Reprodução/Pixabay
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Crianças com menos de 2 anos não devem ter contato com telas, recomenda OMS

Guia inédito diz que crianças com 2 anos ou mais não devem ficar mais de 1 hora diante de TVs, celulares ou tablets; veja as novas recomendações da organização para crianças menores de 5 anos

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

24 de abril de 2019 | 12h15

SÃO PAULO – Tomás tem 1 ano e 10 meses e nenhuma relação com TV, tablet e outras telas digitais. É uma criança que visita espaços para brincadeiras, parquinhos e já tem os livros favoritos, até para dormir. A rotina dele segue as recomendações de um guia inédito lançado ontem pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com orientações para crianças com menos de 5 anos. 

Brincar mais, dormir melhor e passar menos tempo em contato com telas são os passos apontados para desenvolver hábitos saudáveis ainda na infância. Segundo o documento, menores de 2 anos não devem ter contato com telas; entre 2 e 5, podem assistir à televisão por até uma hora por dia. A publicação ainda sugere leitura e apresenta o tempo de sono recomendado por faixa etária.

“Tem hora que ele está em casa e vamos ao parquinho. A gente abusa desse tipo de espaço. É bom porque gasta energia, chega em casa com fome e dorme. A única interação que tem (com tecnologias) é com telefone para ligar para os avós, mas já estabeleci que não pode ser depois das 17 horas. Minha mãe fica encantada porque, todo dia, na hora da soneca da tarde, ele leva dois ou três livrinhos”, diz a autônoma Juliana Gago, de 36 anos.

Juliana reconhece que é um desafio não apresentar as telas para o filho. “Quando vou fazer a janta, ou é a criança ou é a comida, mas eu penso que vai chegar uma hora que ele vai ter acesso e não vai sair mais.” 

Pai do garoto, o sonoplasta Samuel Gambini, de 30 anos, diz que a dinâmica da família ajuda a estabelecer limites. “A gente tem o privilégio de trabalhar em casa e ter rotina flexível.” A família está aproveitando que Juliana faz um curso no Sesc Pompeia, na zona oeste da capital paulista, para levar o filho para se divertir no Espaço de Brincar, que oferece atividades para crianças de 0 a 6 anos.

A nutricionista Geisla Marçal Barbosa Franco, de 37 anos, tem uma filha de 1 ano e 1 mês que até já vê desenhos com músicas infantis e evangélicas, mas o acesso não é livre. “Não tem tablet nem celular no carro, muito menos nas refeições. Acho a televisão péssima, porque as crianças ficam hipnotizadas. Ela começou a ter contato a partir dos 10 meses, mas é uma criança muito sociável, que brinca bastante.”

As novas diretrizes foram elaboradas por um grupo de especialistas da OMS, que avaliaram o impacto do sedentarismo e do sono inadequado e verificaram os benefícios do sono de qualidade e da prática de atividade física. 

Segundo a OMS, inserir hábitos saudáveis nos primeiros anos de vida gera impacto não só no desenvolvimento motor e cognitivo da criança, mas em sua saúde ao longo da vida. Diminuir o tempo que os pequenos ficam sentados, seja vendo TV ou em carrinhos de bebê, também ajuda a evitar a obesidade infantil.

A organização também oferece orientações de atividades que podem ser realizadas pelos pais para evitar momentos de sedentarismo, como jogos mais ativos. Para os períodos em que a criança vai ficar sentada, a recomendação é substituir celulares, tablets e TV por leitura, contação de história, quebra-cabeça e canto.

“As crianças expostas ao tempo de tela excessivo têm dificuldade de concentração em atividades do dia a dia, dificuldade para dormir e um sono superficial. Além disso, têm o risco de desenvolver obesidade no futuro”, explica Fernanda Ferrante, endocrinologista pediátrica do Sabará Hospital Infantil.

Segundo a especialista, crianças que comem diante da televisão acabam criando hábitos alimentares que não são saudáveis. “Elas não prestam atenção no que está sendo ingerido, não têm noção de saciedade e não sentem o sabor dos alimentos. Isso tem uma relação com a obesidade infantil. Elas também ficam dentro de casa, no sofá, quando poderiam estar brincando.”

