André Santos/PMU
Pacientes deixam o Hospital Regional de Uberaba André Santos/PMU

Covid avança pelo interior e coloca pequenas e médias cidades à beira do colapso

Sistemas de saúde de municípios do interior estão saturados, com 100% dos leitos ocupados, filas de espera por vagas de UTI e equipes correndo para antecipar altas e abrir espaço para doentes gravíssimos

Fabiana Cambricoli, José Maria Tomazela e Leonardo Augusto, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 11h01

Com a alta de internações por covid-19 no País e a confirmação da presença da nova variante do vírus em vários Estados, cidades pequenas e médias de todas as regiões já enfrentam situação próxima do colapso, com 100% dos leitos ocupados, filas de espera por vagas de UTI e equipes correndo para antecipar altas e abrir espaço para doentes gravíssimos.

A situação foi relatada por médicos, secretários municipais de saúde e pacientes de 8 Estados ouvidos pela reportagem entre quarta e quinta-feira. Alguns dizem já estar recusando novas internações e temem que o cenário piore nas próximas semanas por causa da disseminação da nova cepa do vírus, potencialmente mais transmissível, e do provável aumento de hospitalizações decorrente de aglomerações vistas no Carnaval.

Um dos cenários mais dramáticos acontece na região do Triângulo Mineiro. Em Uberlândia, há 222 pacientes internados em unidades de terapia intensiva para tratamento de covid-19, o que corresponde a 95% da capacidade total de atendimento do município.

A situação mais grave, no entanto, é observada em Monte Carmelo, município de 48 mil habitantes da região. O Hospital Municipal Alberto Nogueira, único na cidade para o tratamento da covid-19, está há mais de um mês com 100% de ocupação de seus 16 leitos de UTI e teme desabastecimento de oxigênio porque o número de novos casos e internações não para de crescer. Somente nesta quinta-feira, 18, foram 160 casos confirmados. Para efeito de comparação, a capital do estado, Belo Horizonte, com 2,4 milhões de habitantes, registrou 62 casos da doença de terça para quarta-feira. 

No último sábado, 13, o prefeito de Monte Carmelo, Paulo Rocha, publicou vídeo nas redes sociais pedindo a doação de cilindros vazios para o hospital da cidade. Naquele dia, o consumo, que antes da pandemia era de cinco por dia, chegou a 54. Na quinta, passou para 123. "O quadro de saúde dos pacientes está piorando muito rapidamente, o que eleva o consumo de oxigênio", disse Rocha. O prefeito afirma que vem conseguindo comprar o insumo de empresa em Uberlândia.

O município enfrenta ainda falta de profissionais para tratamento dos pacientes. Médicos e enfermeiros estão sendo deslocados de postos de saúde para o hospital. Com a crise aguda no sistema de saúde do Triângulo, o secretário de estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, visitou a região nos últimos dois dias. Em Uberlândia, afirmou que vai dar todo apoio aos municípios e também dialogar sobre a situação com o governo federal.

No interior de São Paulo, cidades como Araraquara, Jaú, Valinhos e Botucatu estão há dias com todos os leitos de UTI ocupados. Em Jaú, onde já circula a variante brasileira do novo coronavírus, a Santa Casa abriu 30 novos leitos de enfermaria para covid, mas a pressão sobre o sistema hospitalar não diminuiu. O hospital ainda tem pacientes acomodados de forma improvisada, fila de espera e já recorreu à central de regulação de vagas do Estado para transferir pacientes para outras cidades.

Em Araraquara e Valinhos, a quinta-feira foi o quarto dia consecutivo de UTIs operando com 100% de sua capacidade. Em Valinhos, a prefeitura passou a usar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para estabilizar pacientes com covid até a abertura de vagas hospitalares.  

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu também registra ocupação acima de 100%. “O HC tem atingido diariamente sua ocupação máxima e, neste momento, estamos com 106% de ocupação, o que significa que, além dos 30 leitos de UTI covid disponíveis, mais dois leitos estão ocupados por quatro pacientes positivos”, disse, em nota.

No Paraná, a região de Maringá vive à beira do colapso há semanas. No Hospital Universitário da cidade, a ocupação segue em 100% mesmo com a ampliação de leitos, como conta o intensivista Edvaldo Vieira de Campos, coordenador médico da UTI da unidade.

