Shuran Huang/Para o Washington Post
Shuran Huang/Para o Washington Post

Covid longa: frequência cardíaca ainda é um problema para essa paciente

Em fevereiro de 2020, os Institutos Nacionais de Saúde lançaram uma iniciativa para analisar as causas e possíveis tratamentos para a covid longa

Ariana Eunjung Cha, Washington Post

25 de fevereiro de 2022 | 10h00

Cinco meses depois de ser infectada com o coronavírus, a frequência cardíaca de Nicole Murphy está uma confusão. Normalmente por volta dos 70 batimentos por minuto, o que é o ideal, sua pulsação vem saltando para 160, 170 e às vezes 210 batimentos mesmo quando ela está em repouso - colocando-a em risco de ataque cardíaco, insuficiência cardíaca ou derrame.

Ninguém parece ser capaz de identificar o porquê. Ela tem apenas 44 anos e nunca teve problemas cardíacos. Quando um cardiologista de sua cidade natal de Wellsville, Ohio, fez todos os exames padrão, “ele literalmente encolheu os ombros diante dos resultados”, lembrou ela. Sua pressão arterial estava perfeita, não havia sinais de artérias entupidas e seu coração estava se expandindo e contraindo muito bem.

A frequência cardíaca de Murphy é uma das várias condições misteriosas que afligem os americanos semanas ou meses após as infecções por coronavírus, sugerindo o potencial de uma crise cardíaca iminente.

Um amplo estudo que analisou os registros de saúde de mais de 153 mil veteranos americanos publicado este mês na Nature Medicine descobriu que o risco de doenças cardiovasculares de todos os tipos aumentou substancialmente no ano seguinte à infecção, mesmo quando os pacientes tiveram casos leves.

A população estudada era majoritariamente branca e masculina, mas os padrões se mantiveram mesmo quando os pesquisadores analisaram mulheres e pessoas não brancas separadamente.

Quando especialistas levam em consideração os danos cardíacos provavelmente sofridos por pessoas que adiam cuidados médicos, estilos de vida mais sedentários e mudanças alimentares, para não mencionar o estresse da pandemia, eles estimam que pode haver milhões de novos casos cardíacos relacionados ao vírus, além de um agravamento dos quadros de muitas pessoas já afetadas.

“Esperamos uma onda de eventos cardiovasculares nos próximos anos por causas diretas e indiretas da covid”, disse Donald Lloyd-Jones, presidente da Associação Americana do Coração.

Em fevereiro de 2020, os Institutos Nacionais de Saúde lançaram uma iniciativa para analisar as causas e possíveis tratamentos para a covid longa, a constelação de sintomas que vão desde névoa cerebral e fadiga até problemas relacionados ao coração que algumas pessoas experimentam muito depois de suas infecções iniciais.

Além disso, o Colégio Americano de Cardiologia reconheceu os efeitos graves e de longo prazo do coronavírus ao preparar novas diretrizes de monitoramento e retorno ao exercício após a infecção.

Mas muitos especialistas e grupos de defesa de pacientes dizem que é necessário fazer muito mais e estão pedindo ao presidente Joe Biden e outros líderes mudanças abrangentes no sistema de saúde que forneçam mais financiamento para pesquisa e tratamento, apoio financeiro para pessoas que não podem mais trabalhar e enfrentamento das consequências sociais e emocionais da doença nas próximas décadas.

Zaza Soriano, 32 anos, engenheira de software de Millersville, Maryland, que trabalha para uma empresa terceirizada pela NASA, pegou covid pouco antes do Natal, apesar de estar totalmente vacinada e com dose de reforço. Desde então, sua pressão arterial permaneceu muito alta com a pressão diastólica chegando a até 110, quando ficar abaixo de 80. Ela também está com névoa cerebral e dor nas articulações.

“É muito frustrante ainda sabermos tão pouco sobre por que essas coisas estão acontecendo”, disse ela.

Ziyad Al-Aly, professor assistente de medicina na Universidade de Washington e médico da Veterans Affairs, coautor do estudo da Nature Medicine, descreve a pandemia como um terremoto. “Quando a terra parar de tremer e a poeira baixar, vamos ter de enfrentar as consequências no coração e em outros sistemas de órgãos”, disse ele.

“Os governos de todo o mundo precisam prestar atenção”, enfatizou Al-Aly. “Não estamos suficientemente preparados”.

As doenças cardíacas são a maior causa de mortes no planeta, responsáveis por 17,9 milhões de óbitos, ou um terço do total a cada ano, antes da pandemia. E já há evidências crescentes do enorme impacto que o coronavírus está provocando na nossa saúde a longo prazo.

Vários estudos sugerem que a pressão arterial dos americanos aumentou desde o início da crise. De acordo com um estudo de dezembro no periódico Circulation, por exemplo, a pressão arterial média entre meio milhão de adultos americanos estudados de abril a dezembro de 2020 subiu para ambos os números medidos pelos monitores.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças registraram mais de 1 milhão de mortes em excesso desde o início da pandemia, números que estão além do que esperávamos em condições normais. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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