CRF quer que farmácia venda apenas remédios e cosméticos

Até o fim do mês, todos os 28.688 farmacêuticos do Estado de SP terão recebido um documento com a relação de produtos que não devem ser vendidos nas farmácias - aqueles que não são medicamentos nem cosméticos. A recomendação inédita, do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), órgão que regula a profissão no Estado, tem o apoio da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pode ser seguida por outros Estados. O principal argumento da campanha é que as farmácias são estabelecimentos de saúde e como tal devem se comportar. "O farmacêutico lida com pessoas doentes. Ele não pode perder o foco disso", explica Raquel Rizzi Grecchi, presidente do CRF-SP. "Você gostaria de ver no quarto do hospital uma prateleira de bijuterias à venda? Você quer sossego." Roberto Barbirato, gerente de inspeção da Anvisa, complementa com outro exemplo: "Imagine você entrar numa farmácia com gripe, debilitado. Não vai se sentir bem num lugar que parece uma loja de conveniência." Todos os produtos, que incluem alimentos, bebidas, bijuterias, brinquedos e objetos de decoração, foram pesquisados pelos 31 fiscais da Comissão Assessora de Farmácia, do CRF-SP. "A escolha foi baseada num levantamento dos produtos hoje mais vendidos nas farmácias além dos medicamentos, em nossas fiscalizações", diz Raquel. Somente no ano passado, o órgão fez 50 mil fiscalizações no Estado. "Não temos poder de vetar a venda, mas vamos pressionar", conta Raquel. Polêmica - O assunto rende polêmica. Hoje, as farmácias podem vender remédios e "correlatos" - produtos ligados à proteção da saúde, higiene pessoal e cosméticos. A lei reguladora é de 1973. "A legislação é muito antiga, somos fiscalizados por um monte de gente, CFR-SP e vigilâncias sanitárias. Cada um age de um jeito, é uma indefinição", conta Marcus Paiva, presidente da Drogaria SP e da Farmax, que, juntas, têm 200 unidades no Brasil. As duas redes vendem, por exemplo, barrinhas de cereais, item que consta da lista de produtos vetados pelo CFR-SP. Paiva reclamou da radicalidade da iniciativa, que disse desconhecer. A rede Onofre, com 32 endereços em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, apóia a campanha. "É necessário esse radicalismo da lista para que as farmácias consigam achar um equilíbrio. O que se vê hoje é uma promiscuidade, lugares vendendo até ração para tartaruga, o que pode atrair insetos", diz Marcos Arede, diretor-comercial. "Como um lugar que vende sorvete pode ser associado à saúde, ao bem-estar? Muita gente nem pode consumir açúcar." De acordo com Arede, apenas 1% dos produtos da lista deveria ser permitido, como pilhas. "Se posso vender aparelhos que medem glicose, por exemplo, e que precisam de pilha, devo poder vender a pilha." Hoje, de acordo com a Associação Brasileira de Farmácias (Abrafarma), os não medicamentos representam 25% do faturamento de uma drogaria. "Ajudam a pagar contas. Eles (CRF-SP) estão míopes. Trata-se de uma tendência internacional, na Europa e nos Estados Unidos, as farmácias vendem muitos itens que não são remédios", conta Sergio Mena Barreto, diretor da Abrafarma. "Claro que devemos ter limites. Não é possível, por exemplo, vender comida ou ração." Comodidade - A empresária Adriana Maldonado, que usa uma das quatro farmácias próximas de sua casa para comprar os mais variados produtos, defende a venda dos não medicamentos, que acha cômoda. "São os únicos lugares abertos 24 horas pertinho de casa. Pelo menos três vezes por semana passo em um deles para comprar água-de-coco e leite em pó para minhas filhas. Não vejo nada de errado. Aliás, já aproveitei a farmácia até para comprar presentes para aniversários." Alguns Estados, como Rio Grande do Norte e Paraná, têm leis estaduais que permitem a venda de não medicamentos, desde que fiquem em ambiente separado, isolado por vidro, por exemplo. "Todas as leis regionais que surgiram estão sendo contestadas judicialmente", conta Jaldo e Souza Santos, diretor do Conselho Federal de Farmácia (CFF), órgão que apóia a campanha do conselho paulista. O próximo passo do CRF-SP será fazer em setembro um seminário com os farmacêuticos e representantes da Anvisa para debater o tema.

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