“Antes da pandemia, tínhamos oito leitos de UTI. Abrimos 20 novos. Para um hospital do nosso porte, é um aumento absurdo. Mas, mesmo assim, nas últimas semanas estamos rodando com 100% da capacidade. Hoje (quarta-feira), temos, na verdade, 105% de ocupação porque, além de todos os leitos da UTI ocupados, temos um paciente na sala de emergência em cuidados de terapia intensiva até abrir vaga”, conta o médico.

“A gente tenta agilizar as altas de pacientes melhores para a enfermaria, mas quando você tem 20 pacientes entubados, não tem como fazer isso. Ainda não tivemos nenhum caso de a pessoa ficar sem atendimento, mas a linha entre a superlotação e o colapso é muito tênue. É uma situação que nos tira o sono”, declarou o especialista.

No Rio Grande do Sul, cidades da Grande Porto Alegre, como São Leopoldo e Gravataí, e da região da Serra Gaúcha, como Gramado, registram superlotação. A cidade turística foi a primeira a ter a confirmação da nova variante no Estado. No Hospital Arcanjo São Miguel, único do município, os 19 leitos de UTI estão ocupados. Nesta quinta-feira, a prefeitura endureceu as medidas restritivas.

“O retorno das aulas foi suspenso, proibimos eventos e a ocupação de restaurantes, bares e parques deve ser reduzida. Suspendemos cirurgias eletivas e os leitos cirúrgicos estão sendo adaptados para atender covid”, explicou o secretário municipal da Saúde de Gramado, Jeferson Moschen.

No oeste catarinense, a situação também é desesperadora. Na última quinta-feira, três dos quatro hospitais de Chapecó estavam superlotados.

Na região Norte, Santarém, cidade com 300 mil habitantes no interior do Pará, enfrenta situação difícil. "Tínhamos 20 leitos de UTI antes da pandemia e fomos ampliando, mas nunca é suficiente. Ampliamos para 40, para 50 e agora já estamos com 60 e, mesmo assim, está 100% ocupado e com fila de espera de doentes na UPA precisando ser transferidos”, conta Antonio Carlos Alves da Silva, coordenador da UTI do Hospital Regional do Baixo Amazonas. Ele diz que, na quinta-feira, 7 pacientes estavam na fila para transferência, mas que já chegou a ter demanda de 25 leitos nos últimos dias.

Ele comenta ainda a falta de profissionais para atender a demanda crescente. “Tivemos que parar a residência de alguns médicos recém-formados para colocá-los na nossa escala da UTI”, conta.

Mesmo no Centro-Oeste, região que, ao longo da pandemia, teve aumento mais tardio de casos de covid, a situação de superlotação não é diferente. Em Ponta Porã, município do interior do Mato Grosso do Sul que faz fronteira com o Paraguai, não há mais leitos disponíveis e a equipe médica do hospital local também acelera altas de pacientes menos graves para abrir vaga para outros doentes.

"Já estamos em uma situação de colapso agora. Tenho pacientes na sala vermelha de emergência esperando por uma vaga de UTI. Estamos dando alta precoce da UTI para abrir vaga, liberando para o quarto pacientes que geralmente deixaríamos mais dois ou três dias na terapia intensiva", diz Demetrius do Lago Pareja, diretor geral do Hospital Regional de Ponta Porã, unidade com 20 leitos de terapia intensiva dedicados à covid.

"Hoje conversei com a Câmara de Vereadores e com o Ministério Público sobre a necessidade de lockdown. Se já está assim agora, vai piorar muito com a circulação da nova variante", desabafa o médico.

No Nordeste, Ceará é um dos Estados com municípios do interior em situação difícil. Hospitais de Juazeiro do Norte estão lotados e recorrem até a hospitais privados de municípios vizinhos para transferir doentes. Médicos temem que a demanda crescente leve todo o sistema ao colapso.

"Estamos recebendo pacientes com outras doenças vindos de Juazeiro para que os hospitais de lá possam abrir vagas para doentes com covid", conta o intensivista Meton Soares de Alencar, que trabalha em um hospital privado do município de Crato, vizinho à Juazeiro. A unidade já está com os leitos de terapia intensiva 100% ocupados e o especialista teme que a situação vivida por Manaus se repita na região.

"O colapso não aconteceu só no Amazonas, ocorreu em países ricos da Europa, como Itália e, mais recentemente, em Portugal. Recentemente saiu um estudo americano com instruções sobre como economizar oxigênio no suporte a pacientes em UTI com covid. Se países ricos estão preocupados com isso, fica claro que o colapso visto em Manaus pode acontecer em qualquer lugar", comentou.

