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Depoimento: A volta dos que não foram, 11 anos depois

Jornalista conta como foi ter recebido a notícia de tumores no pulmão, após a cura de um câncer na orofaringe

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2018 | 03h00

Lá se iam 11 anos da sonhada cura de um câncer na orofaringe – 11 anos! –, mas aí, num belo sábado, 2 de junho, o resultado de uma tomografia do tórax mostrou a inacreditável aparição de três tumores – um maior, no pulmão direito; dois menores, no esquerdo. Inacreditável, sim, porque o portador, afinal, tirante um cansaço aqui ou ali e uma tossezinha muito de vez em quando – daí ter feito a tomografia – estava em plena atividade profissional, sem nenhum indicativo de qualquer doença.

A tomo localizou, com as palavras da médica que assinou o laudo, “volumosa massa pulmonar heterogênea centrada na região peri-hilar esquerda, determinando amputação do brônquio lobar inferior, em contiguidade com atelectasia sub total deste lobo... Esses achados são suspeitos para neoplasia primária do pulmão. Sugere-se prosseguimento da investigação”, etc etc etc.

Diz o Google que “neoplasia, também denominada tumor, é uma forma de proliferação celular não controlada pelo organismo, com tendência para a autonomia e perpetuação. Pode ser benigna ou maligna, de acordo com o potencial de causar danos ao indivíduo”. Atelectasia, segundo o mesmo oráculo, “é um colapso pulmonar que pode ter consequências graves”.

As imagens da tomografia, aterrorizantes para um leigo, mostravam que os pulmões já não eram dois, mas um e meio, para menos ou para mais, dependendo do corte da imagem. Ou seja: alguma destruição grave acontecera silenciosamente no pedaço, sem a mais mínima percepção do prejudicado.

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Na segunda seguinte, 4 de junho, a pneumologista de um hospital de referência exibiu as imagens da tomografia na tela de seu computador. Lá estava o intruso maior, no que restava do lado direito, e, vizinhos, seus dois parceiros menores do outro lado.

Pelo que viu, a doutora considerou que deviam ser malignos, com uma pequena chance contrária. Pediu uma biópsia por broncoscopia – e, para checar se já não havia uma proliferação dos indesejados, ou metástase, pediu tomografias do abdômen e da bacia, áreas felizmente sem assédio.

A bronco é tipo uma endoscopia, com sedação. Enfia-se pelo nariz um tubo com uma câmera na extremidade. É a pior parte, pois isso tem que ser feito com o paciente ainda consciente. Pode-se até reclamar, mas a enfermeira experiente, já com o tubo a caminho, dirá que é assim que tem de ser. Lá dentro, enquanto a câmera faz imagens, outra engenhoca retira amostras para a biópsia.

Pode não dar em nada? Pode. Ou porque o bronco do paciente diabético (tipo 2), 65 anos, ex-fumante (há 20 anos), cardíaco (com stent) não atentou que precisava ficar sete dias sem tomar as aspirinas diárias – como explicava o pedido do exame. Ou porque a área vasculhada não era a dos novos ocupantes.

Foi o que explicou, em 13 de junho, um oncologista competente e renomado, por sorte o mesmo que ganhou a parada de 11 anos atrás, comandando o ataque quimioterápico, complementado com radioterapia. A cura foi tão eficaz, que, ao correr dos anos, o alvo recuperou até o paladar.

Outra biópsia foi feita, em 20 de junho, depois dos sete dias sem o ácido acetilsalicílico. Desta vez com internação, pela maior complexidade de procedimento. No caso, uma tomografia, orientada pela anterior, seguida pela introdução de agulhas direcionadas precisamente para os tumores. Ocorreu, durante os trabalhos, que entrou ar no pulmão bisbilhotado. Acontece. É o que se chama tecnicamente de pneumotórax, o que trouxe à conversa com um dos médicos, pouco antes do exame, o poema famoso de Manoel Bandeira. “Diga trinta e três... Trinta e três... Trinta e três...”, lembrou-se o doutor, gentilmente evitando o final:

“– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

– Então doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

Na real, o tal pneumotórax obrigou à colocação de dreno no pulmão, até a saída completa do ar. Quem já teve um, sabe que dói, e como. Dois dias depois foi retirado, com sucesso e alta para o internado.

O resultado da biópsia está previsto para em torno de dez dias – já será julho. Enquanto isso, a pedido do oncologista, ainda virão um PET-scan – que, grosso modo, rastreia o corpo todo –, e uma ressonância magnética do crânio. A questão, fundamental, é descobrir se é uma recidiva do câncer de 11 anos atrás, ou se é de outra natureza, definição que guiará o tratamento. Já é sabido que a intrusão dos dois lados não recomenda cirurgia – mas sim químio e rádio, em tese, porque sempre pode ser, enfim, que a probabilidade menor prevaleça, vade retro o maligno.

Ajudam na espera angustiante: paciência (um leão por dia), bom humor (na medida do possível), confiança (espírito de vamos à luta), otimismo e, para quem queira, procura de informações mais específicas sobre a quantas anda o combate à doença. As notícias informam, como se sabe, que o tratamento do câncer tem avançado. Nos casos de pulmão, a olhos vistos. Que venha julho.

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