Ana Paula Arias/Arquivo pessoal
Ana Paula Arias/Arquivo pessoal

'Dependemos da morte de uns para dar chance a outros pacientes', diz médica recém-formada

Com colapso do sistema de saúde, profissional de UPA em Guarulhos relata dificuldade de escolher quem vai para enfermaria e quem deve ir para casa entre os infectados pela covid-19

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

*Depoimento de Ana Paula Arias, de 25 anos, médica recém-formada que trabalha em uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) em Guarulhos

"O fluxo na UPA (unidade de pronto-atendimento) onde trabalho em Guarulhos sempre foi um pouco mais elevado do que nas outras unidades. A gente tinha 150 atendimentos diários, mas agora são 200 pacientes para cima, que ficam na espera. Estamos com todos os leitos ocupados. É um mini-hospital. Tivemos três óbitos só no meu plantão de 12 horas. Os pacientes ficam duas, três semanas, porque não tem mais vagas para transferir. Acabam morrendo por complicações da covid.

Tivemos de nos reorganizar para atender pacientes que precisam de internação. Por estar com insuficiência respiratória, eles não podem ir para casa. Usamos salas de medicação para colocar cadeiras e internar. O ápice foi colocar paciente internado sentado por dois, três dias, aguardando leito esvaziar para ao menos ter o conforto de deitar.

Aqui, 90% das internações são por covid e quem não tem acaba pegando. Não tem como separar, é muito apertado. A UPA não é feita para demanda hospitalar. De que adianta separar pacientes na medicação se na hora do exame, todos vão para o mesmo lugar? Uma senhora de 89 anos com infecção urinária foi internada e pegou covid. Entrou por uma coisa e saiu por outra.

Falta o básico, nosso material de intubação é precário. Pacientes com leito de UTI teriam mais chance de viver. O médico da UTI é especialista, o ventilador lá é diferente, tem ar-condicionado especial para evitar contaminação. Só o fato de ter o ventilador na UPA não significa que eu consiga dar o serviço de UTI.

Muitos de nós somos recém-formados, não temos a qualificação de quem trabalha há mais tempo. Vivemos um cenário de guerra e sabemos que nosso esforço não é suficiente. Temos de escolher quem entra para enfermaria e quem pode ir para casa. Dependemos da morte de uns para dar chance a outros."

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