Assessor técnico do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Alessandro Chagas afirma que os relatos colhidos pela reportagem em vários Estados se repetem em todo o País. Ele destaca que, enquanto não houver o controle da transmissão, a abertura de novos leitos nunca será suficiente. "É como enxugar gelo. Claro que abrir mais leitos é importante, mas eles não vão dar conta se a gente não seguir as medidas não farmacológicas de distanciamento e não insistir em testar mais e isolar pessoas contaminadas e seus contatos", defende.

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Com segundo pico de pandemia, hospitais esgotam leitos no interior de SP

Governo estadual confirma que, só nas últimas 24 horas, mais 398 pacientes foram internados em UTI

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2021 | 11h00

SOROCABA – Cidades do interior de São Paulo enfrentam a segunda onda da pandemia de covid-19 com hospitais lotados. Já há doentes morrendo por falta de leitos em UTI, segundo parentes das vítimas. Em pelo menos cinco cidades, além da capital, já foram detectados pacientes com a variante do novo coronavírus. O governo estadual confirmou que, só nas últimas 24 horas, mais 398 pacientes foram internados em UTI e  informou que está reforçando a estrutura hospitalar com novos leitos.

Em Jaú, onde já circula a variante brasileira do novo coronavírus, foram registrados 78 novos casos de infecção pela covid-19 nesta quinta-feira (18). A Santa Casa abriu 30 novos leitos de enfermaria para covid, mas a pressão sobre o sistema hospitalar não diminuiu. O hospital ainda tem pacientes acomodados de forma improvisada, fila de espera e já recorreu à central de regulação de vagas do estado para transferir pacientes para cidades da região.

Foram confirmadas mais seis mortes pela doença na cidade, chegando a 258 óbitos, mas ainda há três em investigação. Segundo o prefeito Ivan Cassaro (PSD), a expectativa é de um novo reforço nos leitos hospitalares prometido pelo governo estadual. A prefeitura decretou o fechamento parcial do comércio, a proibição da venda de bebidas alcoólicas e lançou um apelo para que pessoas de outras cidades não visitem Jaú. “Se não melhorar, na semana que vem vamos fechar mais”, disse Cassaro, antecipando um possível lockdown.

Em Araraquara, onde foram constatados 12 casos da variante brasileira, pelo quarto dia consecutivo, a quinta-feira (18) foi de UTIs lotadas. Nos últimos dois dias, nove pacientes que estavam internados morreram, mas os leitos que vagaram já foram preenchidos, voltando à ocupação de 100%, com 67 doentes. Há ainda 152 pacientes em enfermaria. Na quarta, pacientes em estado grave tiveram de esperar por vagas. Além das mortes, a cidade, que está em lockdown, registrou 197 novos casos da doença. Dos 209 pacientes internados, 60 estão em UTI. Do total de internados, 35 são de outros municípios e, por falta de vagas locais, foram transferidos para Araraquara.

Em Valinhos, na região de Campinas, esta quinta-feira foi o quarto dia consecutivo de 100% de ocupação em leitos de UTI. A chegada de novos pacientes fez a prefeitura recorrer ao sistema de regulação de vagas do Estado. A prefeitura passou a usar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para estabilizar pacientes com covid até a abertura de vagas hospitalares. Em redes sociais, moradores pediram a regressão da cidade, que está na fase amarela do Plano São Paulo, para a vermelha, a mais restritiva. Em Vinhedo e Mogi Mirim, na mesma região, a lotação dos leitos de UTI também atingiu 100%.  

Campinas tinha, nesta quinta, apenas quatro leitos de UTI disponíveis para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), com o maior número de pessoas internadas nos últimos cinco meses. Havia 219 doentes internados, número registrado apenas no início de setembro de 2020. Considerando toda a rede hospitalar, a taxa de ocupação era de mais de 85%, considerada situação de alerta. Dos quatro leitos de UTI disponíveis na rede municipal, três são de uso exclusivo para grávidas.

Em Sorocaba, o hospital estadual Adib Jatene voltou a registrar 100% de ocupação, com pacientes em seus 20 leitos de UTI covid. No Conjunto Hospitalar de Sorocaba, também estadual, dos 30 leitos de UTI covid, 25 eram ocupados. Na Santa Casa, conveniada com o município, dos 21 leitos clínicos para covid, 19 eram usados. Em 24 horas, a cidade registrou 138 casos e seis mortes pela doença.

