Rachel Woolf/The New York Times
Rachel Woolf/The New York Times

Crianças de 8 anos em desespero: a crise da saúde mental está chegando aos mais jovens

Número de crianças que precisam de cuidados urgentes de saúde mental vem aumentando há anos e disparou durante a pandemia

Christina Caron, The New York Times

12 de julho de 2021 | 15h00

Quando Marie, 11 anos, ligou para uma linha direta de prevenção de suicídio em outubro, foi algo imprevisto para todos. Até mesmo para a própria Marie, que vinha reprimindo sentimentos de solidão e tristeza por meses, sem contar nada a ninguém.

Seu relacionamento com alguns de seus amigos mais próximos começara a degringolar quando a escola passou para as aulas online no ano passado, e ela ficou com medo de perder outras pessoas de sua vida. E se elas também se mudassem para outra cidade? E se morressem?

Numa tarde de um dia de semana, ela colocou os fones de ouvido, ligou uma música e saiu para dar uma volta, aí começou a ficar cada vez mais triste. Até agora ela não sabe exatamente por quê.

“Eu sabia que precisava de ajuda, mas realmente não sabia a quem recorrer”, disse ela.

Marie procurou uma linha direta de prevenção de suicídio no celular e, por alguns instantes, ficou se perguntando se os conselheiros de crise a levariam a sério. Aí ela telefonou.

Com a permissão de Marie, uma conselheira conversou com sua mãe, Jackie, que estava a 25 minutos de carro dali. E então elas bolaram um plano para manter Marie segura até que Jackie pudesse chegar. (Seu sobrenome e o de outras famílias entrevistadas para este artigo estão sendo omitidos para proteger sua privacidade. Marie está sendo identificada pelo nome do meio).

No dia seguinte, Marie disse à mãe que “no passado, não muito antes de tudo isso, ela tinha levado uma tesoura para o quarto, com a intenção de se machucar, mas não sabia como”, disse Jackie. “Eu fui pega de surpresa, completamente”.

Não que Jackie desconhecesse a crise de saúde mental que afeta os adolescentes. Ela trabalha como enfermeira em duas unidades de terapia intensiva pediátrica na Costa Leste, onde tratou de muitas crianças que tentaram suicídio no ano passado.

“Perguntamos a algumas delas: ‘Como você teve a ideia de fazer isso?’”. As redes sociais são a resposta mais comum, disse ela. “As crianças não entendem que, quando elas se machucam, pode ser de um jeito que não vamos conseguir consertar, e então elas talvez não melhorem”.

Entrevistas com profissionais de saúde mental e dados de hospitais de todo o país revelam que, enquanto os profissionais continuam a ver um aumento no número de adolescentes que dão entrada no pronto-socorro por problemas de saúde mental, o número de crianças em crise com menos de 13 anos está disparando – há anos.

Sob os cuidados de Jackie, a paciente mais jovem que havia tentado suicídio nos últimos tempos tinha apenas 8 anos. Ela sobreviveu, mas outra criança, também com menos de 13 anos, não teve tanta sorte e se tornou doadora de órgãos. Jackie disse que a maioria das crianças que chegam depois das tentativas de suicídio são meninas que tiveram uma overdose de analgésicos, como o Tylenol. Algumas delas agora enfrentam danos ao fígado. Certa vez, depois de um dia particularmente difícil no trabalho, Jackie ligou para o marido e lhe pediu que trancasse todo o Tylenol e o Ibuprofeno da casa.

“Não quero achar que somos imunes a essas coisas”, disse ela.

“Vamos ver esta crise crescer no outono (no hemisfério norte)"

Mesmo antes da pandemia, já estava se formando uma crise de saúde mental entre crianças que sofriam com bullying, abuso, transtornos alimentares, racismo ou problemas de saúde mental não diagnosticados. Mas agora as crianças estão enfrentando ainda mais fatores de estresse, como a perda de algum parente para a covid-19, a adaptação à escola remota ou a ansiedade de retornar às aulas presenciais.

“É quase como se a pandemia jogasse gasolina em brasas que já estavam acesas”, disse Heather C. Huszti, psicóloga-chefe do Hospital Infantil de Orange County, o CHOC, em Orange, Califórnia. “Nunca vimos uma situação tão ruim assim”.

Para as crianças pequenas, a dor pode parecer infinita.

