Wokandapix/Pixabay
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Covid-19: pandemia suspendeu serviços de saúde mental em 93% dos países do mundo, diz OMS

Inquérito realizado em 130 nações fornece os primeiros dados globais que mostram o impacto negativo do novo coronavírus no acesso a estes serviços

Marcela Coelho, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 09h10
Atualizado 08 de outubro de 2020 | 22h30

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um estudo nesta segunda-feira, 5, que mostra que 93% dos países do mundo interromperam serviços de saúde mental durante a pandemia de covid-19, sendo que o Brasil é um deles. Segundo a entidade, a pandemia multiplicou as necessidades neste campo e os transtornos mentais também têm um impacto muito negativo na produtividade das economias. O estudo da OMS é o resultado de uma avaliação em 130 países sobre os efeitos do novo coronavírus no acesso a estes serviços.

Os confinamentos forçados (em alguns países durante vários meses) e o consequente isolamento, além do medo que o coronavírus tem gerado na população, principalmente entre os grupos de maior risco, a morte de um ente querido e a perda de rendimentos são situações que agravaram a carga emocional da quarentena.

Na pesquisa, a OMS lembrou que a saúde mental é a área que menos recebe recursos dos orçamentos da saúde, com uma média inferior a 2%, apesar de as necessidades só aumentarem. Antes da covid-19, a perda de produtividade devido à depressão e à ansiedade entre os trabalhadores já era estimada em US$ 1 trilhão anualmente.

A avaliação da Organização revela que em 60% dos países foram interrompidos os cuidados na área da saúde mental para as pessoas mais vulneráveis, incluindo crianças, adolescentes, idosos e mulheres grávidas ou puérperas.

Numa porcentagem superior (67%), houve paralisação dos serviços de terapia e psicoterapia e em 65% os programas de tratamento da dependência de opiáceos deixaram de funcionar. Em um terço dos casos, os países interromperam as intervenções de emergência, incluindo aquelas para pessoas com convulsões prolongadas, delírios ou síndromes de abstinência. Não é possível saber se o Brasil está incluso nesses resultados. 

Para amenizar essa situação, muitos países optaram pela telemedicina e teleterapia também nos serviços de saúde mental, mas essa medida foi mais extensa nos países desenvolvidos (8 em 10), enquanto apenas metade dos países de baixa renda conseguiu fazer isso.

A OMS lembra que essa área da saúde é crítica e que pessoas que já sofriam de doenças mentais, neurológicas ou de dependência antes da pandemia estão mais suscetíveis à infecção pelo coronavírus.

Os dados atuais indicam que para cada dólar que um governo gasta em serviços de saúde mental há um retorno de US$5. Na crise atual, praticamente todos os países expressaram à entidade sua disposição de apoiar essa área da saúde, mas, na realidade, menos de 17% alocaram recursos adicionais.

Situação dos serviços de saúde mental no Brasil

O Brasil está entre os 93% dos países do mundo que precisaram suspender os serviços de saúde mental durante a pandemia de coronavírus. Segundo a OMS, todos os países das Américas que responderam à pesquisa do órgão tiveram um ou mais serviços de saúde mental interrompidos nesse período.

Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Dr. Antônio Geraldo da Silva, houve um “erro” nessa forma de agir no País, principalmente por parte dos municípios e governos estaduais. “Há um estigma muito grande em relação aos doentes mentais, ficando esses pacientes relegados a uma medicina de segunda categoria. Fecharam ambulatórios, fecharam os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), uma irresponsabilidade dos sistemas de atendimento que tem nos estados e municípios, não podendo fazer isso”, falou.

O professor de psiquiatria da Unisa e presidente do Departamento Científico de Psiquiatria da Associação Paulista de Medicina (APM), Kalil Duailibi, explicou que o “medo” do contágio por coronavírus fez com que muitos serviços fossem desativados por um bom tempo, e isso resultou em muitos pacientes do serviço público desassistidos. 

