ZHANG CHANGCHUN | REUTERS
Pulmão de paciente chinesa infectada ZHANG CHANGCHUN | REUTERS

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Da educação à economia: 11 colunistas do 'Estado' analisam impacto do coronavírus

Pandemia que acelera questões geopolíticas e reforça caminho da globalização também pode ampliar desigualdades no ensino

O Estado de S. Paulo , O Estado de S.Paulo

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Pulmão de paciente chinesa infectada ZHANG CHANGCHUN | REUTERS

São poucas as certezas desde que a covid-19 entrou em cena, trazendo à tona questionamentos que vão além dos imensos desafios na área da saúde pública. Geopolítica, globalização, economia e educação, além de aspectos sociais e psicológicos, ganham contornos diferentes após a pandemia. Discussões que você encontra aqui, em análises feitas por  11 colunistas do ‘Estado’, que incluem o impacto do novo coronavírus em diversas áreas e lançam perspectivas de futuro para o Brasil e o mundo. 

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Fernando Reinach: Governo precisa levar em conta custo psicológico do isolamento

Estudos feitos em populações isoladas anteriormente identificaram problemas como depressão, estresse pós-traumático, insônia e exaustão emocional

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h32

O aumento dos casos da covid-19 tem forçado os países a implementar medidas que aumentam a distância física e diminuem o contato entre pessoas. Na China, as pessoas deixaram de ir ao trabalho, as escolas fecharam, os eventos que envolvem aglomerações foram cancelados e a liberdade de ir e vir foi restrita. O mesmo está ocorrendo na Itália. Outros países estão tomando medidas semelhantes. Separando as pessoas, fica mais difícil de o vírus se espalhar e o número de casos por dia diminui, o que retarda a pandemia. E, mais importante, diminui a sobrecarga no sistema de saúde. O surto dura mais tempo, mas é menos intenso e as pessoas têm mais chances de serem tratadas adequadamente. Temos de nos preparar para a possibilidade de termos nossa liberdade de ir e vir restrita nas próximas semanas ou meses.

O problema é que somos animais sociais. Estamos acostumados a viver em grupos, a interagir com familiares e amigos. Por esse motivo, ficar trancado em casa durante semanas deixa qualquer um louco.

Na verdade, pouquíssimas pessoas ficam realmente loucas no sentido médico do termo. E, graças à ciência, existem muitos estudos sobre o custo psicológico de uma quarentena. O respeitado jornal The Lancet publicou uma revisão da literatura científica sobre o estado emocional das pessoas durante e após o isolamento (The Psycological Impact of Quarentine and How to Deduce It: Rapid Review of the Evidence).

A base de dados do jornal apontou inicialmente 3.166 artigos sobre o assunto. Excluindo-se as duplicatas, havia um total de 2.900 trabalhos – 2.848 foram considerados irrelevantes. Cinquenta e dois estudos passaram por avaliação cuidadosa e o que segue são os resultados reportados nos 24 trabalhos incluídos na revisão. As populações estudadas incluem médicos infectados, populações do Canadá, de Taiwan, do Senegal, de Hong Kong, da China e de outros países que sofreram com a epidemia de Sars, ebola, Mers e outras doenças.

Vários impactos foram detectados durante o isolamento: depressão, estresse, mau humor, irritabilidade, insônia, estresse pós-traumático, raiva e exaustão emocional. Esses são os sintomas com maior prevalência. No caso de pessoas isoladas por Sars e Mers, 20% ficaram com medo, 10% com sentimento de culpa e 18% com tristeza. Também houve pessoas com sentimentos positivos, 4% se sentiram aliviados e 5%, felizes.

Após a quarentena, os sintomas persistiram em muitas pessoas por meses. Em alguns médicos e enfermeiras, o medo de doenças não desapareceu. Os estudos demonstraram que pessoas jovens (16 a 24 anos), de baixa educação e mulheres têm maior suscetibilidade. Ter filhos parece diminuir as chances de sofrimento.

Foram também identificadas as razões para esses distúrbios: medo de ser infectado, frustração e tédio, falta de suprimentos e de informação. Depois da quarentena, as preocupações financeiras e o estigma de ter sido isolado são as razões mais frequentes para os sintomas. Os estudos recomendam o que pode ser feito para aliviar os efeitos: manter a quarentena tão curta quanto possível, garantir informação e suprimento de comida, reduzir o tédio com ajuda de meios digitais e comunicação.

A conclusão é que a quarentena tem efeitos psicológicos muito diversos e de longa duração. Como muito provavelmente a maioria de nós vai passar por um período de isolamento total ou parcial, é bom saber que os sentimentos fazem parte da resposta normal dos seres humanos. Esse conhecimento talvez nos ajude a enfrentar com mais coragem esse transtorno. Cabe ao governo levar em conta esses achados ao organizar o distanciamento social ou as quarentenas.

