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Divulgação/ Prefeitura de Maranguape
Divulgação/ Prefeitura de Maranguape

De seringa a freezer, empresários, cientistas e ONGs ajudam vacinação em 1,3 mil cidades

Iniciativa da sociedade civil não tem objetivo de comprar doses, mas dar mais estrutura para que municípios acelerem a campanha; meta é imunizar todos os adultos até setembro

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 05h00

Na cidade cearense de Maranguape, 12.405 pessoas já receberam a 1ª dose da vacina contra a covid-19. Isso corresponde a praticamente todas as doses que o município recebeu. Algumas ações foram importantes para esse desempenho. Uma delas foi instalar um drive-thru de vacinação no estacionamento da Secretaria de Saúde a partir do dia 21 de março com funcionamento em dias específicos, de acordo com os grupos vacinados. O abastecimento regular dos cilindros de oxigênio e dez novos ventiladores ajudaram as unidades de saúde. E, a partir desta semana, pessoas em situação de vulnerabilidade podem se deslocar até o local de vacinação gratuitamente usando aplicativos de transporte.

O município de 125 mil habitantes não conseguiu esses avanços sozinho. Maranguape é uma das cidades-piloto do Movimento Unidos Pela Vacina, iniciativa de sociedade civil que reúne empresários, artistas, atletas, cientistas, entidades setoriais, instituições e ONGs para acelerar a imunização. A ideia de uma cidade-piloto é experimentar soluções que possam ser replicadas. Nesse contexto, Rio e Nova Lima (MG) também receberão as estruturas para a vacinação drive-thru. “A solidariedade está caminhando na mesma proporção que seguimos avançando nas imunizações”, disse a secretária de Saúde de Maranguape, Cleonice Caldas.

Iniciativa da empresária Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo Mulheres do Brasil, o movimento procura apoiar governos estaduais e prefeituras, principalmente por meio do apadrinhamento – ou amadrinhamento – das cidades. Cada grupo, formado por pessoas físicas ou jurídicas, apoia um município, dando recursos necessários para acelerar a vacinação. Conforme a entidade, cerca de 1,3 mil cidades já estão sendo apoiadas.

Em Minas, o apoio já alcança mais de um terço dos municípios. Das 853 cidades do Estado, 320 já contam com patrocinadores fixos. Adotada pelo Magazine Luiza, a cidade de Cássia conseguiu recursos para transformar o ginásio poliesportivo da cidade em local de vacinação. "Este apoio trouxe para nós, trabalhadores da saúde, o conforto de estar em um local adaptado para a vacina, porém com eficácia. O ginásio foi bem sinalizado e não há risco de aglomerações, tudo dentro dos protocolos sanitários", avalia Eliane David de Oliveira, secretária de Saúde do município mineiro. 

Segundo o movimento, a Natura adotou todos os municípios do Pará, enquanto a BRK Ambiental fez o mesmo com todas as localidades do Tocantins. 

Os líderes do movimento afirmam que a intenção não é a compra de doses de imunizantes. “O mais importante é que os governos comprem as vacinas. O propósito do movimento é colaborar com o governo federal para que a vacinação seja rápida”, diz Maria Fernanda Teixeira, uma das líderes do Movimento Unidos Pela Vacina. Lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro em março libera a compra de vacinas por empresários, proposta defendida pelo governo federal. Por outro lado, especialistas afirmam que a aquisição pela iniciativa privada não é uma boa saída para acelerar a campanha no País e os grandes laboratórios dizem não vender doses para empresários. 

 A meta do grupo é ambiciosa: vacinar a população adulta (cerca de 160 milhões de pessoas) até setembro de 2021. “Acreditamos que vamos receber as vacinas. Se faltar uma parcela da população sem vacinar, pelo menos não nos omitimos. É um movimento grande de toda a sociedade civil”, avalia.

Os serviços e bens doados variam conforme a região. A ação já contribuiu com a locomoção para enfermeiros aplicarem a vacina em domicílio, doações de seringas, aventais, aparelhos de ar-condicionado, geladeiras com termômetro para armazenamento do imunizante e computadores e rede wifi para permitir o registro e transmissão de dados da vacinação local, entre outros. Praticamente todas as vacinas para aplicação fora dos Estados de São Paulo e Rio estão sendo transportadas pelas quatro principais companhias aéreas brasileiras (Azul, Gol, Latam e VoePass) gratuitamente.

Estrutura de imunização tem capilaridade, mas precisa de melhorias

Para mapear os desafios que as cidades enfrentam, o movimento Unidos pela Vacina, em parceria com o Instituto Locomotiva, realizou pesquisa inédita com os gestores de saúde de 5.569 municípios ou 99% do total do País. O principal resultado não surpreendeu totalmente os organizadores. Para prefeitos e secretários municipais de saúde de 47% das cidades, a falta de vacinas é o maior desafio.

É uma preocupação em todas as regiões. José Helder Carvalho, vice-presidente da Associação dos Prefeitos do Ceará e prefeito de Várzea Alegre, explica que 84% das vacinas recebidas no Estado já foram aplicadas, enquanto a média da população imunizada está em 20%. “A vacinação no Ceará está indo a contento. Nosso problema maior é a quantidade de vacinas disponíveis nos estados e municípios”, avalia.

A cidade de Campos Verdes (GO) recebeu apenas 480 vacinas. Segundo projeção do IBGE, a população local é de cerca de 1,8 mil habitantes, mas a prefeitura estima seis a oito vezes mais. “Se mantida a velocidade atual de distribuição da vacina, projetamos imunizar toda a população só em 2027. É um problema sério”, diz o prefeito Haroldo Naves (PMDB).

A pesquisa comprova a abrangência do SUS, que garante a capilaridade das campanhas no País: todos os municípios têm sala de vacinação. Por outro lado, a infraestrutura precisa de ajustes. Em 19% dos municípios, a maioria das unidades de saúde não utiliza a internet para os registros de vacinação e 12% precisam de computador. Além disso, 22% não têm geladeira com as condições ideais para conservar imunizantes e reduzir o risco de perda de doses. Na cidade histórica de Pau Brasil (BA), de 11 mil habitantes, as salas de vacinação são adequadas, mas as geladeiras que armazenam vacinas de uso diário não têm alarme para avisar quando a temperatura está fora do padrão. São os profissionais de saúde que têm de monitorar as salas.

“Essa pesquisa pode ser comparada aos exames solicitados pelos médicos antes de definir uma cirurgia. Ela é o retrato geral da vacinação. A pesquisa diz o que é necessário em cada um dos municípios”, explica Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. “A pesquisa também é fundamental para construir a ponte entre o empresariado e o gestor municipal”, completa.

Meirelles destaca outro dado da pesquisa. Cerca de 54% dos gestores afirmaram que metade da população ou a minoria cumpre as regras de prevenção ao novo coronavírus. “Esse dado dialoga com outras pesquisas que fizemos com a população. Muita gente não se previna da forma que deveria”, explica. Aqui entra o desafio da comunicação. De acordo com 44% dos gestores de saúde, a comunicação é a principal maneira como a iniciativa privada e a sociedade civil podem contribuir com a campanha de vacinação. 

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