Renata Kieling
Renata Kieling

‘Cuidados com saúde mental são vistos como um privilégio no Brasil’

Psiquiatra Christian Kieling afirma que é preciso unir a sociedade em uma resposta contra a crise que a depressão representa; cerca de 70% dos casos de depressão não têm atendimento

Entrevista com

Christian Kieling

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2022 | 15h39

Apesar de afetar milhares de pessoas todos os anos, com impactos na economia, na trajetória escolar e até no aumento de mortes precoces, a depressão ainda é um problema negligenciado. No Brasil, tratamentos adequados não atingem a maioria da população e perdura a ideia de que só é possível cuidar da saúde mental quando outros aspectos da vida já estão resolvidos. 

“Os cuidados com a saúde mental são concebidos como um privilégio”, afirma o psiquiatra Christian Kieling. Com um time de especialistas de 11 países, o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) publicou em um relatório na revista científica The Lancet recomendações para enfrentar os problemas de diagnóstico, tratamento e prevenção da depressão.

A mensagem é de que é preciso unir toda sociedade contra a crise global que a depressão representa. No Brasil, estratégias como a capacitação de agentes comunitários para atender quadros leves, fortalecimento da atenção à saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) e foco na grande parcela de adolescentes e jovens podem ser a chave para atacar o problema.  

A pandemia, por sua vez, criou a tempestade perfeita para aumento de transtornos. Por outro lado, escancarou a urgência de falar sobre o tema. “Dificilmente alguém pode dizer que não teve sua saúde mental afetada em algum nível nesses últimos dois anos”, diz Kieling. “Isso faz com que a saúde mental entre agora pela porta da frente no debate sobre saúde.” A comissão Lancet/Associação Mundial de Psiquiatria, da qual Kieling faz parte, pretende promover debates ao redor do mundo sobre a depressão. 

O relatório na Lancet aponta que metade das pessoas com depressão em países desenvolvidos não são sequer diagnosticadas. A taxa é maior em países de baixa e média renda. Quais as consequências dessa falta de diagnóstico para a vida dessas pessoas?

Tem uma pesquisa mundial que avaliou pessoas que preenchiam critérios diagnósticos para depressão e depois perguntava se a pessoa teve contato com serviços de saúde para tratar os sintomas. Esses dados nos mostram que, se considerarmos países ricos, quase 50% não tinham contato com os serviços e, nos países de baixa e média renda, no qual o Brasil está incluído, chegamos a 70%. Os dados ficam piores ainda se avaliarmos o que aconteceu nesse contato. O número de pessoas que de fato recebem tratamento adequado cai: mais de 90% das pessoas em países pobres não recebem tratamento combinado de psicoterapia e medicação para quadros graves e moderados.

Pode haver mais casos de suicídio e agravamento dos quadros?

Com certeza. Temos uma série de estudos mostrando consequências negativas da depressão em diversos momentos do ciclo da vida. Entre crianças e adolescentes, vemos uma série de desfechos escolares negativos, como repetência, evasão escolar. Também há desfechos ocupacionais, diminuição da produtividade e até conflitos conjugais. O desfecho mais grave e que, infelizmente, acontece é a morte prematura: uma pessoa com depressão e que também tenha tuberculose, hipertensão ou diabete pode não aderir tanto ao tratamento da condição física por estar em um estado depressivo. No limite, tem a situação do suicídio, que ainda é algo muito forte no mundo. São 800 mil mortes por suicidio no mundo todos os anos. 

Falta conhecimento técnico e científico sobre como diagnosticar e tratar depressão ou falta vontade de atacar o problema?

Certamente tem muita coisa que não sabemos sobre depressão, são poucas décadas de um estudo mais sistematizado e os próprios critérios diagnósticos surgiram na década de 1980. Isso não deve ser desculpa para ficar de braços cruzados. Sabemos como diagnosticar, avaliar e ajudar as pessoas. E aí vemos um grande gap, que é traduzir todo esse conhecimento para a prática clínica e atingir a maior parte da população. Precisamos avançar em uma agenda de pesquisa, mas o principal desafio é implementar o que a gente já sabe na prática. 

Já que temos terapias à disposição, o que está por trás dessa dificuldade de colocar na prática?

Não é só com psiquiatra ou psicólogo que vamos resolver o problema. Temos de unir a sociedade para conscientizar sobre o impacto da depressão e a necessidade de ação. Há barreiras relacionadas ao estigma e até ao que entendemos por depressão. Também existem barreiras relacionadas aos investimentos em cuidados em saúde mental, que muitas vezes não vão ser feitos só nos ambientes de saúde.

Precisamos investir no SUS (Sistema Único de Saúde) no Brasil, que é tão maravilhoso para tantas coisas. Vemos a vacinação (contra a covid) funcionando bem, redução de mortalidade infantil, programas para diabete, hipertensão, mas para a saúde mental ainda está faltando. Os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) têm de resolver um problema maior do que conseguem. 

