurada, a assessoria do HUPE ainda não se pronunciou.

 

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