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu registrou mais uma vez ocupação acima de 100%. “O HC tem atingido diariamente sua ocupação máxima e, neste momento, estamos com 106% de ocupação, o que significa que, além dos 30 leitos de UTI covid disponíveis, mais dois leitos estão ocupados por quatro pacientes positivos. O número de pacientes internados é maior do que os leitos disponíveis por seguirmos cumprindo o nosso compromisso em promover assistência a todos os pacientes que precisam do HC neste momento”, disse, em nota.

Outras cidades enfrentam o excesso de pacientes. Tatuí tinha 100% dos leitos clínicos ocupados e, em UTIs, a ocupação era de 77%, segundo a prefeitura. Na Santa Casa, os pacientes com covid-19 lotavam o segundo piso do hospital. Em Barretos, a taxa de ocupação de leitos covid subiu de 66% para 80% nos últimos dez dias. Nesta quinta, 51 pacientes estavam internados com a doença em UTIs. O número é o maior este ano. Presidente Prudente registrou recorde de hospitalizações desde o início da pandemia, com 99 pessoas internadas, 36 em UTI.

A Secretaria de Saúde de São José dos Campos informou na quarta-feira (17) o registro de seis casos de variantes brasileiras do novo coronavírus. Uma mulher de 88 anos que apresentou a variante de Manaus morreu. A idosa tinha histórico de hipertensão e diabetes. Os outros pacientes, com idades entre 25 e 68 anos, apresentaram sintomas leves. Segundo a prefeitura, nenhum dos pacientes viajou. O município ainda investiga a forma de contágio e acompanha os parentes dos infectados.

A prefeitura de Peruíbe, no litoral sul paulista, confirmou nesta quarta um caso de contágio pela variante britânica do coronavírus. O infectado é um homem de 45 anos que trabalha na enfermaria de um hospital de São Paulo. O exame positivo foi realizado no Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (USP). Devido aos sintomas, o paciente chegou a ser internado, no dia 14 de janeiro, no Hospital Regional de Itanhaém. Após receber alta, ele continuou o isolamento em casa e nenhuma pessoa de seu contato apresentou sintomas. Este ano, o governo paulista já havia registrado sete casos da variante britânica, cinco na capital e dois em Sorocaba.

Sobre a alta taxa de ocupação de leitos para covid-19 em cidades do interior, a Secretaria da Saúde do Estado informou que a média estadual é de 66,5% em leitos de UTI, com 6.162 pacientes internados para tratamento intensivo, número que está em alta. Nas últimas 24 horas, mais 398 leitos foram ocupados. A pasta informou que o número de estruturas está sendo ampliado. A região de Araraquara recebeu 70 novas unidades e a de Bauru, que inclui Jaú, terá 96 novos leitos. As duas regiões receberam também mais respiradores. Jaú terá 29 leitos de enfermaria e 9 de UTI no hospital de campanha, que está em obras. A Santa Casa terá mais 30 leitos de enfermaria e 18 de UTI.

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Em Chapecó, enfermaria da endoscopia vira ala de covid

Pacientes internando mais cedo e danos maiores indicam comportamento diferente da doença; Estado pede adoção de protocolo de Manaus para vacinação em massa

Fábio Bispo, especial para o Estadão

19 de fevereiro de 2021 | 11h00

FLORIANÓPOLIS - Karima Ahmad, 24 anos, descobriu na quarta-feira, 17, que estava infectada pelo coronavírus, após apresentar os primeiros sintomas da doença e procurar uma farmácia. No dia seguinte foi a vez da mãe, Leila Ahmad, de 50 anos, testar positivo. A jovem, que apresentou sintomas mais fortes, como febre, cansaço e tontura, tentou duas vezes atendimento, mas não conseguiu: “Está tudo superlotado, tanto público quanto privado, tentei ir duas vezes, mas muita espera. Me senti mal na fila e voltei para casa”, contou ao Estadão por telefone. Ela e a mãe estão isoladas em casa, e sem nenhum tratamento. Pretendem voltar à unidade ainda essa semana e esperar até serem atendidas.

Dentro dos hospitais, a enfermaria da endoscopia virou ala de covid. Faltam leitos e espaço. “A situação é de caos em Chapecó. Antes, nós estávamos internando pacientes após 12 dias do contágio, agora, após cinco dias as pessoas já estão precisando de internações. O quadro clínico também é um pouco diferente, há casos de infecções bastante avançadas em poucos dias”, explicou a médica infectologista Carolina Cipriani Ponzi.

