Curandeira ajudou a propagar Ebola em Serra Leoa

Mulher trabalhava com ervas e dizia saber curar febre hemorrágica, o que atraiu à região de Kenema infectados do país vizinho Guiné 

Frank Taggart, AFP

20 Agosto 2014 | 10h59

KENEMA - A ação de uma curandeira ajudou a propagar o Ebola, provocando centenas de mortes na região de Kenema, em Serra Leoa. A mulher, que trabalhava com ervas, dizia poder curar a febre hemorrágica, o que atraiu para o lugar doentes da vizinha Guiné. A curandeira morava em Sokoma, um vilarejo próximo da fronteira, segundo disse à AFP Mohamed Vandi, responsável médico de Kenema, no leste de Serra Leoa, epicentro da epidemia no país.

"Os doentes cruzavam a fronteira para serem curados. Ela (a curandeira) foi infectada. Durante seu funeral também se contagiaram várias mulheres dos arredores", afirmou Vandi. As pessoas que assistiram ao funeral foram para as colinas da região fronteiriça, desencadeando uma reação em cadeia de mortes e, seus posteriores enterros públicos propiciaram novos contágios.

O preocupante aumento de casos se transformou em epidemia quando, em 17 de junho, chegaram a Kenema, uma cidade multiétnica de 190 mil habitantes, conhecida por ter registrado o triste recorde mundial de febre Lassa, outra doença hemorrágica.

Apesar de sua experiência com doenças, o hospital local não conseguiu resistir à brutalidade do novo vírus. As fotos das enfermeiras falecidas penduradas no mural de avisos da parede do estabelecimento recorda os estragos causados pelo Ebola. Doze delas figuram entre os 277 mortes registrados desde a entrada do primeiro doente no hospital de Kenema. Cerca de uma dezena de enfermeiras contaminadas com o vírus conseguiram sobreviver. O hospital é o único no mundo que possui uma área de isolamento para febre Lassa e agora conta com outra para Ebola, construída às pressas.

"As enfermeiras mortas e as que sobreviveram não podiam saber que iam ser infectadas. Combatemos uma nova guerra. O vírus Ebola está de novo por aqui e aprendemos sobre sua evolução", reconheceu Vandia.

Responsável há mais de 25 anos pela seção de tratamento da febre Lassa, Mbalu Fonnie sobreviveu àquela doença, mas pereceu com o Ebola. Sua morte, além da das enfermeiras e a de um motorista de uma ambulância, provocou uma greve contra a má gestão do centro de combate ao Ebola.

"Onde o vírus Ebola ataca pela primeira vez, ele afeta uma porcentagem elevada do pessoal sanitário", afirmou Vandi. "O vírus Ebola é mortal e implacável. O menor erro provoca um contágio."

O virologista Umar Khan faleceu em julho após ter salvo uma centena de vidas e, desde então, morreram sete enfermeiras. A unidade antiebola conta com 80 camas , quase o dobro de sua capacidade. O pessoal é voluntário e muitos se negam a trabalhar no setor. Emmanuel Karimu, marido de Rebecca Lansana, falecida em agosto, afirmou à AFP que sua mulher havia sido transferida para o setor depois um treinamento rápido de uma semana.

Um dia, depois do trabalho, começou a ter febre e o teste deu positivo para Ebola. "Nesse mesmo dia, ela deu entrada na unidade antibola e morreu quatro dias depois", contou Emmanuel Karimu, que acusou o hospital de não lhe fornecer material adequado.

Desde então, a formação do pessoal do setor melhorou, graças à ajuda de agência humanitárias e da Organização Mundial da Saúde (OMS), informou o hospital. Desde que a curandeira local prometeu a cura contra o Ebola, o vírus já contaminou 848 pessoa em Serra Leoa, matando 365, de acordo com o último levantamento da OMS. 

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