Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Crianças mais velhas propagam o coronavírus da mesma maneira que os adultos, conclui estudo

Pesquisa mostra que em idade entre 10 e 19 anos elas podem contagiar uma pessoa do mesmo modo que os mais velhos

Apoorva Mandavilli, The New York Times

20 de julho de 2020 | 12h38

No acalorado debate sobre a reabertura das escolas, uma questão polêmica é se, e como, as crianças transmitem o vírus para outras pessoas. Um amplo estudo realizado na Coreia do Sul oferece uma resposta: crianças menores de 10 anos de idade propagam o vírus com muito menos frequência do que os adultos, mas o risco não é zero. Mas, em idade entre 10 e 19 anos, elas podem contagiar uma pessoa por coronavírus do mesmo modo que os adultos.

Essas conclusões sugerem que, quando as escolas reabrirem, as comunidades verão clusters de infecção ocorrerem incluindo crianças de todas as idades. "Receio que exista a sensação de que as crianças simplesmente não serão infectadas ou não da mesma maneira que os adultos e que, portanto, são quase uma bolha populacional", disse Michael Osterholm, infectologista especialista em doenças infecciosas da Universidade de Minnesota. “Haverá transmissão. O que precisamos é reconhecer isto agora e incluir essa conclusão nos nossos planos”, afirmou.

Diversos estudos feitos na Europa e na Ásia sugerem que crianças mais novas têm menos probabilidade de ser infectadas e propagar o vírus. Mas muitos desses estudos são pequenos e falhos”, disse Ashish Jha, diretor do Harvard Global Health Institute. O novo estudo “foi feito com bastante cuidado. É sistemático e cobriu uma população bem grande. É um dos melhores estudos até agora neste assunto”, disse.

Outros especialistas também elogiaram a escala e o rigor da análise. Os pesquisadores sul-coreanos identificaram 5.706 pessoas que foram as primeiras a reportar sintomas da covid-19 em suas residências entre 20 de janeiro e 27 de março, quando as escolas foram fechadas. Em seguida, monitoraram 59.073 contatos daqueles primeiros casos documentados. Eles testaram todos os contatos de cada paciente independente dos sintomas, mas somente os contatos sintomáticos fora das residências.

A primeira pessoa de uma casa a desenvolver os sintomas não é necessariamente a primeira que foi infectada e os pesquisadores admitiram essa limitação. As crianças também têm menos probabilidade de mostrar sintomas, de modo que o estudo pode ter subestimado o número de crianças que desencadearam a cadeia de transmissão dentro das suas casas.

Os especialistas afirmam que a estratégia foi sensata. “Trata-se também de um lugar que realizou um excelente monitoramento de contatos no momento em que as intervenções foram realizadas”, disse Bill Hanage, epidemiologista da Harvard T. H. Chan School of Public Health.

Crianças menores de 10 anos de idade têm 50% de probabilidade em relação aos adultos de propagar o vírus para outras pessoas, o que está de acordo com outros estudos. Talvez porque as crianças geralmente exalem menos ar – com isso ele fica menos carregado de vírus – ou porque exalam o ar mais perto do chão o que torna menos provável que os adultos o inspirem.

Mesmo assim, o número de novas infecções transmitidas por crianças pode aumentar quando as escolas reabrirem, advertem os autores do estudo. “As crianças mais novas podem apresentar taxas de ataque mais altas quando as aulas terminam, contribuindo para a transmissão comunitária da covid-19”, eles alertam. Outros estudos também sugerem que o número maior de contatos dos alunos, que interagem com dezenas de outras crianças durante uma boa parte do dia, pode anular seu risco menor de infectar outras pessoas.

Os pesquisadores monitoraram os contatos somente de crianças que se sentiram doentes, de modo que não está claro até que ponto efetivamente as crianças propagam o vírus, disse Caitlin Rivers, epidemiologista na John Hopkins Bloomberg School of Public Health. “Acho que sempre foi o caso de crianças sintomáticas infectarem outros. O problema no caso das crianças tem mais a ver se aquelas que não têm sintomas propagam a doença”.

Rivers participou de um painel científico que, na quarta-feira, recomendou a reabertura das escolas se possível para crianças deficientes e as da escola primária porque esses grupos têm mais problemas com o aprendizado online. Ela afirmou que este novo estudo não altera aquela recomendação.

O estudo mostra mais preocupação com crianças a partir da escola secundária. Este grupo tem ainda mais probabilidade de infectar adultos, conclui o estudo. Mas, para alguns especialistas, as infecções podem ocorrer por casualidade ou resultarem de comportamentos das crianças.

As crianças mais velhas, com frequência, são grandes como adultos e costumam ter os hábitos anti-higiênicos que as crianças mais novas. E se socializam, do mesmo modo que as crianças pequenas, com seus coleguinhas dentro dos complexos de apartamentos na Coreia do Sul. “Podemos especular o dia inteiro sobre isto, mas simplesmente não sabemos”, disse Osterholm. “A mensagem, no final, é esta: vai haver transmissão”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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