Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Covid-19 pode causar diferentes problemas no cérebro em casos graves, aponta estudo

Pesquisa no Reino Unido identificou a ocorrência de uma série de efeitos do novo coronavírus como acidente vascular cerebral, alteração no estado mental e inflamação cerebral

Giovanna Wolf, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2020 | 19h34

Um estudo realizado no Reino Unido publicado nesta quinta-feira, 25, na revista científica The Lancet Psychiatry traz novas evidências de que a covid-19 pode causar diferentes complicações cerebrais em casos graves. A pesquisa analisou quadros clínicos de 125 pacientes hospitalizados com a doença e identificou a ocorrência de uma série de efeitos neurológicos do novo coronavírus como acidente vascular cerebral, alteração no estado mental e inflamação cerebral.

De acordo com os pesquisadores, mais de 60% das complicações neurológicas observadas foram de acidente vascular cerebral. A maioria desses quadros foi causada por um coágulo sanguíneo no cérebro, conhecido como AVC isquêmico, e uma minoria foi consequência de uma hemorragia cerebral - além disso, um paciente ainda sofreu um AVC causado por inflamações nos vasos sanguíneos no cérebro. Cerca de 82% dos participantes do estudo que apresentaram AVC tinham mais de 60 anos.

Para realizar a pesquisa, foi criada uma plataforma online no Reino Unido para médicos especialistas reportarem detalhes de casos específicos. Os dados foram coletados entre 2 de abril e 26 de abril de 2020, durante o pico da pandemia na região.

Benedict Michael, da Universidade de Liverpool, um dos autores do estudo, explicou, em comunicado à imprensa, que esses resultados são uma nova luz sobre o assunto. “Existem relatos crescentes de uma associação entre a infecção pela covid-19 e possíveis complicações neurológicas ou psiquiátricas, mas até agora essas ações eram tipicamente limitadas a estudos de dez pacientes ou menos”, afirmou.

A pesquisa também identificou que sintomas psiquiátricos como sinais de confusão ou mudanças no comportamento em cerca de 30% dos pacientes que tinham quadro clínico detalhado. Destes, alguns tiveram disfunção cerebral não especificada, conhecida como encefalopatia, enquanto outros apresentaram inflamação no cérebro, denominada encefalite. Além disso, alguns pacientes apresentaram sinais de uma psicose de início recente e também transtornos de humor, como ansiedade e depressão.

O neurologista Li Li Men, da Unicamp, destaca que esses sintomas psiquiátricos podem ser decorrentes de um conjunto de fatores. “Para o cérebro funcionar direito, é preciso uma oxigenação adequada, que pode ser impactada tendo em vista o comprometimento pulmonar da covid-19. Além disso, outra manifestação da doença é atacar os rins, que também são importantes para o funcionamento do cérebro.”

Casos graves

O estudo se concentrou em pacientes hospitalizados, ou seja, casos suficientemente graves para exigir hospitalização. “É importante se atentar para a amostragem usada nesta pesquisa no Reino Unido, que se baseou em casos graves. Se considerarmos um hospital que interna pacientes não tão graves, os resultados vão se diluir”, diz Li Li Men, da Unicamp. “A principal mensagem que o estudo traz é de que em quadros graves de covid-19 deve-se preparar para uma série de eventos neurológicos que poderão vir associados.”

Os pesquisadores britânicos reconhecem a necessidade de estudar o impacto neurológico do novo coronavírus em casos não tão graves. “Precisamos de estudos detalhados para entender os possíveis mecanismos biológicos subjacentes a essas complicações, para que possamos explorar possíveis tratamentos”, disse Benedict Michael, da Universidade de Liverpool.

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