Gerd Leonhard
Gerd Leonhard

Covid é teste sobre como humanidade precisa lidar com clima, diz futurista

Gerd Leonhard virá ao Brasil neste ano para participar do do 2º Congresso Olímpico Brasileiro, que ocorrerá entre 19 e 20 de março, em Salvador

Entrevista com

Gerd Leonhard, pensador da era digital

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

02 de janeiro de 2022 | 05h00

Pensador da era digital, o alemão Gerd Leonhard virá ao Brasil para participar do 2º Congresso Olímpico Brasileiro, que ocorrerá entre 19 e 20 de março, em Salvador. O futurista tem mais de 25 anos de experiência na indústria de tecnologia e entretenimento, é autor de best sellers e já deu mais de 1.600 conferências ao redor do mundo, sempre falando sobre tecnologia, ciências e humanidades.

Em entrevista ao Estadão, ele falou sobre como é possível salvar o planeta dos desastres ambientais no futuro, o impacto da pandemia de covid-19 e o que será preciso fazer para lidar com os grandes problemas globais. Considerado um dos pensadores mais influentes do mundo por publicações como a Wired e The Wall Street Journal, ele também coloca o Brasil no centro do desenvolvimento sustentável. "Os próximos dez anos trarão mais mudanças do que os 100 anos anteriores", avisa.

Como você avalia o impacto da pandemia de covid-19 no mundo?

Basicamente, é como um botão de resetar. Tudo que a gente considerava normal mudou. E isso não vai embora e vai se tornar o "novo normal". Tem sido um teste duro para todos. Para os governos, para a cooperação. Mas também nos mostrou muitas coisas interessantes. Vimos que é possível colaborar, como no caso das vacinas, mas para distribuir os imunizantes, nós não cooperamos bem.

Foi possível aprender algumas lições com tudo isso?

A covid-19 é um teste inicial para as mudanças climáticas. Tudo que estamos fazendo para lidar com a covid-19, como dinheiro extra, mais esforços, para além dos governos, estamos aprendendo que precisamos fazer isso também para lidar com as mudanças climáticas. Temos diferentes legislações, precisamos cooperar, é uma lição dolorosa que tivemos. Acho que de muitas maneiras a covid-19, para as pessoas jovens, é como a Segunda Guerra Mundial para os meus pais. É como uma parada, o início de um grande período de mudanças. Por isso digo que os próximos dez anos trarão mais mudanças do que os 100 anos anteriores. Então é um momento difícil, mas que traz grande oportunidade para resetar o que estamos fazendo e como estamos fazendo.

A pandemia também reforçou disputa entre fake news e informação confiável. Acredita que esse conflito ainda vai durar por muito tempo?

Acho que essa é uma outra coisa boa que veio da pandemia de covid-19. Nós percebemos que realmente precisamos ter bons meios de comunicação para informar as pessoas. Não pode ser apenas uma máquina como Facebook e seus algoritmos. Nos últimos dois anos vimos como as notícias ruins correm rapidamente, por causa das mídias sociais, e muitas pessoas passaram a desenvolver uma visão distorcida do mundo. Agora com a covid-19 percebemos que precisamos cooperar, entender uns aos outros e isso significa que precisamos ter meios de comunicação melhores. Imagino que vamos ter mais regulação das mídias sociais, em muitos países vamos ter mais financiamento da mídia pública e não poderemos ter mais mídias geradas apenas por máquinas, como por inteligência artificial. O Facebook, por exemplo, tem conteúdo, mas não escreve nada. Acredito que teremos uma Renascença dos meios de comunicação, com pessoas reais, histórias reais, jornalismo, verdade... Acho que isso está voltando.

Quais temas pretende abordar em sua palestra no Congresso Olímpico Brasileiro?

Eu vou falar sobre como eu vejo os próximos anos e minha receita para um futuro bom. Eu fiz um filme sobre isso. Vou falar sobre isso, o que significa e como podemos concretizar isso. Temos toda tecnologia e ciência que precisamos para consertar as coisas, seja na energia, na questão da água, da alimentação. O que não temos às vezes é a sabedoria. Temos governos ruins, legislações de impostos ruins, falta de cooperação. Se olharmos para o mundo agora, percebemos que pessoas jovens e mulheres estão chegando aos governos. No momento, são 20 países nessa situação. É algo que estamos vendo em diversos lugares. Então quero falar sobre um futuro que seja bom para todo mundo.