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Renata Cafardo: Sem aulas por causa da doença, desigualdade no ensino aumenta

Pessoas mais pobres têm menos oportunidade de aprendizagem em casa e muitos não tem opção do EAD

Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h42

Os números são assustadores: mais de 420 milhões de crianças e jovens estão fora da escola no mundo por causa do coronavírus. Não porque estejam infectados, mas porque 39 países já fecharam totalmente suas instituições de ensino básico e superior, como Itália, China, Noruega e Japão. Outras 22 nações paralisaram as aulas em algumas regiões, como Brasil, Estados Unidos, França e Inglaterra. A medida é para proteger a saúde, mas há consequências educacionais que não podem ser ignoradas.

Aqui no Brasil, apenas os Estados que já têm transmissão comunitária tomaram essa decisão por tempo indeterminado, São Paulo e Rio de Janeiro. Quando isso acontece, não é possível mais identificar de onde veio a contaminação, como quando sabíamos que era de alguém que viajou ao exterior, por exemplo. No Distrito Federal, as escolas foram fechadas por cinco dias antes mesmo de haver esse tipo de transmissão.

A medida divide especialistas, principalmente sobre a hora certa de interromper as aulas. Estudos indicam que as crianças desenvolvem a doença de forma mais leve ou até sem sintomas. Pesquisas com grupos amostrais não indicam uma só morte até 9 anos de idade e poucas entre jovens. O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já manifestou sua preocupação com as crianças em casa, que passariam a ser cuidadas pelos avós. Elas podem acabar contaminando os idosos, maior grupo de risco da doença.

Ao mesmo tempo, dependendo do crescimento e do perfil dos casos, é preciso evitar a circulação de pessoas, de qualquer idade, para tentar manter o vírus longe de quem pode se tornar um paciente grave. 

A Unesco, braço das Nações Unidas para a educação, tem olhado com atenção para a educação global com o fechamento de escolas. Os maiores prejudicados serão, inevitavelmente, meninos e meninas de famílias mais pobres. Há riscos para a aprendizagem, a sociabilidade e a segurança das crianças. A medida pode ainda aprofundar as desigualdades na educação.

A pobreza já é um dos fatores que mais contribuem para o fracasso no ensino. Em um contexto sem escola, são os mais vulneráveis que têm menos oportunidade de aprendizagem em casa, como livros, atividades de lazer e pais que ajudam a criança a se desenvolver. Muitos também dependem da escola para se alimentar adequadamente.

Como solução, fala-se em educação a distância. Por causa do coronavírus, as maiores universidades do mundo fecharam as portas. Harvard, Columbia, Stanford estão agora com atividades online. Mas isso também é uma realidade distante no Brasil.

Mais de 30% das casas aqui não têm nem sequer acesso à internet, em geral as mais pobres. A Pesquisa TIC Domicílios mostra que 24% de quem ganha até um salário mínimo tem internet via cabo ou fibra ótica, disponível em 60% dos lares com mais de 10 salários. Fora que não existem boas ferramentas ou videoaulas com qualidade comprovada para sustentar a educação a distância no ensino fundamental e médio.

A falta de escola também causa efeitos na economia e na vida das pessoas. Pais tendem a faltar no trabalho porque não têm com quem deixar os filhos, o que reduz a produtividade – e aumenta o estresse. Todo pai e mãe sabe como é complicado manter o filho em casa por muito tempo e ainda com poucas opções de lazer, já que é preciso evitar aglomerações, e até clubes e parques começam a fechar.

O Brasil tem 48 milhões de alunos na educação básica. O que nos resta é torcer para que o clima quente nos ajude e o coronavírus não afunde mais ainda a castigada educação do País. 

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Zeina Latif: Em tempos de coronavírus, ter plano de voo na economia será essencial

Ter plano de voo na economia será essencial para preservar a confiança no País, o que requer pacificar a relação com o Congresso.

Zeina Latif, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 16h32

Economistas mundo afora estão debruçados em seus modelos e suas planilhas para projetar o crescimento do PIB neste ano. O grau de incerteza é enorme, pois nem sequer se sabe a dimensão da pandemia de coronavírus.

As estimativas de crescimento do PIB mundial têm se encontrado em um intervalo entre 1% e 2,6%. Seria bom poder, com segurança, descartar o resultado de 2009, de contração de quase 1%, segundo o FMI.

A recessão mundial está batendo à porta. Só não se sabe o tamanho. O crescimento mundial abaixo de 2,0-2,5% já é considerado recessão por muitos analistas, pois países emergentes naturalmente crescem mais e puxam a média global para cima.