Nesta quinta-feira, antes das 9h da manhã, a médica já tinha atendido 20 novas internações por coronavírus no Hospital da Unimed em Chapecó, onde quatro setores do hospital foram adaptados exclusivamente para atendimento de covid-19. “Temos mantido conversas com infectologistas do Brasil todo e o que percebemos é uma mudança no perfil do vírus. A testagem nos pacientes confirma que é o mesmo patógeno, mas ainda não temos a comprovação de fato que se trata de mutação”, emenda.

A Secretaria da Saúde do Estado pediu ao ministro Eduardo Pazuello (Saúde) que seja aplicado em Chapecó o mesmo protocolo de Manaus, para ampliação dos grupos de vacinação. A ocupação dos leitos de UTIs na região está no limite da capacidade há mais de 20 dias. A transferência de pacientes virou rotina, em duas semanas 74 pessoas foram encaminhadas para hospitais de outras regiões. O número de mortes aumentou e na quarta-feira, 17, a cidade somou 41 óbitos em 24 horas, maior registro desde dezembro, quando a região enfrentou um boom de casos.

Ainda não há comprovação da nova variante do vírus em Chapecó. Até o momento, em Santa Catarina, foram quatro casos importados confirmados da variante P.1, circulante em Manaus, todos registrados em Joinville: são dois homens residentes na cidade, de 55 e 71 anos; e um homem, de 69 anos, e uma mulher, de 64; residentes no Amazonas. Todos já tiveram alta hospitalar.

O prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), que vinha resistindo a adotar medidas de isolamento mais rígidas, anunciou novo decreto na tarde desta quinta-feira proibindo festas e eventos sociais, mesmo festas de famílias. Também será reduzido horário de funcionamento dos estabelecimentos e a venda de bebidas para consumo no local está proibida, como em postos de combustíveis e lanchonetes. As aulas em Chapecó também seguem suspensas.

Na quarta, o governador Carlos Moisés (PSL) anunciou a ampliação de 34 leitos de UTI e 10 leitos de enfermaria na região Oeste. E a Assembleia Legislativa destinou R$ 20 milhões de seu orçamento também para a ampliação de leitos.

Para Carolina Ponzi, a abertura de novos leitos é necessária e urgente, mas frisa que ainda são necessárias mais ações preventivas. “Abrir novos leitos é a postura reativa, o que precisamos ter também é uma postura preventiva”, afirmou. Segundo a médica, há muitos pacientes na região sendo atendidos em situação “que não é a ideal”, como pessoas intubadas em prontos-socorros.

“Se fizermos uma conta de padeiro, simples, considerando que 80% dos casos são leves e vão ter que ficar isolados em casa. Temos indústrias com 50, 100 pessoas afastadas por covid. Sendo que 20% precisa de atendimento hospitalar e 5% de UTIs, hoje, precisaríamos no mínimo de 200 leitos”, explicou.

Atualmente a cidade conta com 2.051 casos de infectados com vírus ativo, segundo dados do governo do Estado. Em Chapecó, onde a situação é a mais crítica da região, tem apenas 52 leitos ativos, todos ocupados. Na região oeste, nas quatro unidades públicas são 115 leitos, 113 deles estavam ocupados nesta quinta-feira. Todas as unidades básicas do município estão atendendo casos confirmados e suspeitos, fazendo uma primeira triagem.

Até o momento, Santa Catarina utilizou 58% das doses das 298 mil vacinas enviadas pelo governo federal. A Secretaria de Saúde do Estado aguarda o envio de novas doses para contabilizar quantas poderão ser enviadas para Chapecó. A cidade aplicou, até o momento, 8.586 doses -0,03% da sua população de 224 mil habitantes -, sendo 910 já imunizados com a segunda dose.

O Ministério Público de Santa Catarina e o Ministério Público de Contas têm cobrado celeridade e transparência na vacinação nos municípios. O Estado tem tido dificuldades de contabilizar e demonstrar aos órgãos de controle o número de vacinados, além de apresentar lentidão na vacinação. Na segunda-feira, o MP emitiu recomendações aos prefeitos de todas as regiões para esclarecer diretrizes que deveriam ser seguidas para otimizar e agilizar a campanha de imunização. Na mesma recomendação, o promotor de Justiça Luciano Trierweiller Naschenweng apresentou estudo que aponta três anos para que o Estado consiga imunizar 70% da população no atual ritmo de aplicação das doses.

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