Quais são os desafios para a agenda ambiental nos próximos anos?

Basicamente, a mudança para uma energia mais limpa é provavelmente a melhor oportunidade de negócio para os próximos 50 anos. Agora vamos sair da sociedade industrial para a sociedade sustentável. Será uma revolução sustentável, não apenas porque precisamos fazer, mas porque podemos. Temos tecnologia, energia solar, energias renováveis, talvez a próxima geração de energia nuclear. Precisamos fazer a mudança nos próximos 20 anos. Depois disso, provavelmente conseguiremos obter energia da atmosfera e iremos superar esse problema. Será a mudança da sociedade industrial para a sociedade da informação ou sociedade verde, e não podemos deixar passar essa oportunidade de negócio, especialmente para o Brasil.

Você enxerga o Brasil com potencial nesse setor?

Vocês têm muitas pessoas, tecnologia, tem o clima propício para energia solar, mas tem uma política de energia fora de moda. E é com esse problema que o Brasil precisa lidar. Eu estimo que possam ser criados cerca de 300 milhões de novos empregos na economia verde nos próximos 20 anos. A indústria do petróleo tem apenas um milhão de pessoas trabalhando. Por isso, vejo como a oportunidade número 1 para o Brasil. Eu chamo de "Big Blue" a revolução tecnológica e temos a "Big Green" que é esse processo sustentável. Quando se coloca eles juntos, você tem basicamente a economia do futuro.

Outro aspecto que chamou atenção durante a pandemia foi a questão do fechamento das escolas. Como você vê a educação para os próximos anos?

A pandemia mostrou que pessoas precisam de pessoas, e não de máquinas. Elas não olham para as telas da mesma forma que olham para o futuro. Você não pode ensinar sobre a vida através de uma tela. Ensinar e aprender é um processo pessoal. E no Brasil você tem um outro fator para o debate, que é o fato de muitas pessoas não terem nada para estar online. A educação está emergindo provavelmente como a segunda grande indústria depois da verde. Eu acho que o próximo Google será na educação. Seremos capazes de unir educação online com vida real, em um modelo híbrido. E isso também será uma grande oportunidade para o Brasil.

O conteúdo a ser ensinado também vai mudar?

As habilidades para o futuro não serão necessariamente mais MBAs ou mais engenharia, mas mais humanidade. Como educação artística, linguagens, criações, design, negociações, serviços, habilidades suaves. Acredito que teremos uma grande mudança no currículo de ciências e tecnologia para as humanidades. Ciências e tecnologia são sempre boas, mas agora nos demos conta de que o computador programa coisas, não faz elas acontecerem. Então precisamos ser mais humanos. Vejo no futuro uma combinação entre tecnologia e arte.

Se as próximas gerações pudessem olhar para o mundo de hoje, qual seria a impressão delas?

Minha geração criou todo o problema atual de CO2 , de poluição, nos últimos 20 ou 30 anos. Muitos perguntam porque não agimos antes para mudar isso. O tempo de ação é agora e pudemos ver isso claramente em Glasgow, na COP-26, com muita resistência e pressão. Não podemos colocar sempre o dinheiro como prioridade. Em 10 anos vamos olhar para trás e ver este momento como um ponto de virada e uma agenda completamente nova.

Como será o mundo em 2050?

Com certeza teremos resolvido a maioria dos nossos problemas urgentes, como doenças tipo o câncer, a questão da água e da energia. Teremos energia ilimitada e de graça, através de fusão e modelos limpos e renováveis, como a música é gratuita atualmente. Teremos comida em abundância porque poderemos plantar com energia gratuita. Eu espero que nesse período tenhamos um tipo de governo global que lide com os problemas mundiais, tipo um conselho de sábios. Em 2050 nós definitivamente estaremos no espaço. Eu sempre digo que pode ser o céu ou o inferno, cabe a gente escolher. Mas os próximos 10 anos não serão bons, pois não há nada que possamos fazer agora para consertar a temperatura neste período. Então temos de pensar à frente para não piorar.

E no caso do Brasil?

No Brasil a situação é mais difícil, porque é um país em desenvolvimento, com 30 milhões de pessoas na pobreza. A única solução que vejo é os países ricos darem suporte aos países pobres, para levantá-los. Isso já aconteceu com a vacina, a próxima será com tecnologia para lidar com as mudanças climáticas. Pois a única solução para isso é global.

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