Javier Torres/ AFP
Javier Torres/ AFP

Covid-19: Estudo com infectados de propósito revela informações sobre fases e resistência à doença

Método de pesquisa que contamina voluntários se mostra seguro e pode servir para desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos, afirmam cientistas ingleses

Luiz Henrique Gomes, especial para o Estadão

09 de fevereiro de 2022 | 15h00

O Imperial College London, do Reino Unido, publicou as primeiras descobertas do estudo inédito de infecção deliberada de covid-19 em voluntários. Ainda não revisados pela comunidade científica, os resultados a princípio apresentam novas informações sobre os estágios iniciais da doença - como quando e onde o vírus se instala no corpo - e sobre a resistência de algumas pessoas em se infectar. Além disso, segundo os pesquisadores, uma das maiores contribuições é o modelo da pesquisa se mostrar seguro e, portanto, permitir que os estudos sejam aprofundados no futuro.

O estudo expôs 36 voluntários saudáveis, jovens (entre 18 e 30 anos) e não vacinados a uma carga da cepa original do vírus Sars-Cov-2, encontrada em Wuhan, na China. A quantidade de vírus aplicada nos voluntários, via nasal, é equivalente a encontrada em uma gota expelida do nariz de uma pessoa doente e que está no pico da infecção. Nesta fase, todos os participantes ficaram sob um ambiente controlado de quarentena. Nenhum evento adverso grave ocorreu.

Iniciado no ano passado, o propósito do estudo era entender como a infecção por covid-19 funciona no estágio mais inicial, antes mesmo da aparição dos sintomas. Os cientistas também afirmam que o método agora deve contribuir para pesquisas de desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos.

O primeiro fato observado pelos cientistas é de que a metade dos voluntários não foi infectada, mesmo sem proteção anterior à covid. Esse resultado também deve ser aprofundado em novas pesquisas para entender a capacidade de resistência de algumas pessoas à infecção pelo vírus.

Entre o grupo que se infectou, o que os cientistas descobriram é que o vírus evoluiu rapidamente, com a apresentação dos primeiros sintomas em 42 horas - ou seja, menos de dois dias a partir do contato com o vírus. Esse tempo também foi suficiente para os exames detectarem a presença do Sars-Cov-2.

Esse resultado altera o entendimento anterior de que o intervalo entre a exposição ao vírus até os primeiros sintomas era de cinco dias. “Este estudo forneceu mais dados importantes sobre a covid-19 e como ele se espalha, o que é inestimável para aprender mais sobre esse novo vírus, para que possamos ajustar nossa resposta”, afirmou Jonathan Van-Tam, uma das principais autoridades de saúde da Inglaterra, à imprensa inglesa.

Além disso, os cientistas descobriram que o vírus se instala inicialmente na garganta e posteriormente no nariz, onde uma quantidade maior é encontrada. Para os pesquisadores, isso reforça, por exemplo, a necessidade do uso correto de máscaras.

Outra descoberta é a quantidade de vírus encontrada no corpo dos infectados. Ela atinge o pico cerca de cinco dias após a infecção e permanece detectável até 12 dias depois. Os sintomas foram leves em sua maioria, mas alguns infectados desenvolveram sintomas moderados (falta de ar, dores musculares e febres). Parte deles também tiveram uma perda prolongada de olfato durante 90 dias. Todos serão acompanhados por 12 meses.

Na apresentação dos resultados, o investigador-chefe do estudo e professor de doenças infecciosas do Imperial College London, Chris Chiu, ressaltou que o fato dos voluntários serem adultos de até 30 anos permite entender mais como o vírus se espalha. "Acredita-se que as pessoas nessa faixa etária sejam os principais impulsionadores da pandemia e esses estudos, que são representativos de infecção leve, permitem uma investigação detalhada dos fatores responsáveis, pela infecção e propagação da pandemia", disse.

Segurança da pesquisa

Apesar de todas as novas informações, um dos resultados com maior destaque é a segurança desta pesquisa. Ela abre caminho para que novos estudos sejam realizados e mais informações sobre a covid-19 e o vírus do coronavírus sejam descobertas. Isso contribui para entender novas variantes e para desenvolver vacinas e medicamentos.

Segundo o investigador-chefe Chris Chiu, as descobertas sobre o contágio do vírus podem ser diferentes se forem analisadas variantes como a Delta e a Ômicron, mais contagiosas que a cepa original de Wuhan. “Com uma cepa mais nova, pode haver diferenças em termos de tamanho de resposta, mas, em última análise, esperamos que nosso estudo seja fundamentalmente representativo desse tipo de infecção”, disse na apresentação da pesquisa.

Esta é a primeira pesquisa de infecção deliberada com a covid-19 do mundo, mas o método já foi utilizado anteriormente para aprender mais sobre doenças como malária, gripe, febre tifóide e cólera e ajudou a desenvolver tratamentos e vacinas contra elas. “[Estes estudos] precisam de uma revisão ética completa e independente e de um planejamento muito cuidadoso – como foi o caso desta vez. Todas as precauções são tomadas para minimizar o risco”, declarou Jonathan Van-Tam.

Debate ético

Entretanto, o método não é unânime entre os cientistas. Num artigo de opinião publicado no jornal Washington Post no dia 19 de janeiro deste ano, o professor de política internacional Brian Klaas, da University College London, afirmou que alguns especialistas ainda se opõem ao método e o consideram antiético, mesmo quando os participantes consentem voluntariamente.

Segundo Klaas, esse entendimento contrário ao método de exposição deliberada está ligado à experimentos feitos em regimes ditatoriais, como a Alemanha nazista, grande parte das vezes contra a vontade dos participantes.

O professor ressalta que o hoje esse método passa por uma série de avaliações e debates antes de ser aplicado e tem como principal argumento o benefício para a saúde pública. Ainda assim, há uma parcela dos cientistas que questionam se existe a necessidade de expor um público ao risco de desenvolver formas graves da doença.

Outro questionamento apontado por Brian Klaas no artigo está em torno da “compensação” aos voluntários por se exporem ao risco. No estudo inglês, os voluntários receberam cerca de US$ 6 mil (equivalente hoje a R$ 31,5 mil) pelo “tempo e inconveniência” da pesquisa. Para alguns cientistas, isso induz uma parcela mais pobre da população a participar. Já os apoiadores da medida argumentam que uma quantia de dinheiro não altera necessariamente a decisão individual sobre participar ou não de uma pesquisa arriscada.

Revisão

As descobertas foram publicadas online pelo próprio Imperial College London no dia 2 de fevereiro, mas ainda não passaram pela revisão informal de outros cientistas para assegurar os resultados. Além do Imperial College London, a Vaccine Taskforce, o Departamento de Saúde e Assistência Social do Reino Unido (DHSC), a empresa clínica hVivo e o hospital Royal Free, em Londres, desenvolveram o estudo. /COM INFORMAÇÕES DA REUTERS E DO WASHINGTON POST

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