Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Da linha de frente, médicos veem aumento de pacientes e pedem mais medidas

Nova alta de casos é sentida no número de internações e afeta rotina dos profissionais. Protocolos de contingência bem definidos podem ajudar nesse cenário 

João Prata, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 10h00

Os médicos que estão na linha de frente de combate ao coronavírus têm notado o aumento da demanda de trabalho no último mês e acreditam que as medidas restritivas como a que foi tomada pelo governo de São Paulo no fim de novembro ainda são insuficientes para conter o novo aumento de casos e mortes por covid-19. Naquele período, o Estado regrediu de fase no Plano São Paulo.

"A proposta que os governantes têm adotado não é adequada, ou pelo menos foi atrasada e não tão específica como deveria ser para o combate desse novo aumento. A resposta demorou, isso impactou no aumento da transmissão. E isso pode ser notado em todos os Estados", disse o infectologista Marcelo Otsuka.

Otsuka trabalha em um hospital da rede pública e sabe que logo deve voltar ao ritmo de meses atrás, quando os leitos de UTI estiveram próximos de atingir taxas de 90% de ocupação. 

"Os governos podem dar uma resposta mais agressiva e o resultado vir em um tempo menor. Ou menos agressiva e obviamente vai levar tempo maior. A atitude tomada foi menos agressiva e por isso vai levar um tempo maior para o controle", destacou.

O infectologista do Emílio Ribas Jamal Suleiman acredita que o problema do aumento de casos e mortes pelo coronavírus vai além de apenas regredir ou avançar as atuais fases do Plano São Paulo. Ele elogiou a maneira como foram pensados os protocolos para o Estado inicialmente, mas acredita que o momento é de haver um upgrade.

"Acho inviável a volta para uma estrutura mais restritiva. As pessoas, definitivamente, estão ignorando o isolamento. O alerta está sendo dado sobre a gravidade do problema. É inacreditável, mas as pessoas não se dão conta de que é para elas a proteção", afirmou.

Enquanto não existe a vacina, a única maneira de controlar a doença, na opinião de Suleiman, é a realização de uma ampla testagem. "É preciso testar em massa, fazer a identificação dos positivos e de seus contatos e, subsequentemente, o monitoramento deles em isolamento. Só assim você quebra a cadeia de transmissão. Se você não tem remédio para dar, essa é a estratégia. E é nesse negócio que a gente está patinando. Existe uma rede de fiscais comunitários que poderiam fazer o monitoramento. Tem que checar em larga escala e rápido."

O Estadão mostrou que o número de exames realizados no Estado caiu de 823 mil em agosto para 295 mil entre 1º e 26 de novembro, contando os testes do tipo PCR (de maior precisão). A volta para a fase amarela do plano estadual de combate ao novo coronavírus significa que estabelecimentos comerciais teriam de reduzir o atendimento de 60% para 40% da capacidade total e funcionarão por apenas 10 horas e até as 22 horas, no máximo.

Para Suleiman, além das medidas de segurança, os governos deveriam pensar em soluções para evitar a aglomeração em espaços públicos. "No transporte, por exemplo, pode promover uma distribuição mais adequada dos horários. Hierarquizando a entrada dos trabalhadores, flexibilizando horários para evitar picos no horário da manhã e da tarde." 

Cirurgias eletivas devem ser suspensas

Renato Grinbaum é infectologista de um hospital particular e acha que as cirurgias eletivas terão de ser novamente adiadas. "Ainda não suspenderam, mas naturalmente vai acontecer", comentou.

Pedro Campana trabalha em três hospitais públicos. "O fluxo aumentou. Em abril eram 30 a 40 pacientes internados por dia. A gente passou a ter menos de 10 em agosto e setembro. Outubro e novembro voltou a subir novamente e hoje temos uma média de 15 pacientes diários, com o número subindo", disse ele em entrevista no início deste mês. 

O que, de certa maneira, tranquiliza um pouco os médicos da linha de frente nesta segunda alta de internações é que já existem protocolos de contingência bem definidos e também há melhor preparo dos profissionais para tratar dos pacientes com coronavírus.

"Já sabemos o que funciona, como usar a anticoagulação e os corticoides que devem ser usados para pacientes graves. Já sabemos melhor como lidar em relação à ventilação, a necessidade de oxigênio. Isso melhorou e traz um pouco mais de segurança para o médico", lembrou Otsuka. 

Mas ele também alerta. "Só que o problema não é só esse. Se continuar progredindo vai faltar leito. Não é só a taxa de ocupação, mas a velocidade que está aumentando o número de pacientes que necessitam de UTI. Felizmente parece que a taxa de transmissão começou a ter uma queda. Parece que as pessoas entenderam que devem voltar a tomar cuidado. Mas temos que ficar em alerta", encerrou.

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