AP Photo/Edmar Barros
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'Deixar que a covid prolifere é como comprar um bilhete de loteria para o vírus'

Bill Hanage, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard, se diz em choque ao ver um governante renunciar ao dever de proteger o país e ser um bom cidadão do mundo

Entrevista com

Bill Hanage, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2021 | 05h00

“Cientistas americanos certamente estão angustiados com a situação no Brasil. O surgimento da P.1 é uma ameaça global semelhante às outras variantes, mas pode até ser pior. A situação é agravada por uma reação governamental que tem sido uma desgraça para a saúde pública e que representa uma ameaça para todos nós.”

Assim reagiu o pesquisador americano Bill Hanage, epidemiologista da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Harvard, ao ser questionado na sexta-feira, 5, se a circulação sem controle do coronavírus no Brasil e a prevalência da variante P.1, originada na região de Manaus, já em vários Estados, pode ser considerada uma ameaça para o mundo.

Envolvido com as pesquisas sobre a covid-19, o cientista foi crítico à forma como o governo brasileiro está lidando com a questão. “Todas as vezes que se permite que a infecção prolifere, é como se estivesse comprando para o vírus um bilhete de loteria”, disse, em entrevista ao Estadão.

“Porque essas ações não somente expõem os brasileiros a esses riscos, mas também os países vizinhos. E no fim, expõem todo o mundo. É uma renúncia chocante de um governante em proteger seus cidadãos. E também uma renúncia chocante de ser um bom cidadão do mundo”, afirmou o pesquisador. Confira a seguir a entrevista:

Como você avalia a proliferação do vírus no Brasil, com o aumento recente no número de novos casos e mortes enquanto essas taxas estão caindo, em geral, em outros países? É motivo de preocupação para o resto do mundo?

Cientistas americanos certamente estão preocupados com a situação no Brasil e estão desde pelo menos o início de janeiro. Eu mesmo comecei a me preocupar um pouco antes, quando a situação piorou em Manaus. O surgimento da P.1 é uma ameaça global semelhante às outras variantes, e pode até ser pior, embora a falta de dados realmente seguros torne difícil identificá-la completamente. Pode ser mais transmissível, mais virulento, mais capaz de escapar da imunidade, ou alguma combinação dos três. A situação é agravada por uma reação governamental que tem sido uma desgraça para a saúde pública e que representa uma ameaça para todos nós.

Alguns cientistas têm alertado que o Brasil pode se tornar um celeiro de variantes de preocupação (VOCs), como a P.1. Você concorda?

Apesar de uma dessas variantes, em teoria, poder emergir em qualquer lugar, as chances aumentam quanto mais infecções são permitidas. Qualquer lugar que permita muita transmissão torna mais prováveis que surjam mais variantes. Quando foi identificada a B.1.1.7 (variante com diversas mutações, como a P.1, que surgiu no Reino Unido no auge da segunda onda), eu comentei que era muito improvável que isso acontecesse na Nova Zelândia. Outra maneira de pensar nisso é que toda vez que você permite uma infecção, você compra um bilhete de loteria para o vírus.

Alguns estudos já indicam que a P.1 é mais transmissível, mas só isso seria o bastante para gerar o caos que estamos vivendo no Brasil?

A situação em Manaus é muito difícil de explicar de qualquer outra forma além de sugerir que a P.1 tem algumas propriedades de combinação muito desagradáveis. Mas a situação geral em termos de intervenção governamental e saúde pública tem sido tão terrível, tão incrivelmente ruim, que parte desse aumento de novos casos pode ser devido a isso. Portanto, ela pode até ser só um pouco mais transmissível, mas isso já é muito ruim porque ninguém está tentando fazer nada para impedir o vírus. Mas também a P.1 pode vir a ser a pior de todas as variantes. Quer dizer, acho que não vai conseguir fugir da vacinação, pelo menos não com as vacinas de RNA mensageiro (como a Pfizer ou Moderna) ou com a da Johnson. O que está me deixando angustiado é que estamos vendo a variante já dominando na Colômbia (a OMS já relata que lá tem transmissão comunitária, assim como no Brasil e no Peru) e temos razões para acreditar que a P.1 também pode estar contribuindo para o que está acontecendo na Bolívia.

O que mais te preocupa neste momento?

O que é muito difícil neste momento é que ainda faltam dados para entender todas as dimensões do que está acontecendo. Todos os cientistas no Brasil estão fazendo um trabalho incrível em diversas áreas, mas talvez também por um problema da forma como o governo está agindo, ainda não há bons dados epidemiológicos. É muito importante conseguir responder perguntas como: a distribuição de casos por idade com a P.1 é diferente da que ocorria nas linhagens que circulavam anteriormente? Sabemos que o risco da covid-19 aumenta com a idade do paciente. O risco de morte aumenta com a idade. É assim também com a P.1?

Médicos no Brasil e dados de algumas secretarias de saúde têm indicado um volume maior de pacientes mais jovens.

Mas precisamos de mais dados. Outra questão que ocorre por falta de teste, é se estão ocorrendo mais reinfecções. São todas questões muito importantes. E aqui nos Estados Unidos estamos paralisados, observando o que está acontecendo, tentando encontrar números, usando a tradução do google de textos em português. Mas estamos vendo a tudo com muita ansiedade. É urgente conseguir estabelecer se a P.1 é mais transmissível, mais virulenta ou mais capaz de reinfectar. Tem um monte de combinações diferentes entre esses fatores que podem explicar os dados que estão sendo observados. Nos Estados Unidos as pessoas já acreditam que serão vacinadas e que vai ficar tudo bem. Mas um monte de gente no mundo não vai ser vacinada tão cedo. E acho que o mais fundamental de tudo isso que estou dizendo é que eu tenho uma sensação de déjà vu.

Como assim?

Quando aconteceu Wuhan (o surgimento do coronavírus Sars-CoV-2, saltando de um animal para os seres humanos), o sentimento foi: isso mostra que isso pode acontecer. Ou seja, nós deveríamos pensar que pode acontecer em qualquer lugar. Essencialmente, é a mesma coisa agora. Se aconteceu em Manaus, pode acontecer em qualquer outro lugar. Isso é o que realmente importa.

Qual é a mensagem que essa situação deveria passar agora para os líderes mundiais?

O horror das doenças infecciosas é, que pela natureza delas, qualquer um que fingir que pode, de certa forma, ignorá-las, acaba sendo mordido no traseiro. Porque essas doenças não conhecem fronteiras, elas se movem. É por isso que as ações do Brasil são tão perigosas. Porque elas não somente expõem os brasileiros a esses riscos, mas também os países vizinhos. E no fim, expõem todo o mundo. É uma renúncia chocante de um governante em proteger seus cidadãos. E também uma renúncia chocante de ser um bom cidadão do mundo. Você pode ter certeza que as pessoas em vários lugares estão olhando para isso e sentindo muito pelo Brasil. Você sabe melhor do que eu quão terrível é essa situação. E infelizmente ela ainda vai durar bastante.

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