A crise atual guarda pouca relação com a de 2008/2009, quando houve um colapso do crédito mundial. Na falta de informações confiáveis sobre a situação financeira de empresas e bancos, ninguém queria emprestar para ninguém por medo do calote.

A receita para defesa era clara e foi utilizada: os bancos centrais inundaram a economia mundial de liquidez, que se manteve elevada desde então.

Havia atenuantes para emergentes, contribuindo para conter o contágio: a crise ter origem em economias avançadas e a China ter conseguido conduzir políticas de estímulo. O resultado foi que, grosso modo, os emergentes puderam adotar políticas anticíclicas, como estímulos monetário e fiscal. Em crises passadas, esses países foram obrigados a fazer arrocho. O resultado foi uma recuperação rápida, em “V”, ainda que não a ponto de gerar bons números em 2009, inclusive da economia brasileira.

O quadro agora é bem diferente. A crise começou na China, o principal motor da economia mundial, especialmente para os emergentes. O espaço para políticas tradicionais de estímulo é pequeno: os juros estão baixos, já há muita liquidez e não há espaço para expansão fiscal. Mesmo que houvesse instrumentos, a eficácia seria limitada.

A primeira linha de defesa, na verdade, é minimizar o contágio das pessoas, de forma a conter o próprio contágio na economia.

O impacto na economia brasileira é inevitável, como ficou claro pelo comportamento dos mercados, mesmo que não houvesse chance de epidemia em nosso território. Há vários canais de contágio econômico: alta do dólar, que implica pressão de custos e dificuldades na tomada de decisão de empresas; falta de insumos em alguns setores, como já apontado pela indústria automobilística; encolhimento do comércio mundial; piora da confiança de investidores e perdas de capital, entre outros. A lista não é pequena.

Está difícil qualquer convicção sobre as projeções de crescimento no Brasil. Há baixa visibilidade. Por um lado, há o efeito do corte de juros do Banco Central a se materializar. Por outro, o quadro muda rapidamente com o risco de uma epidemia no País. Em caso de situação mais crítica nos grandes centros urbanos, o impacto na economia será ainda maior.

Sobre as respostas do governo, será necessário, em primeiro lugar, avaliar a capacidade de conter o contágio de pessoas.

Na agenda econômica, a discussão principal não é a capacidade do BC de conter a alta do dólar ou cortar mais ou menos a taxa Selic. Isso é detalhe.

É necessário viabilizar recursos para a saúde e avançar tempestivamente nas medidas para reduzir a rigidez do orçamento (a chamada PEC emergencial). Ter plano de voo na economia será essencial para preservar a confiança no País, o que requer pacificar a relação com o Congresso. Já se fala em crescimento de 1%, enquanto não dá para descartar algo mais próximo de 2%. São cenários possíveis. Difícil atribuir probabilidades neste momento. Na realidade, qualquer previsão agora é pouco confiável.

Com a palavra, os profissionais da saúde.

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Celso Ming: Epidemia reforça o caminho da globalização

Lidar com o caso requer ampla coordenação de políticas entre governos, bancos centrais e instituições multilaterais

Celso Ming, Impresso

14 de março de 2020 | 16h37

O tsunami que desabou sobre o mundo nas últimas duas semanas não deixa apenas incertezas. Também reforça certas advertências.

A primeira delas tem a ver com a globalização. “Expulsai o natural e ele voltará a galope” – dizia o dramaturgo francês Philippe Destouches no século 17. Quanto mais têm sido atacadas ou negadas, tanto mais a integração e a necessidade de intensificá-la ficam mais claras.

Nada de globalização, ponha os Estados Unidos em primeiro lugar – vem martelando o presidente Trump e ele próprio sai dizendo que “o vírus é estrangeiro”. O Brexit e os movimentos separatistas que tomam corpo na Catalunha e na Escócia querem independência e isolamento. As forças nacionalistas e xenófobas que se espalham pela Europa são outra fonte de ataques a várias formas de integração econômica, política e social.

São três manifestações do mesmo impulso que tenta refugar a globalização. Mas a rápida disseminação do coronavírus mostrou quanto tudo neste pequeno mundo está imbricado e é interdependente. Tão imbricado, tão interdependente e tão vulnerável que não sobrou outra maneira de lidar com os grandes problemas senão com cada vez mais ampla coordenação de políticas entre governos, bancos centrais e instituições multilaterais.

