John MACDOUGALL / AFP
John MACDOUGALL / AFP

Cresce o debate sobre o 'passaporte de imunidade' do coronavírus

Nível de imunidade da população interessa a pesquisadores e formuladores de políticas públicas

Femke Colborne / AFP, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 12h47

BERLIM - O amanhecer paira sobre Berlim e Lothar Kopp, de 65 anos, já está na fila em frente a uma clínica no distrito de Reinickendorf, na capital alemã. Com várias outras pessoas, ele espera - respeitando a distância de segurança de dois metros e com uma máscara - para passar por um teste de coronavírus diferente dos outros: sem estar doente, ele quer saber se já foi infectado e, portanto, desenvolveu imunidade.

"Se eu já tive o coronavírus, não posso infectar outras pessoas", explicou, esperando que um teste sorológico positivo de anticorpos lhe permitisse visitar sua mãe idosa sem risco de contágio. Especialistas falaram em vários países sobre a possibilidade de "passaportes de imunidade" que permitiriam àqueles que desenvolveram proteção contra o vírus retornar ao trabalho mais cedo do que outras pessoas.

Estudos extensos estão em andamento na Alemanha, com dezenas de milhares desses testes realizados. Em outros lugares, o nível de imunidade da população também interessa a pesquisadores e formuladores de políticas. Para descobrir quantas pessoas já foram infectadas, o Estado de Nova York testará "agressivamente", anunciou o governador Andrew Cuomo na semana passada. Nos EUA, os fabricantes foram autorizados a vender testes sem autorização formal.

Dúvidas

Mas há dúvidas sobre a precisão e a confiabilidade desses testes. Portanto, mesmo que sejam positivos, isso não significaria o fim do perigo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou neste sábado, 25, que não há evidências de que as pessoas curadas pela covid-19 desenvolveram anticorpos para protegê-las contra uma segunda infecção. 

Para Matthias Orth, membro do conselho da Federação Alemã de Biólogos Médicos (BDL), outro problema é a qualidade dos resultados: "falsos negativos", por exemplo, são possíveis. "Também existem coronavírus bastante banais que não causam doenças graves e podem falsificar o resultado", explicou ele.

Para Orth, testes que prometem um resultado em 15 minutos com algumas gotas de sangue colhidas do dedo são "absurdos". Nas próximas semanas, melhores testes estarão prontos. "Ainda não estamos nessa época", insistiu.

Por outro lado, embora estudos maiores como os realizados na Alemanha permitam determinar a proporção da população infectada, as limitações dos testes atualmente disponíveis tornam impossível determinar com certeza a proporção de pessoas realmente imunizadas. No entanto, os estudos, como o realizado no último fim de semana em Munique, em 3 mil domicílios escolhidos aleatoriamente, são acompanhados com grande interesse.

Separadamente, em Gangelt, na região de Heinsberg, onde o primeiro grande surto de covid-19 se desenvolveu na Alemanha, os pesquisadores determinaram que 14% dos habitantes haviam sido infectados. Além dos estudos, grupos farmacêuticos alemães também lançaram suas ofertas de testes sorológicos.

Cerca de 70 mil desses testes já foram realizados em 54 laboratórios alemães, de acordo com a Federação de Laboratórios Associados (ALM). Para a médica Ulrike Leimer-Lipke, que realiza testes de imunidade desde meados de março em Reinickendorf, eles "fazem sentido porque é assim que saberemos quem é imune".

"É muito importante saber para quem tem pais ou avós". De acordo com a OMS, no entanto, "não há elementos suficientes" para avaliar a confiabilidade dos "passaportes de imunidade" e "o uso desses certificados pode aumentar o risco de transmissão", uma vez que as pessoas que se consideram imunizadas ignoram as medidas sanitárias. 

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