Márcio Pinheiro/SESA
Márcio Pinheiro/SESA

Corrida por cloroquina, testado para coronavírus, afeta tratamento de outras doenças

Pacientes com doenças autoimunes e com artrite relatam dificuldade para achar medicamento

Priscila Mengue, Mariana Durão e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2020 | 21h57


A corrida às farmácias para comprar hidroxicloroquina afeta a rotina de portadores de doenças autoimunes e de artrite, que tomam o medicamento de forma contínua. Na falta do remédio, pacientes decidiram até reduzir dosagem, mesmo sem indicação médica, para não ficar sem o medicamento. 

A hidroxicloroquina é testada para o tratamento da covid-19 em países como França, China e Estados Unidos. Atualmente, é indicada principalmente para o tratamento de artrite reumatoide e lúpus, além da malária.

"Desde ontem, já percorri quase todas as farmácia daqui, do Rio, liguei para várias, tentei comprar pela internet, mas também não consegui", conta a autônoma Marcelle Fassini, de 35 anos, de Nova Iguaçu. Ela toma a medicação há dez anos para o tratamento da lúpus. "Tentei manipular, mas também não consegui, uns lugares não têm e os que têm estão cobrando o dobro do que pago na farmácia. Já não sei mais onde procurar."

Marcelle tem estoque suficiente só para mais uma semana de tratamento. Mesmo sem indicação médica, decidiu diminuir a dosagem pela metade "até achar uma solução". "Não podem fazer isso com a gente, nos deixar sem medicação."

De Porto Alegre, a pedagoga Lisiane Clipes, de 36 anos, viu a notícia sobre a fala do presidente americano Donaldo Trump - que exaltou os benefícios da hidroxicloroquina para o tratamento da covid-19 - e resolveu ligar para a farmácia para pedir mais uma caixa do medicamento.

"Tenho pouco e imaginei que logo iria faltar, mas não havia mais em nenhuma", relatou. "Entrei em contato com meus familiares que também começaram a ligar e nada." Portadora de lúpus, ela acabou pedindo à médica para liberá-la para manipular o remédio. 

Já a estudante de técnico em enfermagem Ana Silva Gaia, de 21 anos, de Uberlândia, tinha consumido o último comprimido do medicamento na quinta-feira. Ela também é portadora de lúpus. “Fui procurar em algumas redes e já não tinha mais. Consegui pegar uma cartela (que dura um mês) hoje, no SUS”, conta. “Foi um desespero muito grande de verdade.”

Situação semelhante é narrada pela estudante de Psicologia Mikarla Campêlo, de 25 anos. “Fui em todas as farmácias praticamente da cidade. Me informaram que de um dia para o outro houve uma procura enorme. Pena que muitos que não necessitam dele compraram por desespero em face das pesquisas.”

De Santa Cruz, no Rio Grande do Norte, ela toma o medicamento para o tratamento de lúpus há seis anos. “Entrei em desespero, pois necessitamos desse remédio”, conta. “Estou de mãos atadas porque fui ontem no reumatologista, mas não haverá marcação de consulta por quatro meses e eu não tenho dinheiro para ir em um especialista particular.”

Medicamento tem três fabricantes no País

O medicamento é fabricado no País pela Apsen (com o nome de Reuquinol), EMS (genérico) e Sanofi Aventis (Plaquinol). Em nota, a EMS disse que vai aumentar a produção, com foco especialmente no abastecimento de hospitais.

A Ultrafarma afirmou que todas as 40 unidades disponíveis no site e as seis disponíveis em uma das sete unidades da rede em São Paulo foram vendidas na quinta-feira, no início do dia. A rede disse não ter previsão para repor o estoque, pois a EMS atenderá à demanda dos hospitais antes.

Uma das maiores redes do País, a Panvel também confirmou que todo o estoque de hidroxicloroquina está reservado exclusivamente para atendimento da rede hospitalar.

Pesquisa feita pela InterPlayers, fornecedora de sistemas que integram toda a cadeia de saúde, mostra que as compras nas farmácias tiveram alta de 29% na semana passada, ante a mesma semana de fevereiro. 

O monitoramento foi feito via sistemas de conectividade de farmácias, consumidores e distribuidores. A maior procura é por medicamentos para dor e inflamação (mais 50%) e antigripais (mais 123%). 

"Não está faltando medicamento. Isso precisa ficar muito claro. Não compre tarja vermelha sem prescrição médica. Isso causará maior dano que o coronavírus", alertou o presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini. 

Uso sem prescrição pode trazer riscos à saúde, diz especialista

Segundo José Roberto Provenza, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, o uso do medicamento só pode ocorrer por indicação médica. "Geralmente, não se prescreve para quem tem doenças cardiovasculares, hepáticas, oftalmológicas e gastrointestinais", diz.

"Também precisa verificar se não há interação medicamentosa e é preciso ficar atento às questões neuromusculares, porque alguns pacientes começam a sentir fraqueza, dores musculares, perda da visão, da aquidade visual", diz o médico.

Ele ressalta, ainda, que o medicamento não tem um substituto no tratamento da lúpus e da artrite. “Os pacientes vão acabar se descompensando clinicamente. A alternativa que os médicos não gostariam de lançar mão é aumentar a dose do corticóide, dos imunossupressores, o que coloca o paciente em risco.”

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