Hélvio Romero
Hélvio Romero
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Cultura e política

É possível falar de literatura, de cinema ou de música sem falar de política?

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 03h00

Sentei-me ao computador disposto a não escrever sobre política. O leitor já encontra esse tema em tantas páginas do jornal que gostaria de lhe dar uma folga. “Falarei de coisas que gosto”, pensei. Comecei então a remexer o baú das ideias.

LEIA TAMBÉM >A vida na mesa

Literatura? Talvez seja um bom caminho. Há algum tempo descobri por acaso o livro A Obra em Negro, da escritora francesa Marguerite Yourcenar. Comprei esses dias sua reedição na coleção clássicos de ouro da Nova Fronteira e não consegui parar de ler. Não porque seja um livro de fácil assimilação. Ao contrário, a linguagem é extremamente elaborada; muitas construções de frases e parágrafos são invertidas; a narrativa entremeia-se com reflexões, exigindo um envolvimento ativo do leitor - e o fato de a tradução ser do poeta Ivan Junqueira só contribui para manter a exigência. Mas a trama é envolvente.

A história se passa no século 16 e acompanha as peregrinações de Zenão, um intelectual que começa como religioso, mas abandona a igreja em troca da Filosofia - inicialmente migrando para a Medicina e finalmente envolvendo-se com a Alquimia. 

Suas reflexões frequentemente o colocam em conflito com as opiniões estabelecidas e com interesses de poderosos. Num tempo em que a liberdade de ideias e expressão não está em voga, a maciça ignorância trabalha a favor dos políticos, o que representa uma ameaça contínua para quem ousa pensar de forma diferente. Nada muito diferente de nosso tempo, pensando bem. Melhor mudar de assunto, senão acabaremos falando de política.

Cinema, então? Pode ser. Recebi tantas recomendações para assistir o filme Nós que encarei meus medos e fui ver esse terror.

É o segundo filme do diretor Jordan Peele, originalmente um ator de comédia que resolveu se aventurar na direção. Estreou com o premiado Corra! e agora surpreendeu com a história de Nós. Uma família está passeando na praia quando no meio da noite invasores tentam entrar em sua casa. Para seu espanto as pessoas são eles mesmos.

Não vou contar mais para não estragar a surpresa, mas acredite: o filme é genial. Peele consegue tratar de temas como racismo, preconceito, exclusão. Tudo isso sem qualquer tom panfletário, porque são inseridos com perfeição na trama e trabalham a serviço da história.

 

Quando os outros somos nós, o que significa mantê-los excluídos? Opa, já vamos nós em direção à política novamente. Mudemos de tópico. 

Música? Pronto, eis um tema mais tranquilo. É mais arriscado porque entendo pouco de música em geral, e o pouco que sei restringe-se ao universo do jazz. 

Mas temos um bom gancho, já que no final desse mês comemora-se o Dia Internacional do Jazz. Juro que não se trata de uma daquelas datas obscuras que só interessam aos fãs, cuja existência o mundo ignora. Ao contrário, 30 de abril foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), para divulgar as “virtudes do jazz como uma ferramenta educacional e uma força para paz, união, diálogo e cooperação entre as pessoas”.

 

As origens negras do estilo foram uma força motriz na integração dos negros à sociedade na metade do século 20. Mais: a própria estrutura da música, que requer diálogo, colaboração, improviso, é uma lição de como podemos nos relacionar melhor em sociedade. Não é por acaso que o vencedor do Grammy de melhor álbum de jazz para big bands neste ano foi o trabalho American Dreamers: Voices of Hope, Music of Freedom

Em 2017, o governo americano suspendeu um programa que permitia que pessoas levadas para os Estados Unidos quando crianças não fossem deportadas. Muitos jovens e adultos, inseridos e ativos na comunidade, tornaram-se apreensivos com a decisão. 

O filantropo Doug Davis resolveu fazer algo para conscientizar as pessoas do que isso significava e começou um projeto com jovens músicos imigrantes. A iniciativa cresceu e se tornou esse álbum vencedor, no qual os sonhadores contam sua história - e os riscos que a mudança política representa para eles - antes de cada música. E aqui estamos nós, novamente falando de política.

Desisto. Não consegui fugir da política hoje. Na próxima coluna, tento de novo.

*É PSIQUIATRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.