É preciso uma política de saúde pública focada na saúde mental reconhecendo o momento em que os problemas surgem e são mais relevantes: o final da adolescência e início da idade adulta. Essa é uma parcela da população que não frequenta o sistema de saúde. Temos o maior contingente de jovens da história, nunca mais vamos ter isso. Então esse é o melhor momento para trabalhar a prevenção da depressão e atuar no primeiro episódio depressivo, para evitar a cronificação dos quadros. E onde está a saúde mental na pauta, nos planos de governo, na discussão eleitoral? Desconheço um candidato trazendo isso à tona. 

A saúde mental no Brasil então é negligenciada em detrimento de uma série de outros problemas, mais ligados à saúde física, como problemas cardíacos?

Sim, e eu acho que essa visão está equivocada porque parte de uma ideia de que saúde mental e física são separadas. O indivíduo é um só: ele não é uma doença cardiovascular ou uma doença mental. E há impacto de uma coisa na outra. Quem está deprimido e tem pressão alta pode até se desengajar do tratamento para pressão alta e não tomar remédios. A magnitude da saúde mental parece ser subestimada no nosso País. Os cuidados com a saúde mental são concebidos como um privilégio e não um direito humano básico, na medida em que só as pessoas que têm condição de pagar um tratamento particular têm acesso. E isso me parece ser um equívoco muito grande. Imagina se, no meio da pandemia, tivéssemos uma visão parecida em relação à vacinação? Infelizmente fazemos isso em relação à saúde mental no nosso País, de considerá-la um luxo, como se só quem está com tudo resolvido na vida pudesse cuidar da saúde mental.

No Brasil, como você vê essa questão do estigma? A população e os profissionais de saúde estão mais abertos a estudar e falar sobre depressão?

A população está se abrindo mais. O estigma ainda existe, é grande. Mas, se tem algum aspecto positivo da pandemia - se é que dá para falar nesses termos - é que ela nos mostrou que todos nós temos a saúde mental e ela pode ser afetada por eventos externos. Dificilmente alguém pode dizer que não teve sua saúde mental afetada em algum nível nesses últimos dois anos. E isso faz com que a saúde mental entre agora mais pela porta da frente no debate sobre saúde. Dou aula a estudantes de Medicina e vejo os alunos interessados em aprender, mesmo quem não vai seguir na Psiquiatra, porque eles veem a relevância para suas próprias vidas e para o cuidado de seus pacientes.

Quais as frentes possíveis de trabalho para prevenir a depressão? É possível começar já na primeira infância? 

Eu diria que não é nem na primeira infância, mas na gestação ou talvez até (na fase) pré-concepcional. Temos evidências mostrando que intervenções perinatais para depressão nas mães têm repercussão na saúde mental da próxima geração. Podemos ir tão precoce quanto isso, assim como podemos olhar para a outra ponta, em intervenções para promover interação social e reduzir a solidão em idosos. E, no meio do caminho, há intervenções em escolas, para crianças e adolescentes, no ambiente de trabalho, pensando na população adulta. Há oportunidades para atuar em diversos níveis. 

E o que temos de profissionais para isso? Falta gente especializada?

Tem uma matemática que não fecha. Se pensarmos que 5% da população adulta no Brasil tem ou teve no último ano um episódio depressivo, estamos falando de 10 milhões de pessoas. Não tem profissional de saúde mental suficiente. Então precisamos reconhecer o nível de gravidade, de intensidade do quadro, para fazer, de maneira racional, o encaminhamento. A gente tem evidências de diversos países, na África e Ásia principalmente, mostrando que posso treinar profissionais não especialistas para implementar estratégias psicossociais e psicoterápicas eficazes para o tratamento da depressão, principalmente em quadros leves a moderados. Poderíamos pensar no Brasil o treinamento de agentes comunitários de saúde, por exemplo, que trabalhariam sob supervisão de um médico da UBS (Unidade Básica de Saúde), de um profissional de saúde mental, para implementar isso para a maior parte da população. 

A pandemia pode trazer mais desafios ao tratamento da depressão? 

A pandemia trouxe uma tempestade perfeita, com aumento de exposição a fatores de risco, como o isolamento social, e diminuição de fatores de proteção. Na infância e adolescência, muitas vezes a escola era um local de proteção, onde uma situação de abuso poderia ser identificada. Temos os sistemas de saúde sobrecarregados, distanciamento, luto, fatores econômicos, tudo isso contribuindo. Se isso vai fazer um aumento imediato de quadros de pressão, é discutível. Tem estudos dizendo que houve aumento de casos de depressão ao longo da pandemia e outros que não mostram isso de maneira tão clara, mas é importante lembrar que muitas vezes temos um intervalo grande entre a exposição a fatores de risco e o desfecho. Os efeitos negativos da pandemia podem ser sentidos imediatamente, mas podem ter consequências a médio e longo prazo. 

Em relação ao tratamento, houve uma série de desafios, desde como atender os pacientes. A migração para o (atendimento) online era algo que já estava acontecendo em saúde mental, mas avançou muito mais rápido e hoje é uma prática que acho impossível voltar atrás. Desenvolvemos novas maneiras de cuidar da saúde mental e especificamente da depressão mesmo com todos os desafios da pandemia.  

 

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