O que está acontecendo na Itália não é exagero de cartolas políticos apavorados com cobranças. Eles apenas estão colocando em prática determinações técnicas que têm por objetivo conter a expansão de uma praga. Lá, toda a população, de 60 milhões de habitantes, foi confinada às suas residências, está proibida de ir a quaisquer aglomerações, inclusive aos velórios. O Brasil tem 210 milhões de habitantes e se mostra despreparado se ou quando algo parecido vier a acontecer por aqui. Imagine-se o pandemônio caso a progressão em bases geométricas da pandemia obrigar as autoridades a tomar providências equivalentes a confinamento ou adoção de quarentena. O que será das prisões (onde as visitas terão de ser proibidas) e das favelas, tão sujeitas a promiscuidades? O que será das escolas, do transporte público (incluídos aí os táxis), dos espetáculos, dos cinemas, teatros, dos restaurantes, dos bares e da convivência nas fábricas, nos escritórios, no comércio, nas igrejas, nas ruas. Não há razão especial para que o Brasil seja especialmente poupado de tragédias dessa ordem.

Embora, até agora, nenhuma morte tenha sido confirmada no Brasil em consequência do coronavírus, o impacto sobre o mercado financeiro vem sendo mais intenso do que em países mais atacados pela epidemia. Um jeito de ler a dinâmica dos fatos é entender que o fundo do poço ainda não foi atingido porque o pior ainda não aconteceu. Outro jeito é afirmar que, se o tombo foi forte demais, como parece, também a recuperação, quando vier, será mais rápida. Só tem uma coisa: remar de volta contra a corrente é bem mais difícil. Até mesmo a numerologia pode deixar isso mais claro. Se o mercado desaba de 100 para 50, leva um tombo de 50%. Mas para voltar de 50 para 100, tem de subir 100%.

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Lourival Sant'Anna: Oportunista, doença acelera jogo geopolítico

Grandes dinâmicas do sistema internacional, envolvendo China, Rússia, EUA e Europa, se precipitaram com a pandemia

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h02

Como todo vírus, o causador da covid-19 é um oportunista, que catalisa e dá nova expressão a processos já em andamento. É esse o seu impacto também no plano geopolítico. As três grandes dinâmicas do sistema internacional se precipitaram com a pandemia: o fortalecimento do componente autoritário na afirmação da China como superpotência; a projeção da Rússia e o acirramento das disputas com os Estados Unidos; e a divergência estratégica entre a Europa e Trump.

A eclosão do coronavírus na China expôs duas fragilidades do país. Primeiro, o quanto os hábitos e a cultura dos chineses não conseguiram acompanhar a urbanização em ritmo atordoante nas duas últimas décadas. A transmissão do vírus para os seres humanos só foi possível por causa do papel central que animais silvestres ainda têm na culinária e na medicina tradicional chinesa.

Em segundo lugar, a resposta da China ao surto expôs as consequências de seu modelo híbrido de autoritarismo e capitalismo. A primeira reação das autoridades em Wuhan foi tentar abafar o surto, mesmo após a traumática lição da Sars, que se espalhou em 2003 graças à falta de transparência das autoridades.

O governo central chinês, ao tomar pé da situação, assumiu uma atitude muito mais proativa e transparente. Mas as medidas adotadas para conter a epidemia só foram possíveis graças ao caráter autoritário do regime. 

A China conseguiu desacelerar drasticamente a proliferação da doença. Com isso, as perdas, tanto no crescimento econômico quanto no prestígio do país, incluindo o programa de investimentos globais da Iniciativa da Rota da Seda, foram estancadas, mas não anuladas. Ainda vai levar um tempo até que possamos medir o tamanho desse prejuízo para a China e o seu impacto global.

A queda no preço do petróleo causada pela diminuição da demanda em função do coronavírus também precipitou algo que estava à espreita: o uso da carta energética pela Rússia. Desde 2014, EUA e União Europeia adotam sanções contra a Rússia por causa de suas intervenções na Ucrânia. Em dezembro, o governo americano impôs medidas contra as empresas que participam da construção do gasoduto Nord Stream 2, que liga a Rússia à Alemanha.

A Rússia já estava incomodada com o papel regulador do preço do petróleo que os EUA vêm exercendo indiretamente, depois de se tornar o maior produtor e o quarto maior exportador, e de impor sanções à Venezuela e ao Irã. O governo americano calibra a produção desses países por meio de concessões para empresas de exploração e distribuição.

A Rússia rejeitou a proposta da Arábia Saudita de cortar a produção para elevar o preço do petróleo, rompendo uma aliança de mais de três anos com a Opep. A estratégia russa, ao manter o barril barato, é tirar do mercado o petróleo de xisto americano, que tem preço de extração bem mais alto que o convencional.

