Wilton Junior/Estadão
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Crise do novo coronavírus fez do Brasil um laboratório ideal de vacinas

Três dos estudos de vacinas mais promissores e avançados do mundo estão contando com cientistas e voluntários no Brasil

Manuela Andreoni e Ernesto Londoño, The New York Times

17 de agosto de 2020 | 11h00

RIO DE JANEIRO - A caótica resposta ao novo coronavírus no Brasil, onde o vírus já matou mais de 107 mil pessoas, fez da experiência do país um conto preventivo que muitos ao redor do mundo assistiram alarmados.

Mas, à medida que o número de casos no país disparava, os pesquisadores de vacinas perceberam uma oportunidade única.

Com um contágio generalizado e contínuo, um grande conjunto de especialistas em imunização, uma robusta infraestrutura para a indústria médica e milhares de voluntários para testes de vacinas, o Brasil emergiu como um ator potencialmente vital na luta global para acabar com a pandemia.

Três dos estudos de vacinas mais promissores e avançados do mundo estão contando com cientistas e voluntários no Brasil, de acordo com o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) a respeito do progresso da pesquisa de vacinas.

O governo em apuros espera que seus cidadãos possam estar entre os primeiros no mundo a serem vacinados. E os médicos imaginam a possibilidade de o Brasil poder até mesmo fabricar a vacina e exportá-la para os países vizinhos, uma perspectiva que os enche de algo que está faltando neste ano: orgulho.

“Estou muito otimista”, disse Dimas Covas, diretor do Instituto Butantã, produtor biofarmacêutico de renome internacional que está fazendo parceria com a chinesa Sinovac em um dos estudos que atingiu a terceira fase de pesquisa, durante o qual potenciais vacinas são testadas em 9 mil pessoas.

“O Brasil será um dos primeiros países a ter a vacina”, disse Covas.

Cerca de 5 mil brasileiros também foram recrutados para fazer parte do teste da vacina produzida pela AstraZeneca, uma empresa farmacêutica sueco-britânica em parceria com a Universidade de Oxford. Outros mil voluntários no Brasil foram convocados para testar uma vacina desenvolvida pela Pfizer, com sede em Nova York.

Os pesquisadores precisam de países com surtos grandes o suficiente para avaliar se uma vacina funcionará. Alguns voluntários recebem a potencial vacina, enquanto outros recebem um placebo, mas eles precisam estar em um lugar onde haja vírus suficiente circulando para testar a eficácia da vacina.

O Brasil, onde o vírus infectou mais de 3,3 milhões de pessoas, tem condições claras para esses testes. E será o único país além dos Estados Unidos a desempenhar um papel importante em três dos principais estudos, já que uma busca incomparável por uma vacina levou a aprovações regulamentares excepcionalmente rápidas e parcerias negociadas às pressas.

Ainda assim, está longe de ser certo, dizem os especialistas, que os testes de vacinas em andamento no Brasil vão ganhar a corrida.

Países em todo o mundo estão competindo para estar entre os primeiros a ter acesso a uma vacina que será procurada por bilhões de pessoas. Na Índia, uma das famílias mais ricas do país está se arriscando ao produzir em massa a vacina de Oxford na esperança de que seja a primeira a superar os obstáculos regulatórios e de segurança.

A Rússia aprovou na semana passada uma vacina feita por lá que ainda não chegou a fase final para garantir sua segurança e eficácia. Se funcionar, pode fazer com que o país se declare como o primeiro do mundo a desenvolver uma vacina eficaz contra o novo coronavírus.

O explosivo número de casos do Brasil o tornou o segundo país mais atingido no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Embora outros países da região tenham taxas per capita mais altas, os especialistas criticaram a maneira displicente como o presidente Jair Bolsonaro está lidando com a crise.

O presidente, que foi infectado pelo vírus em julho, o chamou de “gripezinha” e sabotou apelos por quarentenas e lockdowns. Ele também nomeou um general do Exército sem experiência médica para dirigir interinamente o Ministério da Saúde depois que dois ministros entraram em confronto com o presidente por seu desdém às abordagens baseadas na ciência.

Por causa da resposta desorganizada do país ao vírus, brasileiros têm sido proibidos de viajar, países vizinhos militarizaram fronteiras e sindicatos que representam profissionais da saúde pediram recentemente ao Tribunal Penal Internacional (TPI) para julgar Bolsonaro por crimes contra a humanidade, argumentando que ele deixou o caminho livre para o vírus.

O Brasil possui um sistema de saúde pública universal com um dos melhores programas de imunização do mundo em desenvolvimento, permitindo conter surtos de febre amarela, sarampo e outros patógenos.

Mas nos últimos anos, à medida que a economia se contraiu, o programa foi prejudicado por inflexíveis cortes no orçamento. Também teve que lutar contra as campanhas com informações equivocadas que encontraram uma audiência extasiada nas redes sociais.

Em 2019, pela primeira vez em 25 anos, o Brasil não cumpriu sua meta de vacinação para nenhuma das doses que administra rotineiramente.

Um avanço do novo coronavírus poderia galvanizar o setor de vacinas do país. Assim como poderia revigorar suas instituições científicas, que empregam cientistas de renome, mas que têm sofrido após e anos de cortes orçamentários que enfraqueceram o sistema de saúde público e prejudicaram a reputação do país como uma potência de pesquisa.

Katherine O’Brien, diretora de imunização da OMS, elogiou os investimentos do Brasil na fabricação de vacinas para a covid-19. Mas ela disse que acordos bilaterais como os que o Brasil está envolvido ainda são uma aposta.

“Alguns países terão sorte, firmando contratos com uma vacina que demonstrará eficácia”, disse Katherine. “Outros países buscarão acordos com vacinas que vão fracassar e não receberão nada.”

Com cerca de 210 milhões de habitantes, o Brasil tem capacidade para fabricar cerca de 500 milhões de vacinas por ano. De acordo com os acordos atuais de vacinas contra o novo coronavírus em que o Brasil participa, as fábricas brasileiras de vacinas lidariam inicialmente com os estágios finais da produção da vacina após a importação das matérias-primas e, posteriormente, produziriam todas completamente.

O Brasil fechou dois acordos para obter acesso preferencial a uma vacina. Um delas, entre o Instituto Butantã do Estado de São Paulo e a Sinovac, daria aos brasileiros 120 milhões de doses da vacina até o início de 2021. A segunda, entre o governo federal com Bio-Manguinhos e AstraZeneca, garante acesso a 100 milhões de doses da vacina até no início do próximo ano.

Ambos os casos incluem um acordo de transferência de tecnologia que permitiria ao Brasil fabricar posteriormente vacinas por conta própria. Autoridades do governo esperam começar a vacinar alguns brasileiros até o primeiro semestre de 2021, embora a data exata dependa dos resultados dos estudos em andamento e de um futuro processo de aprovação junto ao órgão regulador local.

Mas, ao mesmo tempo em que os pesquisadores celebram o papel do Brasil na corrida global por vacinas, eles também se sentem compelidos a lembrar aos cidadãos que as boas novas não darão fim sozinhas ao sofrimento que o vírus desencadeou no país.

“Eles não devem presumir que é isso e pronto”, disse Maria Elena Bottazzi, desenvolvedora de vacinas da Baylor College of Medicine. “Ainda há muito trabalho que o Brasil precisa fazer para fortalecer sua infraestrutura de saúde pública para reduzir a transmissão do vírus.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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