Criança tem menos chance de transplante de coração

"A situação do Arthur está muito crítica. Ontem, às 23 horas, seu corpo estava muito inchado, como nunca vi. Durante a noite toda, foi necessário fazer retirada de líquido de seu corpo. Tenho muita esperança de poder dar boas notícias. Mas, infelizmente, as más notícias têm predominado. Elas se dividem entre a dificuldade de recuperação do meu filho e a notificação de um doador de coração compatível para ele. Mas vou insistir." O desabafo, escrito anteontem no pé da página de um diário online (www.doeacao.com.br), é de Rafael Paim, pai de Arthur Santos, de 4 meses, bebê que espera por um transplante cardíaco no Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. Mas poderia ser de qualquer pai de qualquer criança à espera de transplante cardíaco. A mudança no discurso seria mínima. A realidade do transplante em crianças é desesperadora. "Mesmo com instituições e médicos de ponta, hoje as chances de uma criança candidata a um órgão sobreviver na fila é de 50%. De um adulto, 70%", conta Luiz Augusto Pereira, coordenador da Central de Transplantes do Estado. Um dos motivos da dificuldade do transplante de coração é explicado por Miguel Barbero, diretor da Unidade Cirúrgica Pediátrica do Incor: "O doador da criança só pode ser aquele com peso igual ou até três vezes mais que o receptor. No adulto, quase não existe incompatibilidade de tamanho". Comparando com outros órgãos, no ano passado foram feitos cinco transplantes de coração em crianças. De fígado foram 22 e de rim, 18. No caso do coração, a própria complexidade do órgão dificulta. Esse tipo de operação só pode ser feita de cadáveres. O fígado e o rim não - cerca de 90% dos transplantes de fígado são feitos de doadores vivos, por exemplo. Mais: o coração permanece apto para o transplante até seis horas depois de retirado do corpo do doador. O tempo do fígado é de 18 horas e do rim, 36. Arthur é o primeiro da fila de transplantes. Josiele de Souza Santos, de 10 anos era a terceira até cinco dias atrás. Ela sofria de miocardiopatia dilatada, atrofia do músculo cardíaco. "Há oito meses, vim de Goiás pra São Paulo. Larguei tudo. Há dois meses, me separei por telefone", relata Adriana, a mãe que se dedicou integralmente à filha. Na quarta-feira, recebeu a notícia de que havia um doador compatível, morto com tumor cerebral. A operação foi um sucesso. A cada ano, morrem 700 crianças potencialmente doadoras . "Esse afunilamento é o que mais entristece", diz Barbero. A realidade do Incor, maior centro médico de coração da América Latina, é exemplo desse estreitamento. Em quatro anos, o centro teve 50 crianças com diagnóstico de transplante cardíaco. Só 25 foram liberadas - estavam em bom estado de saúde para a operação. Dessas, só cinco conseguiram um transplante. A próxima batalha do médico do Incor será agora identificar exatamente do que morreram essas crianças e a razão das mortes não terem sido anunciadas. "Em abril, vamos propor para a Secretaria de Estado da Saúde um rastreamento", conta ele. Bebê segue à espera - Arthur Santos, de 4 meses, espera desde o nascimento por um transplante de coração. Ele tem hipoplasia do lado esquerdo do órgão, quando o ventrículo desse lado é atrofiado e compromete a distribuição do sangue. A doença é uma das mais diagnosticadas da vida intra-uterina - a incidência é de 0,6 para cada mil nascidos vivos. Arthur é exceção. Cerca de 90% das crianças com a doença morrem na primeira semana de vida. Há dois meses, os pais conseguiram autorização inédita para o aproveitamento do órgão de um anencéfalo, mas ele foi descartado por incompatibilidade de peso. No dia 17, Arthur passou por uma delicada operação depois de identificado que ele corria risco de morte súbita causada por uma obstrução na artéria. A equipe, então, reconstruiu o arco aórtico (a aorta é a principal artéria que nasce do coração) e reconstituiu as artérias pulmonares para se adaptarem ao novo fluxo de sangue. Havia a possibilidade do coração bater sozinho depois da cirurgia. Mas isso não aconteceu. O menino está ligado a uma máquina, que substitui as funções do coração. Quanto mais tempo passar, mais os outros órgãos vão se deteriorando, já que o ritmo da máquina não é igual ao do coração. "É questão de algumas semanas", diz Miguel Barbero, do Incor. "O transplante é urgente." São descartados doadores que morreram por infecção ou permaneceram mais 48 horas em morte encefálica.

Agencia Estado,

27 de março de 2006 | 09h15

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