Por último, os governantes têm reagido ao coronavírus conforme as suas disposições frente ao mundo. A chanceler Angela Merkel, mesmo ao reconhecer que o vírus poderá contaminar entre 60% e 70% dos alemães, está mantendo por ora as fronteiras abertas. O governo conservador de Sebastian Kurz fechou a fronteira da Áustria com a Itália.

Trump anunciou na noite de quarta-feira a proibição da entrada de cidadãos do Espaço Schengen, que reúne 26 países europeus. Após contabilizar muitas perdas causadas pelo Brexit, o Reino Unido, que não pertence a essa área de fronteiras abertas, viu-se premiado por seu isolamento e foi excluído da medida. O presidente americano responsabilizou os governantes europeus por facilitar o alastramento da doença ao manter as fronteiras abertas.

O coronavírus não está mudando os rumos do mundo. Está apenas acelerando seus passos numa trajetória que já estava traçada.

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Carlos Pereira: Governo corre o risco de ser visto como responsável pelos efeitos da pandemia

É pouco provável que essa pandemia seja aproveitada pela gestão Bolsonaro como uma oportunidade para implementação de mudanças

Carlos Pereira, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 16h51

Em julho de 1916, a costa leste dos EUA, especialmente Nova Jersey, foi acometida por uma série de ataques de tubarão que ocasionaram a morte de vários americanos. Esses eventos inesperados alcançaram grande repercussão no noticiário e considerável sofrimento emocional, especialmente da população das comunidades costeiras. O então presidente dos EUA, Woodrow Wilson, concorria à reeleição no fim daquele ano.

Embora o presidente Wilson não tenha tido responsabilidade direta pelos ataques aleatórios de tubarão, estudos (Achen e Barthels, 2012) identificaram uma forte correlação entre aqueles ataques e a significativa redução no número de votos a favor da reeleição do presidente naquela região em relação à quantidade de votos no pleito de 1912, quando Wilson foi eleito presidente pela primeira vez.

Por outro lado, o devastador desastre provocado pelas inundações que aconteceram na Alemanha em 2002 trouxe consequências bem distintas para o seu governante. O governo ofereceu ajuda monetária imediata e, estrategicamente, organizou uma visita do chanceler, Gerhard Schröder, usando botas de borracha, às vilas inundadas. Esta atitude foi interpretada pela mídia como símbolo da credibilidade do chanceler como gerente de crises. Após as inundações e, pelo menos em parte pelo que foi percebido como bem-sucedida gestão de desastres, o governo ganhou apoio popular e venceu as eleições federais vários meses depois.

Desastres nem sempre têm impacto político negativo. Dependendo do contexto, as consequências para os líderes políticos também podem ser positivas. Se o governo de plantão for capaz de liderar com autoridade moral e ofertar respostas adequadas ao problema, é possível que desastres se transformem em janelas de oportunidade para galvanizar apoio e conseguir implementar reformas.

Albrecht (2017) argumenta que a mídia exerce papel relevante nas consequências políticas dos desastres. Quanto maior for o tempo de cobertura e a exposição de fragilidades organizacionais das estruturas governamentais para lidar com as consequências do desastre, maiores serão as chances de impactos negativos para o governo de plantão.

Especificamente em relação aos efeitos políticos do coronavírus para a gestão de Jair Bolsonaro, é muito difícil fazer previsões no momento atual. Isso ocorre porque vários aspectos importantes ainda são desconhecidos, tais como a extensão da contaminação, a gravidade dos casos, o número de mortos, o tempo de duração da epidemia e a eficácia das respostas oferecidas pelo governo. 

Mas, diante das dificuldades governativas enfrentadas até o momento pelo governo Bolsonaro, que é minoritário e tem desenvolvido uma relação adversarial com o Legislativo e com a mídia, é pouco provável que essa pandemia seja por ele aproveitada como uma oportunidade para implementação de mudanças.

O governo corre o risco de ser visto como responsável pelos efeitos da pandemia. A dúvida que fica é em relação ao tamanho do dano, pois a confiança social tende a diminuir significativamente, especialmente quando a epidemia começar a causar fatalidades.

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Daniel Martins de Barros: Precisamos nos esforçar coletivamente contra a epidemia

Pânico não é necessário, mas estamos em risco e precisamos nos esforçar coletivamente

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h58

Se o leitor é como eu, deve estar se sentindo um pouco perdido. Bem, não estamos sozinhos. Os cientistas e as autoridades também estão. Trata-se de uma doença nova, afinal de contas, que vamos conhecendo à medida em que ela se espalha pelo mundo. E ela faz isso numa velocidade sem precedentes, nos pondo o tempo todo a correr atrás de informações para tentar tomar a dianteira nessa disputa contra o coronavírus.