“No serviço privado, quem tinha algum problema, conseguiu fazer terapia online, atendimento com seu médico, psiquiatra, conseguiu receber a receita digital. Já quando eu vou pro serviço público, eu não posso fazer a consulta online, a gente não tem essa estrutura nem no Estado de São Paulo, que é melhor estado em termos de saúde pública do Brasil. Você não consegue fazer terapias online no serviço público. Esse paciente ficou muito desassistido no Brasil inteiro”, disse Duailibi. 

Ele também alertou para o fato de que estatísticas mostram que sobretudo os países em desenvolvimento, como o Brasil, vão ter que enfrentar uma epidemia de doença mental por conta dessa falta de assistência. “Quem tinha algum problema e estava se tratando, muitas vezes parou de se tratar. Quem tinha algum problema e não se tratava, piorou. E quem não tinha problema começou também a ter, porque mudou a rotina. Você começou a ter dificuldade de acesso a saúde como um todo. Está se prevendo e os países que já tiveram a covid-19 estão aí para mostrar isso, uma epidemia de saúde mental, principalmente, depressão, ansiedade, insônia e abuso de substâncias, como álcool e maconha”.

O presidente da ABP ainda explicou que o fato de as pessoas que necessitam de serviços de saúde mental não tê-los à disposição nesse momento de pandemia, pode gerar mais mortes por suicídio. “Mais mortes porque as pessoas não têm acesso ao tratamento. 100% de quem se suicida é porque tem doença mental. Doente mental se suicida porque ele é rotineiramente agredido por todos, mas ele só é agressivo se estiver sem tratamento”, falou.

Em nota, o Ministério da Saúde destacou que “a assistência às pessoas com transtornos mentais, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, acontece de forma integral e gratuita em diversas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o Brasil, conforme a necessidade de cada caso.”

De acordo o órgão, entre os serviços de referência para acompanhamento, estão 42 mil Unidades Básica de Saúde (UBS), 2.657 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e a Rede de Atenção Psicossocial (Raps), que conta com 691 residências terapêuticas, 66 unidades de acolhimento (adulto e infantojuvenil), 1.641 leitos de saúde mental em hospitais gerais, 13.877 leitos em hospitais psiquiátricos e 50 equipes multiprofissionais de atenção especializada em saúde mental, e 144 consultórios na rua.

A pasta também informou que uma “nota técnica emitida pelo Ministério da Saúde recomendou aos gestores dos serviços da Raps a não interromperem os atendimentos, porém tomando todas as medidas de prevenção para evitar a disseminação do coronavírus”. / Com agências internacionais.

Serviço: Onde procurar ajuda especializada em saúde mental?

- Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental (Caism)

Serviços prestados: emergências psiquiátricas 24 horas

Site: www.conversasdevida.com 

Endereço: Rua Major Maragliano, 241, Vila Mariana, São Paulo-SP

Contato: (11) 3466-2170

- Pronto Socorro em Psiquiatria da Unifesp

Serviços prestados: atendimentos psiquiátricos

Site: www.hospitalsaopaulo.org.br 

Endereço: Rua Pedro de Toledo, 720, Vila Clementino, São Paulo-SP

Contato: (11) 5576-4000/(11) 5576-4522

- Unisa

Serviços prestados: atendimento psicológico/psicoterapia para crianças, adolescentes, adultos e idosos; atendimento Psicológico/Psicoterapia de casal ou família;

Site: www.unisa.br

Endereço: Campus Metrô Adolfo Pinheiro - Rua Isabel Schmidt, 349, Santo Amaro, São Paulo-SP

Contato: (11) 2141-8870

- Hospital do Mandaqui

Serviços prestados: atendimentos psicológicos e psiquiátricos

Site: www.hospitalmandaqui.com.br

Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 4301, Mandaqui, São Paulo-SP    

Contato: (11) 2281-5000

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