Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com aumento de casos entre jovens, quase 1/3 dos adultos foi infectado com coronavírus em SP

Pesquisa que mede a presença de anticorpos na população apontou um aumento de 300 mil casos em três meses; parte dessa elevação ocorreu entre jovens de 18 a 34 anos, confirmando que essa faixa vem se expondo mais

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 11h53
Atualizado 06 de fevereiro de 2021 | 00h08

Quase 30% da população adulta de São Paulo, no momento em que a vacinação contra a covid-19 começou na cidade, já tinha anticorpos para o coronavírus Sars-CoV-2, o que indica que cerca de 2,5 milhão de pessoas com mais de 18 anos já tinham se infectado em algum momento desde o início da pandemia.

Os dados são da quinta fase da pesquisa SoroEpi, mapeamento conduzido em uma parceria de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Grupo Fleury com o Ibope Inteligência, para medir a prevalência de anticorpos na população da capital. 

A coleta, feita entre 14 e 23 de janeiro, apontou um aumento de 300 mil casos desde a fase anterior, realizada no início de outubro. Na fase 4 a soroprevalência era de 26,2%, e agora subiu para 29,9%. 

De acordo com o levantamento, parte dessa elevação ocorreu entre jovens de 18 a 34 anos, confirmando a percepção de que essa faixa etária vem se expondo mais nos últimos tempos. A soroprevalência nesta faixa etária passou de 24,7% na fase 4 para 33% na fase 5. Com esse aumento, a prevalência entre os mais jovens ficou 1,7 vez maior que entre os de mais de 60 anos (19,9%), que parecem estar se protegendo mais.

“Esses dados indicam que as diferenças entre grupos estão diminuindo e que os mais jovens estão se infectando em número crescente. É um dado que, de maneira não medida diretamente, já era percebida pelo governo e pelos hospitais e médicos. Os mais jovens estavam furando mais as medidas de distanciamento social”, disse o biólogo Fernando Reinach, colunista do Estadão e responsável por reunir os pesquisadores participantes do SoroEpi, em coletiva de imprensa para divulgação dos dados.

A pesquisa mostra que o vírus está se espalhando mais pela cidade, mas ainda não de forma homogênea. A soroprevalência continua maior nos distritos mais pobres, que têm renda de até R$ 2.200 (36,4%) do que nos mais ricos (22,8%). Ainda assim, houve aumento nos dois casos. Na fase anterior do levantamento, a prevalência era de 21,6% no estrato mais rico e de 30,4% no mais pobre.

A presença de anticorpos também é maior , de 37,8%, entre aqueles que declararam cor de pele parda e preta. A soroprevalência entre eles é 1,6 vez maior que entre os brancos (23,2%).

Mas houve uma redução das diferenças quando considerado o nível de escolaridade. Pessoas que estudaram até o ensino fundamental apresentaram uma soroprevalência 1,7 vez maior que indivíduos com nível superior completo (33,8% versus 19,6%). Essa diferença era de 2,2 vezes na fase 4 do estudo.

Oficialmente a prefeitura apontava que havia em 23 de janeiro, quando a coleta de dados foi concluída, 546.523 casos confirmados de infecção. O inquérito sorológico indica uma prevalência quase cinco vezes maior da circulação do vírus. A quinta fase do levantamento analisou 1.194 amostras de sangue dos participantes em 149 setores censitários; 8 residências foram sorteadas em cada setor.

“A cidade de são Paulo ainda só identifica um quinto do total de pessoas contaminadas. Continuamos testando muito pouco. De cada cinco pessoas que pegam, claro que tem assintomáticos, somente uma é testada. Muitas nunca foram testadas e nunca entraram nas nas estatísticas oficiais”, disse Reinach.

O levantamento também avaliou se houve a chamada sororreversão na população: quando pessoas que tinham testado positivo passam a testar negativo, por causa da queda da presença de anticorpos no sangue. Isso é uma coisa que apareceu, por exemplo, em Manaus, em um estudo sorológico nacional. Celso Granato, infectologista e diretor Clínico do Grupo Fleury e pesquisador líder do projeto, explicou que a metodologia adotada no levantamento em São Paulo, porém, com dois testes consegue detectar mesmo taxas mais baixas de anticorpos.

Segundo ele, a taxa de sororreversão estimada foi muito baixa, de modo que a a soroprevalência estimada no estudo efetivamente representa os habitantes adultos da cidade já infectados pelo Sars-CoV-2 que produziram, desde o início da pandemia, anticorpos detectáveis por pelo menos um dos dois testes utilizados.

Granato afirmou ainda que esses testes devem ser capazes de detectar mesmo as novas variantes do vírus, já que as mutações afetam partes do Sars-CoV-2, em especial a proteína spike, que são diferentes das proteínas detectadas na pesquisa. Ele e Reinach ressaltaram, porém, que ainda não há dados para dizer se essas novas variantes, como a P.1, que surgiu em Manaus, podem causar reinfecção em quem já tem anticorpos para a cepa mais comum.

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