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Crença em kit covid ilustra dificuldade em aceitarmos mudanças na nossa visão de mundo

A ciência está longe de ser um empreendimento perfeito, mas pelo menos é um meio com autocorreção e até hoje o que se mostrou mais preciso para nos aproximar dos fatos

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2021 | 05h00

Quando Albert Einstein bolou a teoria da relatividade geral, acreditava-se que o universo era estático. A teoria trazia uma implicação perturbadora, no entanto: de acordo com ela, o universo seria dinâmico. Com isso, Einstein inseriu em sua equação um novo parâmetro, que chamou de Constante Cosmológica, corrigindo esse “defeito”. O problema é que, posteriormente, a ideia de um universo estático foi modificada pela hipótese de que ele estaria se expandindo, o que, para espanto do próprio Einstein, era coerente com sua formulação original. Ele relutou a aceitar que estava certo inicialmente e que sua correção era um erro, até que se comprovou por meio da observação a expansão, levando o físico a declarar que aquele fora a maior estupidez de sua vida.

Mesmo sem saber, todos nós fazemos exatamente o que ele fez: encontramos uma forma de dar um jeitinho de salvar nossas hipóteses e manter nossas crenças. Quando a ciência contradiz nossa visão de mundo, é difícil – até mesmo para um gênio como ele – aceitar que errados estamos nós, não os resultados. A história da ciência é pródiga nesses exemplos. O importante neurologista Paul Broca acreditava que os negros eram menos inteligentes que os brancos e tentava provar isso medindo crânios de cadáveres. Quando as medidas não confirmavam o que esperava, ele mudava a forma de medir e reinterpretava os dados até endossar seus pressupostos.

O triste episódio nacional da crença em remédios para covid-19 é só mais um a ilustrar o abuso das hipóteses ad hoc. Inicialmente, ela foi proposta para casos graves. Diante do fracasso, passou a ser defendida para casos leves. Quando resultados negativos começaram a surgir, o argumento era que faltava associação com antibióticos. Depois, vitamina D, zinco. E assim por diante. Ad hoc em latim significa literalmente “para isso” – ou seja, são hipóteses acrescentadas não como decorrência lógica da teoria, mas para um fim: corrigir seus defeitos diante dos testes de realidade, na tentativa de salvar a hipótese.

Por mais que multidões hoje critiquem a turma que ainda defende o tratamento precoce, que jogue a primeira calculadora aquele que não cometeu o mesmo pecado. Muitos que desdenham dos falsos tratamentos para a covid-19 não chegam tão longe a ponto de criticar a homeopatia. Nos EUA, uma lei obriga os remédios homeopáticos a virem com advertência de que não há evidências científicas para seu uso; na Austrália, as pesquisas com tais substâncias já foram abandonadas, tamanho o grau de comprovação de sua ineficácia. Mas aqueles que aderem à prática não são tão defensores da ciência quando ela se volta contra suas crenças. Ou criam suas hipóteses ad hoc – não foram testes completos, seriam necessárias pesquisas individualizadas etc.

Tais resistências vêm em diferentes sabores. Como as vitaminas vendidas em mercado. Já está mais do que comprovada a inutilidade de dar suplemento vitamínico para quem delas não tem deficiência. Mas experimente dizer para os consumidores que do ponto de vista científico eles estão jogando dinheiro no lixo e despejando vitamina pelo esgoto e verá a defesa da ciência virar ataque num átimo. Se adentrarmos a seara da vitamina D, então, a conversa pode até virar briga. Obviamente sua deficiência grave leva a doenças como raquitismo ou fraturas patológicas, mas critérios arbitrariamente definidos para os valores normais levam as pessoas a acreditar que estamos vivendo uma pandemia de falta dessa vitamina, atribuindo à sua questionável falta um sem número de problemas. Ela foi alçada à posição de panaceia do século 21, e para muitos quando a ciência ameaça derrubá-la desse pedestal, errada está a ciência.

Paciência. Os fatos são o que são, independentemente se gostamos deles ou se os enxergamos como são. A ciência está longe de ser um empreendimento perfeito, mas pelo menos é um meio com autocorreção e até hoje o que se mostrou mais preciso para nos aproximar dos fatos. Todos somos como Einstein na hora de tentar salvar nossas hipóteses. Mas poucos, muito poucos, somos como ele na hora voltar atrás e reconhecer que estávamos errados. 

É PSIQUIATRA DO INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO HOSPITAL DAS CLÍNICAS, AUTOR DE ‘O LADO BOM DO LADO RUIM’

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