Bem, temos boas e más notícias. E esse é um dos maiores desafios na transmissão de informações relacionadas a essa crise atual, pois parece que as mensagens que estamos recebendo são contraditórias. Não precisa de pânico, repetem para nós. Mas cada vez mais cidades, regiões e até mesmo países inteiros entram em quarentena. Não se desesperem. Mas se cuidem. Não estoquem comida. Mas parem de dar a mão para se cumprimentar.

Nosso cérebro, pouco dado a nuances, entra em parafuso: “Como assim tenho de manter distância das pessoas se está tudo bem?”. Ou bem podemos ficar tranquilos e seguir a vida normalmente ou bem existe uma ameaça e precisamos nos preparar. Nossa tendência ao raciocínio binário dificulta a compreensão de que as duas coisas podem coexistir: é possível que algo não nos ameace, mas que mesmo assim precisemos mudar hábitos para ficarmos seguros.

Pense no cinto de segurança. Hoje em dia, parece inacreditável que uma geração atrás nós dirigíamos sem cinto. Dizíamos que eram incômodos, que atrapalhavam, havia quem os achasse perigosos. Embora do ponto de vista social o custo dos acidentes sem cinto fosse alto – porque todo dia eles aconteciam –, individualmente a chance de que isso acontecesse era pequena. É tanta gente trafegando que a probabilidade de o próximo acidente ser o seu é mínima, embora seja certo que acidentes acontecerão. Então, seguíamos em frente sem mudar nada.

Como transformamos essa cultura em tão pouco tempo? Não foi com campanhas de conscientização (pelo menos não apenas com elas). Foi introduzindo nos motoristas o medo. Não de morrer, no caso, mas o medo de tomar uma multa. Aparentemente, sem a percepção de algum tipo de risco é difícil convencer as pessoas a mudar comportamentos.

Esse é o paradoxo em que nos encontramos. A covid-19, doença causada pelo novo vírus (o Sars-Cov-2), realmente não é muito letal. Os infectados têm chances muito maiores de sobreviver do que de morrer. E essa mensagem vem sendo repetida para evitar o pânico. Mas existe um número considerável de pacientes, algo em torno de 5%, com quadros tão graves que necessitarão de ventilação mecânica em UTI durante vários dias. Aí entra o risco para a coletividade. Como o vírus se espalha muito rápido, mesmo que só um em cada mil brasileiros fosse infectado, teríamos 200 mil doentes. Se todos eles precisassem de UTI ao mesmo tempo, isso nos levaria ao caos que enfrenta hoje a Itália, onde médicos têm de escolher quem vai viver e quem vai morrer. Sim, pois temos menos de 50 mil desses leitos no Brasil para acomodar os doentes que necessitariam deles. Somente mudanças de comportamento podem evitar esse pico de casos muito rápido que levaria o sistema de saúde ao colapso.

E daí vem a mensagem ambígua. De fato, não precisa de pânico – seu risco de morrer é pequeno. Mas estamos, sim, em risco e precisamos nos esforçar coletivamente. Se não mudarmos nosso comportamento – lavando as mãos de verdade, e sempre, deixando de cumprimentar com beijinhos ou mesmo apertos de mão, deixando de ir a lugares que gostaríamos, ou seja, fazendo coisas que custam esforço –, o cenário será dramático.

Que tal começar já?

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Robson Morelli: Com o coronavírus, o esporte para no mundo todo e o torcedor perde a sua alegria

O mundo fecha as portas. O esporte para e o torcedor perde sua alegria. Game over. Isso muda tudo

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 16h55

Ganhar ou perder sempre foi do jogo. O que nunca foi, pelo menos não nos tempos recentes, é tirar do torcedor a alegria de se divertir no esporte. Mas o momento é de cautela e de compreensão. É preciso parar e se organizar melhor. O mundo esportivo está de quarentena por causa do novo coronavírus. Há muita preocupação. No Hemisfério Norte, o mais atingido, tudo parou. O que não parou tende a parar nos próximos dias.

A doença vem descendo de forma rápida e assustadora para o Hemisfério Sul, onde estão os países mais pobres e com menos condições de conter o surto de forma digna. Nessa esteira, a maior diversão dos cidadãos, em sua maioria, fecha as portas. O esporte de forma geral e o futebol particularmente estão contaminados. Há muitas dúvidas. As partidas precisam ser interrompidas. Não há como não temer 40, 50, 60 mil pessoas confinadas em um só lugar, um estádio, onde cada gol significa um abraço no colega do lado. Exagero? Talvez.

Partimos do pressuposto de que quem está com os sintomas fica quietinho em casa. Pode não ser assim. O vírus não dá pistas nos primeiros cinco dias. As notícias vindas do Norte são preocupantes. Fronteiras foram fechadas, voos reduzidos, partidas adiadas. Não dá para o Brasil pagar para ver.

