Vicente Damasceno/Arquivo Pessoal
Vicente Damasceno/Arquivo Pessoal

Corpos de vítimas da covid são trocados e família enterra parente errado em Natal

Caso ocorreu na noite desta terça-feira e foi descoberto quando a família enviou representante da funerária para a unidade hospitalar

Ricardo Araújo, especial para o Estadão

24 de março de 2021 | 22h16

NATAL - Dois homens mortos pela covid-19 após dias de internação em um hospital particular em Natal tiveram os corpos trocados no momento da liberação para o sepultamento. O caso ocorreu no início da noite desta terça-feira, 23, e foi descoberto quando a família de Gerd Luís Xavier Damasceno, de 63 anos, encaminhou representante da funerária para a unidade hospitalar. Lá, seria realizada a retirada do corpo e traslado ao cemitério, onde haveria o enterro sem velório. No necrotério do hospital, o funcionário da empresa funerária foi informado que o cadáver daquele paciente já havia sido liberado para outra família horas antes.

“Meu primo (filho do Gerd) achou estranho porque não tinha autorizado (a retirada do corpo por outra pessoa). Ele pediu para ver e foi ao necrotério fazer reconhecimento. Lá, ele se depara com outro corpo, que não era do meu tio. E constatou que o corpo havia sido trocado”, relata Vicente Henrique Damasceno, sobrinho da vítima. Logo após a identificação do erro, a equipe do Hospital do Coração, onde Gerd Damasceno ficou internado alguns dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), começou a investigar para qual família o corpo do idoso havia sido entregue.

No histórico dos óbitos registrados no local, constava a ocorrência de outra morte por covid-19 na passagem da segunda-feira, 22, para a terça-feira, 23. Um idoso, que também estava na UTI morreu por complicações causadas pelo vírus. O filho dele se encaminhou ao necrotério e, de longe, por meio de um vidro, reconheceu o corpo que seria o do seu pai, mas não era.

“A outra pessoa tinha falecido de segunda para terça. E quando ele (o filho) foi reconhecer, supostamente, o corpo do pai, ficou atrás de um vidro fosco e o corpo estava totalmente coberto por dois sacos, sem etiqueta alguma. O funcionário (do hospital) abriu só a parte da cabeça e os olhos estavam tapados. Ele reconheceu como se fosse o pai dele. Ele explicou para a gente, mostrando a foto do pai dele, e a gente viu que eram bem parecidos. Ele falou que estava bem abalado emocionalmente, que já tinha perdido alguns amigos próximos dias atrás e ele reconheceu como se fosse o pai dele”, relata Vicente Damasceno. A morte de Gerd Damasceno ocorreu por volta das 5h da terça-feira, 23.

Em nota, o Hospital do Coração explicou o caso. “Na madrugada de terça-feira, 23 de março, dois pacientes do sexo masculino, vítimas de covid, que estavam internados na UTI do hospital, faleceram. As duas famílias foram comunicadas para que viessem fazer o reconhecimento dos corpos. O filho de um dos pacientes, ao comparecer ao necrotério do hospital, fez o reconhecimento do corpo do outro paciente falecido como sendo o corpo do seu pai. Houve ainda falha do setor responsável ao não seguir nosso protocolo de conferência dos documentos necessários para a liberação do corpo para o sepultamento, o que contribuiu para a ocorrência constrangedora e inaceitável”, afirma a empresa. Na mesma nota, o Hospital do Coração se solidarizou com as famílias e frisou que está dando toda assistência.

À família do aposentado Gerd Damasceno, o hospital informou que tomou todas as providências administrativas para a correção da falha e entrou em contato com a funerária que fez o traslado e o enterro dele para que procedesse com a exumação do cadáver ainda na quarta. 

“A família já está bastante abalada, porque perdemos nosso primo. Não passou nem o luto do nosso primo e acontece isso com o meu tio. Também antes do meu primo, tínhamos perdido a esposa de outro tio nosso. Perante essas perdas, de sofrimento, acho que é um baque passar por uma situação de troca de cadáveres, sepultamento em jazigo de outra família. É muito dolorido”, lamenta Vicente Damasceno.

Os parentes de Gerd Damasceno analisam acionar a Justiça para cobrar indenização. “Penso que a culpa é toda do hospital, que tinha a guarda do corpo do nosso tio. Logicamente que a gente vai analisar para chegar a uma decisão”, ressalta Vicente, que é advogado.

Tristeza

A morte de Gerd Damasceno ocorreu 35 dias após a do seu filho, Gerdson Damasceno, de 36 anos, também pela covid-19. Gerdson, que era saudável e não se enquadrava nos grupos de risco para a doença, tratou os sintomas iniciais da infecção em casa, com ivermectina. Em poucos dias, o quadro de saúde foi agravado e ele precisou ser internado às pressas numa UTI, mas não resistiu e morreu no dia 18 de fevereiro passado.

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