Dependente químico é 1º britânico a ser pago para fazer vasectomia

Decisão esquenta polêmica em torno de programa de ONG beneficente americana que 'suborna' viciados

BBC Brasil, BBC

18 Outubro 2010 | 11h24

John, 38 anos, usuário de drogas desde os 12

Um dependente químico da cidade de Leicester, na Inglaterra, é a primeira pessoa na Grã-Bretanha a aceitar dinheiro para se submeter a uma vasectomia.

O pagamento é iniciativa de uma entidade beneficente americana que faz campanha para que viciados em drogas sejam esterilizados.

O programa, batizado de Project Prevention (Projeto Prevenção) está oferecendo o equivalente a cerca de RS$ 513 para qualquer usuário ou usuária de drogas em Londres, Glasgow, Bristol, Leicester e partes do País de Gales que aceite fazer a operação.

O homem, identificado pelo nome fictício de John, disse à BBC que "não deveria jamais ser pai".

Aos 38 anos de idade, ele admite ser dependente de drogas desde os 12.

"Isto é algo que eu vinha pensando há muito tempo", disse. "Não vou poder sustentar uma criança, mal consigo sustentar a mim mesmo".

John aceitou participar do programa de esterilização e agora tem 30 dias para pensar sobre o assunto. Se ele não mudar de idéia, será o primeiro britânico a participar do projeto, que já esterilizou 3.500 americanos.

'Suborno'

A notícia foi recebida com críticas por entidades beneficentes britânicas que trabalham com dependentes químicos.

A fundadora do Project Prevention, a americana Barbara Harris, admitiu que seu método é uma forma de suborno.

"O dinheiro motiva as pessoas. É uma forma de suborno, sim", ela disse à BBC.

Ela argumenta, no entanto, que esta é a única forma de impedir que bebês sofram danos físicos e mentais como consequência do uso de drogas por seus pais.

A entidade britânica Addaction, que oferece tratamentos a dependentes químicos na Grã-Bretanha, calcula que um milhão de crianças no país vivam hoje com pais que usam drogas.

Mulheres grávidas que usam drogas podem passar a dependência química para o bebê ainda no útero, o que pode provocar danos ao cérebro e outros órgãos da criança.

Harris disse ter decidido criar sua ONG após adotar filhos de uma usuária de crack na Carolina do Norte.

"A mãe natural dos meus filhos obviamente usava todo tipo de drogas e álcool. Ela literalmente teve um bebê por ano durante oito anos".

"Fico muito zangada por causa dos danos que as drogas provocam nessas crianças".

Depois de pagar milhares de dependentes químicos nos Estados Unidos para que não tenham filhos, ela está agora visitando partes da Grã-Bretanha com maior incidência de uso de drogas para tentar convencer usuários a se submeterem a um programa de "controle de natalidade a longo prazo" em troca de dinheiro.

O presidente da Addaction, Simon Antrobus, disse que se por um lado ninguém deseja ver crianças sendo criadas em ambientes onde há consumo de drogas, não existe, na opinião dele, lugar para o Project Prevention na Grã-Bretanha.

(O projeto) "explora pessoas muito vulneráveis que são dependentes de drogas e álcool, provavelmente no pior momento de suas vidas".

Contraceptivo Reversível

A coordenadora de projetos Maria Cripps, que trabalha com usuários no Hackney Dovetail Centre, disse:

"Eu acho que Barbara usa alguns exemplos extremos como argumento. Talvez isso funcione nos Estados Unidos, mas a Grã-Bretanha é um país muito diferente".

O reverendo Martin Blakebrough, diretor do Kaleidoscope Project, no bairro de Camden, no norte de Londres, disse que é "válido considerar" a esterilização se isso for a opção certa para o indivíduo.

Outro reverendo, Robert Black, que trabalha com ex-viciados, considera os objetivos do projeto "desonestos".

Rebatendo as críticas, Barbara Harris diz que as 20 últimas mulheres que foram esterilizadas pelo Project Prevention tiveram um total de 121 gravidezes.

"Se você acredita que essas mulheres têm o direito de ter filhos, então dê um passo à frente e adote o primeiro bebê a nascer".

Comentando o assunto, um porta-voz da British Medical Association (BMA), a associação dos médicos britânicos, disse:"O comitê de ética da BMA não tem uma posição sobre a entidade beneficente Project Prevention".

"Assm como em todos os pedidos para tratamento, os médicos precisam estar confiantes de que o indivíduo tem a capacidade de tomas as decisões específicas naquele momento".

"O comitê de ética do BMA também acredita que médicos deveriam informar pacientes dos benefícios da contracepção reversível para que os pacientes tenham mais opções de reprodução no futuro".

 

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