Os Jogos Olímpicos, maior evento esportivo do ano, tem a estimativa de receber em Tóquio 13 mil competidores, 270 só do Brasil, e 600 mil turistas estrangeiros. Ocorre que a comunidade esportiva internacional começa a pressionar o COI para o adiamento da competição. A prudência clama por isso. Não há como se divertir diante de uma pandemia. A tocha olímpica foi acesa na Grécia sem público nem graça.

O mundo fecha as portas. O esporte para e o torcedor perde sua alegria. Game over. Isso muda tudo. Não tem Eliminatórias da Copa. Não tem Libertadores, nem torneios na Europa. Não tem seletivas olímpicas. Não tem tênis. Não tem NBA. Não tem F-1.

No Brasil a bola ainda rola. As pessoas se reúnem nos estádios aparentemente sem preocupação. A CBF mantém contato com o Ministério da Saúde para saber que decisão tomar. Parar ou não parar? São Paulo e Rio fecharam os portões do futebol. Outros Estados farão o mesmo.

Sem esporte, a vida muda. O povo fica sem seu ópio. Também faz com que hábitos sejam alterados. Uma nova tábua de costumes começa a ser escrita. São novos mandamentos. Há impacto na vida das pessoas. Não dá mais para reunir multidões num mesmo lugar, mesmo aberto. Ter arenas sem público foi o primeiro passo. Não é suficiente. Nem combina. Esporte pressupõe torcida. Atletas começam a se recusar a pegar avião, se deslocar, encontrar oponentes e cumprimentar rival.

As emissoras que transmitem esportes, jogos e disputas, começam a se reorganizar no sentido de reduzir equipes para esses trabalhos. Na Europa, não há mais transmissão.

Aqui no Brasil, o torcedor mais bem informado certamente vai optar por ver os jogos do sofá da sala de sua casa, da tela do seu computador ou pelo streaming do seu celular. Vai torcer sozinho, na solidão da companhia de seus apetrechos eletrônicos. Quando muito, um alô na varanda para que outros possam festejar com ele a distância. Ao seu lado, com sorte, apenas a mulher e os filhos que também gostam de futebol e param para ver as partidas.

A boa notícia é que não será assim para sempre. Quando a pandemia voltar à condição de epidemia e assim sucessivamente numa marcha à ré contínua até o seu desaparecimento, voltaremos a sair de casa, a acompanhar esporte e a ter alegria.

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Pedro Doria: Indústria vai sofrer e cultura digital, florescer, com a crise provocada pela covid-19

O digital é o marco zero da epidemia mundial; este 2020 já é, para a indústria, um ano essencialmente perdido

Pedro Doria, Impresso

14 de março de 2020 | 16h53

Esta nova cepa de coronavírus está amarrada de nascença com a indústria da tecnologia. Surgiu em Wuhan, na China, capital de sua indústria automotiva e a duas horas de trem de Shenzhen, o Vale do Silício asiático. De lá, espalhou-se para a Coreia do Sul, para o norte da Itália e entrou nos EUA pelo norte da Califórnia e Estado de Washington. Milão é um dos centros europeus da ótica, e lentes são indispensáveis na telefonia celular. Da Coreia do Sul vem a Samsung, maior fabricante de smartphones Android. No norte da Califórnia estão Apple, Facebook, Google e tantas outras — o Vale do Silício original. E, em Washington, Microsoft e Amazon. O digital é o marco zero da epidemia mundial. Este 2020 já é, para a indústria, um ano essencialmente perdido.

A produção de tecnologia depende de viagens. Novos aparelhos nascem a partir do encontro de quem os desenha, não raro na Califórnia, com quem os fabrica. Encontros físicos. Há novos materiais para testar e linhas de montagem para organizar, além de contratos complexos para debater. Não dá para resolver por Skype — a ponte-aérea São Francisco-Shenzhen é a alma de três quartos dos aparelhos que carregamos conosco.

O Vale do Silício congelou. Desde segunda-feira, dia 9, Stanford, a universidade que ocupa seu centro intelectual, está fechada. O belo câmpus arborizado que por lá apelidaram de “a fazenda”, deserto. Aulas, só via internet. Google e Facebook cancelaram seus eventos do primeiro semestre. A Apple já enfrenta atraso com o sucessor do iPhone barato, modelo SE.

Estes encontros que o Vale organiza no primeiro semestre são fundamentais para a indústria. Vem gente de todos os cantos, em sua maioria técnicos, para conhecer os lançamentos que virão no segundo semestre. É com base nestas informações que apps e apetrechos para os novos celulares, tablets e computadores são desenvolvidos. Ou seja: os aparelhos que chegarão em 2020, além de atrasos na fabricação, terão menos acessórios.

