Unesp/divulgação
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Corredores rodoviários transportam vírus e aceleram transmissão no interior paulista

Cidades que são polos regionais foram as primeiras a registrarem casos confirmados da doença, por terem contato mais direto com a Região Metropolitana de São Paulo, onde o vírus se espalhou primeiro

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 16h29

SOROCABA – As grandes rodovias que ligam a capital ao restante do Estado viraram rotas para a expansão do coronavírus no interior de São Paulo, indicam estudos da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A pesquisa mostra que cidades que são polos regionais foram as primeiras a registrarem casos confirmados da doença, por terem contato mais direto com a Região Metropolitana de São Paulo, onde o vírus se espalhou primeiro. A partir delas, houve a disseminação para as cidades do entorno. Até esta quarta-feira, 8, o Estado registrava 5.682 casos e 371 mortes pela doença. Desse total, 4.258 casos e 296 mortes eram da capital.

Conforme o pesquisador Carlos Magno Fortaleza, epidemiologista da Faculdade de Medicina da Unesp em Botucatu, a densidade urbana do Estado não é homogênea, mas as principais cidades estão ligadas à capital por grandes eixos de rodoviários. Membro do Centro de Contingenciamento do Coronavírus do Estado, ele conta que, após a entrada do vírus na região metropolitana pelos aeroportos que recebem voos internacionais, a chegada do vírus ao interior se deu por saltos em escala geográfica. “O salto é quando a pessoa sai de carro de São Paulo e vai parar em São José do Rio Preto, a mais de 400 quilômetros. Se ela está contaminada e não sabe, é o que basta para iniciar o ciclo da transmissão, que depois segue por contiguidade, ou seja, uma pessoa transmitindo para outras do seu contato.”

A partir da instalação do vírus nas cidades que são polo de atração regional, teve início a transmissão direta para as cidades vizinhas. “No caso de Rio Preto, já sabemos que cidades próximas, como Mirassol, têm casos confirmados. Dali, o vírus segue para cidades ainda menores, no que chamamos de transmissão hierárquica.” Segundo ele, com a ajuda dos mapas elaborados pelos pesquisadores, o governo estadual buscou se antecipar, decretando a quarentena no Estado todo. Ele acredita que a medida reduziu a transmissão, mas o pico da pandemia no interior ainda está para acontecer. “Estamos com um atraso de duas a três semanas em relação à capital, por isso é importante que as medidas de isolamento continuem sendo observadas no Estado todo.”

Mapa do vírus

Pesquisadores da Unesp de Presidente Prudente, que também integram o estudo, elaboram mapas diários de casos confirmados de coronavírus em todo o Estado. “O mapeamento deixa claro que a difusão está acontecendo das cidades maiores para as menores, em um efeito cascata”, disse o professor Raul Guimarães, do Laboratório de Geografia da Saúde da Unesp. Como os dados de casos confirmados estão saindo com atraso de até três semanas, devido à fila dos exames nos laboratórios, ele utiliza também os dados de internação hospitalar por síndrome respiratória grave.

Um dos efeitos do vírus, segundo ele, é que os casos de tuberculose grave quintuplicaram este ano. O Radar Covid 19, mapeamento criado pelo grupo da Unesp de Presidente Prudente, também investiga em redes sociais as tendências de expansão do vírus pelo interior. “Uma das pesquisas foca na mineração e análise de dados das redes sociais e outra, na análise de dados de rumores. Analisando as publicações diariamente, sabemos onde estão surgindo novos focos e, com a informação de dados confirmados, podemos elaborar mapas tecnicamente mais adequados”, disse.

As cidades apontadas como prováveis áreas de distribuição do vírus - Araçatuba, Araraquara, Bauru, Campinas, Marília, Piracicaba, Santos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, São José dos Campos, Sorocaba e Votuporanga – estão na rota das rodovias Anhanguera/Bandeirantes, Washington Luís, Marechal Rondon, Castelo Branco/Raposo Tavares e Dutra. No caso de Santos, o pesquisador observa que a cidade portuária também pode ter sido porta de entrada do vírus através de navios. Já Campinas integra o chamado ‘arco bandeirante’, região de forte interação com a capital, com trânsito diário intenso de pessoas entre as cidades e São Paulo.

O mapeamento aponta que as regiões com menor presença do vírus, como o Alto Ribeira, o sudoeste e o extremo-oeste paulista, não são atendidas por grandes rodovias. Em duas semanas, o número de cidades com casos confirmados no interior saltou de 6 para 93, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado. Até a manhã desta terça-feira, 8, 121 cidades do Estado tinham casos positivos de coronavírus, incluindo 28 municípios da Região Metropolitana de São Paulo. No dia 23 de março, eram 20 cidades com casos, mas a maioria – 14 – na RMSP.

Fortaleza destaca que o estudo permite saber com antecipação como o vírus vai se expandir e programar políticas públicas de redução do impacto nas comunidades. “O isolamento social é a única medida conhecida e testada para reduzir internações e mortes, mas precisa chegar também às pequenas cidades. A característica ruim das cidades menores é a maior população idosa. Os jovens saem para trabalhar fora e ficam os pais e avós. Geralmente, elas são distantes dos hospitais de referência e precisamos ter uma estrutura para dar apoio aos municípios pequenos, seja no transporte das pessoas doentes ou na instalação de leitos de UTI onde for possível.”

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