GABRIELA BILO / ESTADAO
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Crianças estão deixando de ir a consultas e tomar vacinas durante pandemia, relatam pediatras

Levantamento da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia mostra ainda que gestantes estão atrasando início do pré-natal, mas fazem demais consultas na data correta

Paula Felix, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 11h59
Atualizado 19 de agosto de 2020 | 18h33

SÃO PAULO - Diante da pandemia do novo coronavírus, pais estão deixando de levar os filhos ao pediatra e a postos de vacinação. Gestantes estão iniciando o pré-natal com atraso, mas, mesmo com medo, estão realizando as demais consultas nas datas corretas. As constatações são de profissionais que participaram de uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) sobre os impactos da covid-19que foi apresentada nesta quarta-feira, 19.

Segundo o levantamento, que contou com a participação de 1.525  profissionais, 61% dos pediatras relataram queda acentuada no número de consultas e 73% disseram que as crianças deixaram de ser vacinadas no período, algo considerado preocupante pelos especialistas. A pesquisa foi realizada entre 20 de julho e 16 de agosto.

"Com medo de levar as crianças para vacinar, os pais estão tirando delas uma grande proteção. É indispensável fazer essa vacinação mesmo em tempos de pandemia", afirma Luciana Rodrigues Silva, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatra.

Segundo Luciana, o levantamento mostrou ainda o impacto do isolamento para as crianças. "Seguramente, essas crianças confinadas em casa ficaram com mais tempo de tela e tiveram alterações comportamentais. Durante a infância é importante a socialização e contato com outras crianças. O pediatra é um profissional fundamental para acompanhar as crianças e para a orientação. É importante que o pediatra oriente que brincadeiras devem ser feitas durante este período para estimular o desenvolvimento da criança."

Luciana recomenda que os pais realizem atividades que envolvam as crianças nas tarefas da casa, como cozinhar, e pratiquem exercícios em família.

De acordo com a pesquisa, 88% dos pediatras relataram que as crianças em idade escolar apresentaram alterações no comportamento, das quais 75% foram oscilações de humor.

Apesar da queda das consultas, o contato com os profissionais não foi totalmente perdido e 82% dos pediatras afirmaram que houve aumento das consultas por meios como telefone e WhatsApp.

A funcionária pública Tatiane Ramos de Lira, de 39 anos, tinha o hábito de levar a filha Ana Julia, de 11 anos, todos os meses às consultas com pediatra. Desde março, a garota não é mais acompanhada presencialmente, mas as vacinas estão em dia.

Ela conta que vinha tentando adaptar a rotina e permitir que a filha realizasse atividades como pintura e reuniões virtuais com os amigos, o que estava contribuindo para que a menina não sofresse com os impactos da pandemia. A situação mudou quando Tatiane e seu filho mais velho, Fernando Loyola, de 19 anos, foram infectados pelo vírus. Eles ainda se recuperam da doença.

"Foi uma semana bem difícil. Meu filho ficou dez dias internado no hospital e toda essa carga caiu em cima dela. Afetou o humor, ela está dormindo mais tarde, alterou a alimentação dela. Estou tentando fazer a higiene do sono e cuidar da saúde mental dela, estamos fazendo terapia online neste período, mas sei que é um processo longo."

Mãe de Cecília, de 6 anos, a analista financeira Jamile Rodrigues Guerra Garcia, de 42 anos, decidiu não levar a filha para as consultas de rotina com a pediatra e a oftalmologista durante a pandemia.

"Ela não convive com outras crianças e optei por não levar. O oftalmo me ligou para me lembrar da consulta anual, mas decidir não levar. Se ela tivesse algum problema de visão, eu levaria."

Jamile percebe os impactos do isolamento no comportamento da filha. "Quem sofre mais são as crianças, que foram tiradas das escolas. A aula online, estabeleceu outro tipo de relação com a escola. Ela está mais manhosa do que o normal."

A assistente editorial Denise Ieiri, de 29 anos, teve o segundo filho em março e tem levado o bebê nas consultas mensais. Ela se sente confortável porque a clínica organizou um esquema que evita o contato entre os pacientes.

"No consultório da pediatra, não está tendo espera. Tudo é acertado antes da consulta via WhatsApp com a secretária. O meu maior contato durante a consulta é com a pediatra, mas ela usa máscara e faz higienização das mãos o tempo todo. Talvez, se eles não estivessem funcionando dessa maneira, eu não levaria."

Gestantes temem infecção do bebê

Ginecologistas e obstetras observaram um grande temor das gestantes de que os filhos sejam infectados pelo novo coronavírus.

"A grávida tem medo de, durante o curso da gravidez e de assistência ao parto, de se contaminar, mas é muito mais por ela do que pelo bebê. A pesquisa mostrou que 57% das mulheres relataram aos médicos que têm medo da transmissão vertical. Há uma  memória muito recente do zika vírus, embora não tenha, até hoje, nenhuma comprovação científica desse tipo de transmissão com o novo coronavírus", explica  César Fernandes, diretor científico da Febrasgo.

Apesar de os profissionais terem notado um atraso no início do pré-natal (52%), eles relataram que as mulheres seguiram com as demais consultas nas datas corretas (80%).

"Quando vão à consulta, por pressão da família ou preocupação do bebê, elas percebem que as consultas são marcadas com intervalos maiores para evitar que as grávidas fiquem juntas, veem que todos os profissionais usam máscara e o ginecologista tem muita relação de proximidade muito forte e de muita interatividade com a grávida."

Ele destaca que a gestação precisa ser acompanhada para que problemas que podem aparecer no período, como a hipertensão e a diabete gestacional, sejam detectados precocemente, evitando complicações para a mãe e o bebê. 

Os ginecologistas informaram que 82% das pacientes têm medo da internação hospitalar por causa do parto, principalmente pela preocupação de se infectar (75%) e que apenas 31% das pacientes querem optar pela cesárea mesmo sabendo que o parto normal não oferece riscos para o bebê.

"As grávidas avaliaram bem a questão. O parto é muito preocupante para a grávida, já traz questões que estão no imaginário das mulheres, mas elas entendem o que é melhor para elas e para o bebê e quase 70% responderam que preferem, mesmo em tempos de covid, o parto normal."

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