Não há como medir o tamanho do atraso, mas esta é uma indústria que depende de viagens para criar — em todas as fases dos produtos. Se a epidemia se estender até junho, até haverá produtos novos, mas muito do que poderia ser desenvolvido para as linhas de 2021 e 2022, que estão sendo encaradas agora, não vai acontecer.

O problema não é só com a indústria americana. A China planejava encerrar 2020 com todas as cidades de mais de 1 milhão de habitantes com infraestrutura para 5G. Queria chegar na frente de todos. Não conseguirá. Vai faltar mão de obra e, principalmente, equipamento. A maioria das fábricas opera bem abaixo da capacidade. E, neste caso, se falta equipamento à China, faltará também para o resto do mundo. O 5G chegará com atraso para todos.

Mas nem tudo é perda ou atraso. Porque, se do ponto de vista dos produtos os meses perdidos terão impacto real, para a cultura digital pode ser diferente. Não é só Stanford que promove em quantidade massiva aulas online. Muitas das grandes universidades americanas estão fazendo o mesmo. É uma experiência em escala que vai testar servidores e software, educar alunos e professores, e daí sairá um resultado rico.

O mesmo ocorre com as muitas empresas que, por precaução inevitável, mandarão seus funcionários para casa. Se sempre houve conservadorismo para lidar com a ideia de trabalho remoto, esta é também uma experiência de larga escala que, no fim, deixará muito conhecimento. Vantagens e desvantagens serão descobertas e sistemas, adaptados. A indústria digital vai sofrer. E a cultura digital, florescer.

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Leandro Karnal
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Leandro Karnal: Medo é uma das coisas mais lucrativas inventadas pelo ser humano

Pragas despertam velhos ódios e dão falsas bases para xenofobias

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 17h10

Eu estava com um grupo de brasileiros no interior do Camboja. Em uma placa de beira de estrada havia um aviso sobre dengue. Instalou-se o pânico. Uns diziam que deveríamos voltar ao Brasil. Surgiu a sugestão de mergulhos em repelentes. Peguei na internet os dados daquele momento sobre mortes por dengue no país que visitávamos e aqui no Brasil. Havia muito mais risco no nosso ponto de partida: São Paulo. O que provocava o medo?

A ansiedade diante de epidemias é histórica. Nos pesadelos, a galopar, um dos quatro cavaleiros do Apocalipse é a peste. O francês Jean Delumeau estudou a história do medo no Ocidente que inclui, há séculos, o horror a doenças. Cólera, varíola, gripe espanhola, HIV. Pragas despertam velhos ódios e dão falsas bases para xenofobias. Também existe a xenofobia geográfica: muitas doenças têm raízes no Oriente e, assim, atualiza-se o “perigo amarelo” de tempos em tempos. O mal é sempre externo.

Ao que tudo indica até agora, a temida epidemia de coronavírus é menos mortal do que muitas doenças com as quais convivemos sem pânico. O medo é irracional como o horror a baratas: não nasce de base estatística. Todo ser que tem fobia a baratas (catsaridafobia) sabe que não há óbitos diretos derivados do enfrentamento entre um ser humano e uma barata. Nosso cérebro não é racional em todas as suas camadas.

O vírus da dengue é conhecido, como são os do sarampo e da caxumba. São vírus com nome e sintomas tradicionais. Porém, a famigerada covid-19 é doença do ano passado, nova pois, e vem de uma província da China. Até sua origem é exótica: teria sido transmitido pelo pangolim? Funcionará o meu chá de alho, o mel com agrião ou o tablete efervescente de vitamina C? Ninguém sabe de qual família é aquele coronavírus, enquanto que a caxumba cresceu conosco, é conhecida no bairro e meus avós já tinham relações sociais com ela.

Não sei se o vírus vencerá a espécie humana, sempre o frágil “caniço pensante” de Pascal, dobrado por seres invisíveis a olho nu. Arrisco um palpite: se você não morreu de Sars (causada por um outro coronavírus), de ebola, de gripe suína ou com o calendário maia em 2012, há uma chance de sobreviver a mais uma onda de fim de mundo.

O medo exagerado de qualquer coisa existe para vender soluções para você. Pessoas apavoradas gastam muito. Medo é uma das coisas mais lucrativas já inventadas pelo ser humano. Insegurança esvazia carteiras e ajuda a inclinar cabeças. Aceitamos tudo se estivermos apavorados.

Todo caniço, um dia, deixará de existir. Existe certa dignidade em procurar não tremer demais até lá. 

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