Cortar dieta no início da gravidez pode afetar desenvolvimento cerebral do feto

Americanos estudaram babuínos cujas mães tiveram alimentação reduzida nos primeiros meses

estadão.com.br

17 Janeiro 2011 | 23h56

SAN ANTONIO, TEXAS - Comer menos no início da gravidez pode comprometer o desenvolvimento cerebral do feto, segundo apontam cientistas do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, após um estudo feito com babuínos e publicado esta semana na revista Proceedings of National Academy of Sciences.

Os pesquisadores encontraram uma diminuição na formação de conexões entre células, na divisão celular e em fatores de crescimento em fetos de mães alimentadas com uma dieta reduzida na primeira metade da gestação.

"Essa é uma janela de tempo crítica, quando muitos dos neurônios, assim como as células de suporte no cérebro, nascem", disse o médico PhD Peter Nathanielsz, diretor do Centro de Pesquisa sobre Gravidez e Recém-Nascidos da Faculdade de Medicina da universidade.

O estudo incluiu colaboradores da Fundação Southwest para Pesquisa Biomédica (SFBR, na sigla em inglês), em San Antonio, e da Universidade Friedrich Schiller, em Jena, Alemanha. Os cientistas compararam dois grupos de mães de babuínos no Centro Nacional de Pesquisa de Primatas da Fundação Southwest.

Um dos grupos comeu o que quisesse durante a primeira metade da gravidez, enquanto o outro foi alimentado com 30% menos comida, um nível de nutrição semelhante ao que muitas futuras mães vivenciam nos Estados Unidos.

As etapas de desenvolvimento cerebral dos babuínos são muito parecidas às dos humanos, destacam os autores. A maioria dos trabalhos anteriores nessa área havia sido realizada com ratos.

Centenas de genes envolvidos

"Nossa colaboração nos permitiu determinar que o ambiente nutricional atinge o cérebro do feto nos níveis celular e molecular", afirmou a PhD Laura Cox, do SFBR.

"Ou seja, encontramos uma desregulação em centenas de genes, muitos dos quais são conhecidos por serem reguladores chave do crescimento e do desenvolvimento celular, o que indica que a nutrição desempenha um papel importante durante o desenvolvimento fetal, equilibrando a máquina celular básica", explicou.

Redução moderada versus severa

Sabe-se que a restrição de nutrientes, como em condições de fome, afeta negativamente o desenvolvimento do cérebro fetal. O autor sênior e PhD Thomas McDonald, membro do Centro de Ciências da Saúde, disse que o estudo "é a primeira demonstração dos efeitos graves causados pelos níveis de insegurança alimentar que ocorrem em alguns setores da sociedade americana, e também revela a vulnerabilidade do feto a uma redução moderada de nutrientes".

Segundo o dr. Nathanielsz, na gravidez de adolescentes, o desenvolvimento do feto é ainda mais desprovido de nutrientes, pelas necessidades da mãe em crescimento. Em gestações no final da vida reprodutiva, as artérias da mulher são mais rígidas, e o fornecimento de sangue para o útero diminui, prejudicando inevitavelmente a oferta de nutrientes para o feto.

Doenças como pré-eclâmpsia ou hipertensão na gestação também podem levar à diminuição da função da placenta, com menor distribuição de nutrientes para o filho.

Efeitos para a vida toda

"Esse estudo é mais uma demonstração da importância da saúde materna e de uma boa dieta", afirmou o dr. McDonald. "O relatório defende que as dietas pobres na gravidez podem alterar o desenvolvimento dos órgãos fetais - neste caso, o cérebro -, de forma que possa ter efeitos sobre o indivíduo, diminuindo potencialmente o QI e aumentando a predisposição para problemas comportamentais", destacou.

O processo de desenvolvimento da saúde tem desempenhado um importante papel no aparecimento posterior de obesidade, diabete e doenças cardíacas. À luz dessa nova descoberta, a pesquisa deve centrar-se sobre os efeitos do processo de desenvolvimento no contexto do autismo, da depressão, da esquizofrenia e de outros transtornos cerebrais.

Além disso, a pesquisa incentiva especialistas a reverem a noção comumente aceita de que, durante a gestação, a mãe é capaz de proteger o feto de desafios alimentares como a má nutrição, disse o dr. McDonald.

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