De olho nos custos, operadoras investem em prevenção

As operadoras de saúde começam a investir em prevenção no Brasil. De acordo com um balanço da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), pelo menos 5% delas têm ações práticas ou estão prestes a começar programas de prevenção, com rastreamento e monitoramento de doenças crônicas. O objetivo é reduzir custos com internações e cirurgias. Mas quem acaba ganhando é o consumidor - o maior investimento dos planos é no combate às doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo. A porcentagem de adesões a programas de prevenção pode parecer pequena, já que o País tem 2.090 planos. Mas não é. "Essas cem operadoras fazem parte dos dois grupos que, juntos, abocanham cerca de 60% dos usuários de planos", afirma Carlos Suslik, coordenador do MBA em Gestão de Saúde do Ibmec São Paulo. Trata-se de grupos de cooperativas médicas (empresas cujos donos são os próprios médicos) e operadores de medicina de grupo (que têm seus próprios hospitais e médicos). O levantamento da ANS começou há um ano, quando a agência lançou um programa de incentivo à prevenção. A empresa que tivesse seu projeto aprovado teria uma vantagem financeira: o adiamento do prazo legal para criar uma reserva financeira. Nem todos se beneficiariam com isso. Alguns tipos de planos já tinham esses fundos, como as seguradoras - aquelas que trabalham com sistema de reembolso. Outras não precisam ter, como as de autogestão, que oferecem seus próprios planos para os funcionários. O número de planos com programas de prevenção começou a crescer há menos de dois anos - nos Estados Unidos, isso já ocorre há duas décadas. "Não há dúvidas de que é um bom negócio, mas a demora para o retorno financeiro ainda é um obstáculo", diz Ana Paula Cavalcante, coordenadora do programa da ANS. Mas o que de fato está fazendo com que as operadoras apostem em prevenção é uma velha queixa delas próprias: o salto com gastos médico-hospitalares nos últimos anos. Hoje, a retirada de uma vesícula custa cerca de R$ 12 mil por causa da sofisticação do procedimento, feito por laparoscopia. Há dez anos, não sairia por mais de R$ 6 mil. Gastos com drogas quimioterápicas chegam a R$ 25 mil por mês. Há uma década, custavam R$ 8 mil. Custo 30% Menor - Nos Estados Unidos, a redução de despesas com prevenção em geral foi de 30%. No Brasil, a operadora Omint, que tem 77 mil dependentes da classe A, tem números melhores ainda. Há dois anos, a empresa criou um sistema de monitoramento da clientela. Com telefonemas e visitas, foram identificados 730 doentes crônicos - com cardiopatias, diabete e pressão alta. A partir de então, além das visitas periódicas de enfermeiras, dependendo da gravidade, a equipe passou a investigar se o paciente estava indo ao médico regularmente. O resultado foi surpreendente. Antes de entrar no grupo de monitoramento, o número médio de internação de cada cliente era de dois por ano. "Hoje, não passa de 0,74", conta Roderick Wilson, diretor médico da Omint. A operadora passou também a investir em prevenção com o paciente grave. "Determinamos a escolha do hospital não de acordo com o preço, mas pela experiência com a doença", diz Wilson. "Quanto mais especializado, mais rápida é a alta." O tempo de internação nesses casos caiu à metade: até cinco dias. A Amil, com 950 mil associados, identificou 90 mil deles em grupos de risco e monitora todos. Mantém ainda quatro centros de diagnóstico com foco em saúde cardiovascular e diabete, onde o paciente pode ser acompanhado de perto por uma equipe médica. Em alguns casos, porém, os planos podem ter benefícios pagando por tratamentos em vez de investir em prevenção. O SUS é responsável por certos procedimentos de alta complexidade, os mais caros. Mas até isso vem mudando. "Antes da regulação, em 2000, os planos não precisavam pagar transplantes. Hoje, são obrigados a arcar com os de rim e córnea", diz Suslik, do Ibmec. "Mas muitos ainda empurram o paciente com HIV para serviços de referência gratuitos."

Agencia Estado,

23 de agosto de 2006 | 09h25

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