Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

De uniforme e pulverizador, voluntários viram caça-coronavírus em favela no Rio

Para definir quantidade de material a ser utilizada, existe consultoria de um infectologista e de um químico

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 05h00
Atualizado 21 de abril de 2020 | 11h52

RIO - Quando o novo coronavírus começou a ganhar o noticiário internacional, o guia local Thiago Firmino, morador do Morro Santa Marta, na zona sul do Rio, imaginou que aquele seria um mal que ele veria apenas pela TV. "Eu pensava que aquilo era doença de gringo ou de gente rica", disse nesta segunda-feira, 20. Mas bastou o Rio confirmar os primeiros casos para ele perceber que a covid-19 não escolhe classe social e  poderia se tornar  um drama extra para moradores de favelas. Foi então que, com a ajuda de amigos e de outros moradores da comunidade, decidiu partir para a linha de frente no combate à pandemia.

"Nunca fomos treinados para esse tipo de coisa, e a gente já sofre o ano inteiro com falta de água, luz e saneamento básico. Quando vi que a doença tinha chegado por aqui, pensei: 'meu irmão, vamos sofrer com isso também agora'? Não mesmo", relatou.

Firmino, então, começou a buscar informações sobre como combater a doença. "Eu me lembrei das imagens dos caras lá na China, todos de branco, pareciam os Caça-Fantasmas. A gente pensa: 'pô, na China é tudo avançado', mas não, aquelas coisas lá não eram de outro mundo. O pulverizador é igual àqueles agrícolas, as roupas são as que a gente usa pra pintar carro, máscara e luvas a gente tem. Não é nada mirabolante. Dava pra gente fazer."

O guia tratou de fazer o orçamento dos equipamentos iniciais - dois aparelhos para pulverização, roupas de proteção e quaternário de amônia, para fazer a sanitização. Descobriu que precisaria de pelo menos R$ 3,5 mil. 

"Eu ia fazer uma vaquinha virtual, mas qualquer uma delas leva 50 dias para você começar a receber. E em 50 dias imaginei que estaríamos todos mortos", contou. "Aí liguei pra uns amigos do hip-hop, o Gilli, o Mass e o Lucas Secon. Em dez minutos, eles tinham feito a doação." Os três são artistas internacionais que já foram gravar no Santa Marta. "Sabem o que a gente passa aqui."

De posse do material, Firmino reuniu uma equipe de dez voluntários e, há duas semanas, realiza a sanitização das vias do Santa Marta. "A gente passa por tudo, tudo. Não fica nada de fora. Começamos às 11h e vamos até às 18h, duas vezes por semana", explicou. O trabalho é dividido entre equipes que se alternam.

Para definir a quantidade de material a ser utilizada, existe consultoria de um infectologista e de um químico. "A gente não faz nada de qualquer jeito. É tudo estudado e orientado", ressaltou. E o projeto está sendo expandido. "Já mostramos como fazer para o pessoal do Morro do Cantagalo e do Leme. Eles vão começar lá também." O projeto está nesta plataforma de crowdfunding.

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