“É como se elas pensassem: ‘Esta é a minha vida agora. Será que ainda vai acontecer alguma coisa boa?’”, disse Huszti. “Porque as crianças pequenas simplesmente não conseguem pensar no longo prazo”.

O CHOC, onde Huszti trabalha, tem o único centro psiquiátrico de internação em Orange County que pode receber crianças menores de 12 anos. Para ser admitida em um dos 18 leitos do centro, a criança deve ser uma ameaça presente ou iminente para si mesma ou para outras pessoas. Quando o centro foi inaugurado, em 2018, cerca de 10% das crianças tinham menos de 12 anos. Em 2020, esse número começou a aumentar e agora mais do que dobrou, disse Huszti.

“Temos alguns dias em que todas as crianças da unidade têm menos de 12 anos”, disse ela.

Os dados nacionais mostram um padrão semelhante. Em novembro, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) publicaram um estudo que comparou a frequência com que as crianças chegavam aos prontos-socorros dos Estados Unidos por motivos de saúde mental versus outros tipos de preocupações. A agência descobriu que, entre abril e outubro de 2020, houve um aumento de 24% na proporção de visitas ao departamento de emergência de saúde mental para crianças de 5 a 11 anos em comparação com o mesmo período de 2019.

O problema parece ser particularmente terrível entre as meninas. Durante 2019 e 2020, a proporção de entradas no departamento de emergência relacionada à saúde mental foi maior para meninas com menos de 18 anos do que para meninos da mesma idade, informou a agência.

“Quanto mais nova a criança, maior a espera"

Os hospitais infantis, que normalmente têm poucos leitos de internação disponíveis para pacientes com saúde mental, quando os têm, começaram a ficar sem vagas.

“Quanto mais nova a criança, maior a espera”, disse Huszti. “É de partir o coração”.

Algumas unidades psiquiátricas de internação não conseguem admitir crianças com menos de 12 anos, acrescentou ela, porque muitas vezes elas requerem mais monitoramento individual do que crianças mais velhas, bem como terapia específica para a idade.

Em abril, Lu, de 11 anos, e sua mãe, Nicole, tiveram de esperar “o dia todo e a noite toda” em um pronto-socorro de Ohio porque os treze leitos pediátricos do hospital estavam ocupados e havia duas crianças na fila à sua frente. Por fim, elas foram transferidas para um hospital de saúde comportamental próximo dali. Lu fez amizade com outras crianças que tinham seus próprios problemas de saúde mental, entre elas algumas que eram vários anos mais velhas. A certa altura, ela viu uma pessoa ser sedada e contida.

“Fiquei preocupada”, disse Nicole. “Ela foi exposta a muitas coisas a que eu não gostaria que ela fosse exposta”.

Durante a pandemia, Lu passou por “uma mudança bem grande de personalidade” que Nicole atribuiu à “tempestade perfeita” de isolamento, hormônios e genética. (Nicole foi diagnosticada com depressão e ansiedade quando tinha vinte e poucos anos.) Lu começou a ficar imersa nas redes sociais e parecia estar presa a um algoritmo que lhe mostrava vídeos de crianças tristes, disse sua mãe.

“Tive de explicar isso a ela”, disse Nicole. “Eu virei e disse: ‘Ei, você sabia que, se eu curtir a foto de um par de tênis, provavelmente vou continuar vendo fotos de tênis?’ E ela olhou para mim e disse, ‘Sério?’”.

Alguns meses atrás, Nicole teve o impulso de verificar as mensagens de texto salvas no tablet da filha. Foi quando ela descobriu que Lu vinha planejando se machucar e também havia escrito uma carta de despedida.

Como chegamos aqui?

Embora o estigma em torno dos cuidados de saúde mental tenha diminuído um pouco nos últimos anos, “ainda não demos às pessoas o conjunto de habilidades ou recursos para saber como gerenciar sua saúde mental, como prevenir ou reagir a pensamentos suicidas”, disse Christine Moutier, diretora médica da Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio.

Muitas crianças também têm problemas psicológicos subjacentes que simplesmente não estão sendo tratados. Um estudo publicado na JAMA Pediatrics descobriu que, em 2016, metade das 7,7 milhões de crianças que se estima que tenham algum transtorno mental tratável nos Estados Unidos não recebeu tratamento de um profissional de saúde mental.

