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Covid põe Europa em alerta

Mas ao que se deve a segunda onda? Ao vírus? Com certeza, não. É por causa do comportamento das pessoas

Gonzalo Vecina*, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2020 | 05h00

De novo a covid-19 está castigando a Europa. Em maior ou menor grau, todos os países estão enfrentando a tão temida segunda onda. Ela tem sido tão intensa como a primeira e em alguns países até maior. Mas, para sorte dos europeus, tem tido uma mortalidade menor. Talvez pelo fato de os grupos de risco estarem se protegendo melhor e também por que a maioria foi contaminada na primeira onda. E também por que aprenderam a tratar melhor os casos graves.

Mas ao que se deve a segunda onda? Ao vírus? Com certeza, não. É por causa do comportamento das pessoas que saíram para se recompor do longo período de isolamento. E, ao sair, encontraram o vírus. E os hospitais estão ficando lotados. Os profissionais de saúde na Espanha estão sob tensão e até discutem greve! Se sentem traídos pela população e de novo sob estresse. Uma tempestade perfeita.

Mas o que o Brasil tem a ver com essa sanha europeia? Vamos à praia, reabriremos as escolas... já atingimos a imunidade de rebanho? Não, não aguentamos mais o isolamento, a economia não suporta mais ficar fechada. Retomamos o futebol e começamos a discutir ter torcida. Começamos a falar em reabrir casas de espetáculo. Está na hora de colocar um pouco de bom senso nessa discussão. Sim, devemos distensionar um pouco a convivência com o vírus. Ela se arrastará bastante ainda. Mesmo com o sucesso das vacinas, não teremos um efeito delas antes do segundo semestre do ano que vem.

Mas o distensionamento não pode ser confundido com um liberou geral. Manter o uso de máscaras, as medidas de higiene, de distanciamento social, evitar aglomerações, evitar ambientes fechados sem circulação de ar, limitar o número de pessoas nesses ambientes e sobretudo testar vigorosamente com o teste molecular - o RT-PCR - e, quando se identificar casos positivos, promover o isolamento forçado de indivíduos para que diminuam sua taxa de transmissão poderá permitir uma travessia mais tranquila para um novo momento dessa epidemia.

Porém estas medidas de bom senso devem ser acompanhadas por cuidados. Não devemos desmobilizar tão rápido os leitos de UTI, mesmo em cidades como Manaus onde existem indicadores de que se está próximo da imunidade de rebanho, pois existem muitos cidadãos dos grupos de risco que estão isolados. E, paralelamente a essa não desativação, as autoridades sanitárias devem se comprometer com uma maior disseminação dos protocolos que permitem um manejo clinicamente mais adequado dos pacientes graves.

Também deve existir um esforço importante para colocar a atenção primária à saúde na linha de frente do enfrentamento da epidemia e da retomada da atenção aos portadores de doenças crônicas. As unidades de saúde devem ser capazes de oferecer um ambiente mais seguro para atender as duas populações e ser o ponto por excelência de realização dos testes diagnósticos da doença. A não desativação dos leitos de UTI exigirá que o orçamento do ano que vem seja revisado na proposta que o Congresso está analisando neste momento. Não é o momento de suprimir R$ 35 bilhões do SUS

Somente com estas providências se poderá criar um clima certo para o relaxamento das medidas de isolamento e esperar a chegada da vacina, que deverá ter um papel importante no controle da pandemia, mas com certeza não será a bala de prata. A vacina cumprirá um importante papel necessariamente ao lado de outras medidas a serem adotadas. 

*FUNDADOR E EX-PRESIDENTE DA ANVISA, EX-SECRETÁRIO MUNICIPAL DA SAÚDE DE SÃO PAULO E PROFESSOR DO MESTRADO PROFISSIONAL DA EAESP/FGV E DA FSP/USP

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