Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Dar aulas mudou a minha vida', diz a flautista Mônica Ferreira Camargo

Adepta do método que oferece um olhar humano para o ensino, ela diz que é preciso respeitar a criança: 'Refiz meu próprio olhar para a música'

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão

28 de maio de 2022 | 05h00

Desde a juventude, Mônica Ferreira Camargo enfrentou uma rotina puxada. Flautista, chegou a tocar em três orquestras ao mesmo tempo, com ensaios de manhã, à tarde e à noite, rotina que conciliava com a criação de três filhos. Era, ela lembra, a realização de um sonho: poder tocar em uma sinfônica.

Mas, com o passar dos anos, Mônica começou a sentir vontade de se arriscar em outra tarefa: dar aulas. Não foi algo automático, natural. Afinal, ensinar música para crianças não era fácil – e ela não queria reproduzir sua própria experiência como aluna. Mas ela foi adiante mesmo assim. Resolveu estudar e encontrar uma forma humana de lidar com os pequenos. “E, com isso, refiz meu próprio olhar para o mundo e para a música”, conta, em entrevista ao Estadão.

Tudo começou com o piano. Mônica tinha 10 anos quando resolveu se arriscar no instrumento. Era uma casa musical. Ninguém tocava, mas o pai ouvia Beethoven todo dia. E a menina já sonhava, na época, poder tocar os grandes concertos para piano.

Mas o plano tinha alguns problemas. “Eu tinha aulas com uma senhorinha em casa e, mesmo quando fui para um conservatório em Santa Cecília, bairro onde a gente morava, a professora, também uma senhorinha, só pedia para eu tocar umas valsinhas. Dava para ver que não iria longe, que não me tornaria uma profissional.”

Tanto que, aos 18 anos, quando foi para a faculdade, Mônica não passou na prova de piano. Estudou composição e regência. “Eu não queria nem ser regente nem compor, mas era o disponível. Até que, no segundo ano, o professor Mário Ficarelli disse que eu tinha de escolher um instrumento complementar. Falou para eu ir até o almoxarifado da faculdade e escolher”, lembra.

A escolha não podia ter motivo mais prosaico. “Entrei no almoxarifado e pensei comigo mesma: ‘Eu preciso pegar dois ônibus para chegar à faculdade todos os dias. Não quero ter de carregar pela cidade um violoncelo, um contrabaixo’. Então escolhi a flauta.”

Seu primeiro professor foi Maurício Florence, que mais tarde se tornaria seu cunhado – em 1991, ela se casou com o maestro Flavio Florence, que a regia na Orquestra Jovem de Campinas. Ia e voltava para a cidade duas vezes por semana. E seguia estudando em São Paulo e no Rio de Janeiro, para onde ia periodicamente.

Entrou também para a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. E foi tocar na Sinfônica de Santo André, onde já está há 32 anos. “Era uma loucura organizar todas as agendas, você pode imaginar, mas era um momento de muitas oportunidades de trabalho. No início dos anos 2000, também toquei muito em musicais, foi uma época em que o gênero invadiu São Paulo. Toquei no Fantasma da Ópera, A Bela e a Fera, Miss Saigon, Noviça Rebelde. Esse também foi um sonho que realizei.”

Quando Pedro, o primeiro filho, nasceu, ela deixou a orquestra jovem mas seguiu tocando. “O trabalho de músico de orquestra nunca é fácil, há muita insegurança. Será que a orquestra vai acabar? A Banda Sinfônica, por exemplo, acabou extinta. E será que vão pagar o salário no final do mês? Era difícil. E, além disso, tinha a rotina de casa. Você sair para tocar com um filho com febre em casa era horrível. Mas o Flavio era um parceiro incrível, dizia: ‘Vai, eu estou aqui’.”

Recomeço

Flavio morreu em 2008. Tempos depois, Mônica começou a repensar sua carreira. Ela nunca havia considerado dar aulas. Sua própria experiência como aluna havia sido acidentada e não queria fazer o mesmo. “O meu aprendizado foi muito complicado e não queria repetir aquele ciclo ao trabalhar com jovens músicos.”

Mais do que isso, outra coisa a incomodava: preparar um músico para tocar em uma orquestra sinfônica – o que pode não acontecer, já que há muito mais músicos do que vagas em orquestras – era associar o ensino de música à possibilidade de uma frustração muito grande. Desse jeito, ela não queria.

“Mas então algo muito importante aconteceu. Eu conheci o método Suzuki de ensino. E ele me ofereceu um olhar humano para o ensino de música. A ideia é que a criança aprende a língua dos pais sem estudar, só os ouvindo. E a música pode ser assim também, pois é uma língua universal. Aprendi logo que, ao ensinar, você precisa respeitar a criança. E estar aberta a aprender com ela.”

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Aprendi logo que, ao ensinar, você precisa respeitar a criança. E estar aberta a aprender com ela
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Aos 57 anos, ela é uma das coordenadoras pedagógicas do Instituto Baccarelli, projeto de formação musical e inclusão social na comunidade de Heliópolis, em São Paulo. “Dar aulas mudou minha vida”, ela conta. “Ensinar me coloca no lugar de quem aprende, mudou a minha relação com a música, com a flauta. Encontrei a felicidade em outros lugares, onde meu trabalho tinha importância para a comunidade”, explica.

Mônica sabe que não vai tocar flauta para sempre. “Chega uma hora em que você precisa abrir espaço para novas gerações”, afirma. Mas dar aulas será para sempre. “É muito bom poder mostrar o poder que a música tem. Eu digo a meus alunos: se você consegue tocar flauta, consegue fazer qualquer coisa que quiser na vida.”

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