No novo guia, a OMS oferece orientações de atividades que podem ser realizadas pelos pais para evitar momentos de sedentarismo, como jogos mais ativos. Para os períodos em que a criança vai ficar sentada, a recomendação é substituir celulares, tablets e TV por leitura, contação de história, quebra-cabeça e canto. 

Opção

Para quem já deixou os filhos experimentando tecnologias, a endocrinologista pediátrica diz que sempre é possível retomar o universo lúdico das brincadeiras. “Tudo depende da boa vontade e da criatividade de quem cuida da criança. Tem brincadeiras do passado que estão sendo resgatadas para o desenvolvimento cognitivo, como brincar de bola ou com blocos e pintura.”

Embora aborde a necessidade da prática de atividades físicas, o guia também destaca a necessidade de um sono reparador para as crianças, incluindo os cochilos. Para bebês de até 3 meses, a indicação é de 14 a 17 horas de sono por dia. Entre 1 e 2 anos, o tempo de sono deve ser de 11 a 14 horas. Crianças de 3 a 4 anos devem dormir entre 10 e 13 horas.

O tema já é discutido por sociedades de pediatria de diferentes países. Em 2016, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) elaborou um manual com orientações para pais e educadores com foco na saúde de crianças e adolescentes na era digital.

De acordo com o documento, crianças com menos de 2 anos não devem ser expostas a telas digitais, principalmente durante as refeições e uma a duas horas antes de dormir. "Aproveitar oportunidades aos finais de semana e durante as férias para conviver com a família, com amigos e dividir momentos de prazer sem o uso da tecnologia, mas com afeto e alegria", diz o manual.

A presidente do Departamento Científico de Desenvolvimento e Comportamento da SBP, Liubiana Arantes, diz que a confirmação dessas recomendações pela OMS mostra que o assunto atingiu o consenso da comunidade científica internacional. Ela lembra que várias pesquisas realizadas no País apontam que há mais prejuízos do que benefícios quando crianças são expostas a celulares e tablets, mas o tema enfrenta “uma resistência grande dos pais”. “Existem várias outras atividades com função manual que se pode utilizar para estimular a coordenação motora fina, sem ter esses riscos inerentes às telas.” 

Veja as novas recomendações da OMS por faixa etária

Bebês com menos de 1 ano

- Devem realizar diferentes atividades várias vezes ao dia, especialmente brincadeiras no chão. Caso ainda não se movimente, os pais devem deixar a criança de bruços durante 30 minutos, espalhados ao longo do dia, apenas quando o bebê estiver acordado

- A criança não deve ficar mais de uma hora seguida em carrinho de bebê, cadeiras ou canguru

- Não deve ter contato com telas digitais

- Até os 3 meses, a recomendação é dormir entre 14 e 17 horas por dia. Dos 4 aos 11 meses, são 12 a 16 horas, incluindo cochilos

Crianças de 1 a 2 anos

- As atividades físicas, de qualquer intensidade, ao longo do dia devem durar ao menos três horas

- Não devem ficar mais de uma hora seguida em carrinhos de bebê, cadeiras ou canguru. O tempo sentado também não pode ser longo

- As telas não são indicadas para crianças de 1 ano. A partir de 2 anos, não deve superar uma hora por dia

- O tempo de sono, incluindo cochilos, deve ser de 11 a 14 horas

Crianças de 3 a 4 anos

 - As atividades físicas, de qualquer intensidade, ao longo do dia devem durar ao menos três horas. Mas é indicado que, ao menos 1 hora, seja dedicada a atividades de intensidade moderada a vigorosa

- Não devem ficar mais de uma hora seguida em carrinhos de bebê, cadeiras ou canguru. O tempo sentado também não pode ser longo

- O tempo diante de telas não deve superar um hora por dia

- O tempo de sono deve ser de 10 a 13 horas

/ COLABOROU TULIO KRUSE

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