Encontrar um profissional pode ser difícil. A Academia Americana de Psiquiatria Infantil e Adolescente relatou que há uma grande escassez de psiquiatras infantis em quase todos os estados do país. Na Califórnia, por exemplo, existem apenas 13 psiquiatras infantis e adolescentes em atividade para cada 100 mil crianças menores de 18 anos.

As operadoras de planos de saúde não reembolsam os serviços de saúde mental tanto quanto os serviços médicos, o que faz com que seja muito menos lucrativo para os profissionais tratar pacientes com saúde mental, dizem os especialistas. Em Connecticut, por exemplo, o Medicaid reembolsa aos hospitais US $ 2.665 por dia para uma internação pediátrica padrão e cerca de US $ 1.000 por dia para uma hospitalização psiquiátrica pediátrica, disse Ryan Calhoun, o vice-presidente de estratégia e integração de cuidados do Centro Médico Infantil de Connecticut.

A Academia Americana de Pediatria recomenda exames de saúde mental para todas as crianças com 12 anos ou mais durante as consultas pediátricas, mas não é uma prática padrão examinar crianças mais jovens do que isto, disse Tami D. Benton, psiquiatra-chefe de psiquiatria e ciências comportamentais no Hospital Infantil da Filadélfia.

“Até então, os menores de 12 anos eram identificados como um grupo de baixo risco”, disse ela. Não são mais, acrescentou ela. 

“Não há lugar para onde mandá-las”

O Hospital Infantil de Connecticut, em Hartford, não possui leitos de internação para pacientes psiquiátricos pediátricos. Demora em média uma semana para que as crianças na sala de emergência possam encontrar leito em outro lugar, disse Jennifer Downs, chefe da divisão de psiquiatria infantil e adolescente do Hospital Infantil de Connecticut, durante uma entrevista no final de maio.

Naquele dia em particular, 10 das 37 crianças na sala de emergência por motivos de saúde mental tinham menos de 13 anos. Algumas crianças esperam por um leito de internação por até um mês, acrescentou ela.

“Não há lugar para onde mandá-las”, disse James E. Shmerling, presidente e executivo-chefe do Hospital Infantil de Connecticut. “Cada recurso existente na comunidade tem uma lista de espera”.

No Colorado, a situação também é crítica. A qualquer momento deste ano, cerca de metade das crianças no departamento de emergência pediátrica do Hospital Infantil do Colorado estava passando por uma crise de saúde mental, o que levou a instituição a declarar estado de emergência em maio.

Não apenas as salas de emergência do Colorado estão lotadas, mas também as instalações residenciais pediátricas de longo prazo. Mais de 70 crianças com doenças mentais graves tiveram de sair do estado para encontrar um programa de tratamento residencial no último ano e meio, algumas viajando até Carolina do Sul, Flórida ou Nova York, disse Heidi Baskfield, vice-presidente de saúde e defesa da população no Hospital Infantil do Colorado. É um problema que também está acometendo outros estados, entre eles Connecticut.

Em busca de soluções

As instituições de saúde têm se esforçado para encontrar maneiras de tratar mais crianças com necessidades agudas de saúde mental. O CHOC, por exemplo, está planejando abrir no ano que vem um programa ambulatorial intensivo para crianças com tendências suicidas, bem como um programa para oferecer terapia especializada a crianças de até 8 anos.

O Hospital Infantil de Connecticut está capacitando professores e pediatras para lidar com crianças com problemas de saúde mental e comportamental e fornece um número de telefone para aconselhamento em tempo real com um profissional de saúde mental, disse Shmerling. Ele espera instalar uma nova unidade médico-psiquiátrica no hospital – com até 15 leitos – no próximo ano.

Alguns estados, entre eles o Colorado, estão começando a canalizar mais dinheiro para serviços de saúde mental, embora os profissionais digam que são necessários ainda mais recursos.

“Por enquanto, precisamos de leitos para atender a esse aumento repentino”, disse Baskfield. Mas, acrescentou ela, as crianças também precisam do apoio das escolas e dos cuidados primários e ambulatoriais, para que menos delas necessitem de cuidados intensivos.

“Sozinhos não conseguiremos abrir o nosso caminho para sair desta crise”, disse ela. / Tradução de Renato Prelorentzou

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