Da faculdade para a linha de frente
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Da faculdade para a linha de frente

Recém-formados viveram o choque de atender até pacientes em UTI durante a pandemia

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2021 | 07h30

Matheus Alves de Lima tinha 27 anos e estava no primeiro mês de residência em clínica médica no Hospital Heliópolis, em São Paulo, quando os primeiros casos de covid começaram a ser confirmados no Brasil.

Ele foi um dos milhares de recém-formados em Medicina no País que foram direto para a linha de frente do cuidado de pacientes que contraíram o novo coronavírus, somando aos profissionais mais experientes, mas em número insuficiente para atender a uma demanda tão alta.

Uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Paraná (UFPR) publicada em maio de 2021 mostra que a maioria dos alunos que anteciparam a graduação em Medicina no Estado (63%) foi trabalhar diretamente na linha de frente da covid, e 79,6% consideram importante a atuação de médicos recém-formados no combate à doença.

Para Lima, o último um ano e meio foi de altos e baixos. Da sensação de dever cumprido e aprendizado à pressão e tristeza, o médico diz que hoje se vê como “filho da pandemia”. “Fomos muito pressionados a lidar com uma doença que não tem apenas repercussões clínicas no paciente, mas também repercussões sociais e familiares muito importantes”, diz ele sobre os principais aprendizados. “O contato que a gente precisava ter com o familiar, com as pessoas que estavam perdendo parentes por uma doença evitável, tudo isso impactou a maioria dos médicos que se formaram nessa época.”

Em maio de 2020, Lima optou por largar a residência porque sentiu que não estava aprendendo tanto sobre outras patologias, e decidiu deixar essa fase de estudos para depois. Ele foi morar com o pai no interior de Goiás, onde começou a trabalhar como plantonista em pronto-socorro e postos de saúde. “Em uma cidade menor, no interior, onde as pessoas são mais ainda dependentes de um médico, eu pude fazer mais diferença do que em São Paulo, pela carência de profissionais nessas regiões”, avalia.

Depois de um período de estresse emocional seguido de acompanhamento psicológico, o médico se sentiu apto a retomar uma rotina mais intensa e, em 2021, começou a residência em medicina intensiva, agora no Hospital das Forças Armadas, em Brasília. Com a piora no número de casos por volta de março, o trabalho se tornou mais intenso do que nunca e Lima acumulou plantões em outros hospitais, inclusive de campanha. “Foi mais desafiador ainda do que o ano de 2020, porque a segunda onda foi muito avassaladora, sem proporções. Teve mês que eu fiz 30 plantões de 12 horas em UTI Covid”, lembra.

Além do desgaste físico e mental, o medo de não conseguir dar o cuidado necessário aos pacientes também estava presente. Mas, para ele, o apoio dos médicos mais experientes foi essencial para trazer segurança. “Em meio a todo aquele caos, muitos tiveram a paciência e a serenidade de nos passar conhecimento, entender que aquilo era um cenário atípico mesmo. Eles foram como nossos preceptores”, lembra. 

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