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Depoimento: Contra tumor, vez da radioterapia

Jornalista relata, no 'Estado', o tratamento de um câncer de pulmão

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 03h00

“Vou te irradiar”, disse, em meados de abril, o oncologista que comanda meu tratamento de câncer nos dois pulmões. Foi a decisão, em equipe, para o resultado adverso de uma tomografia feita em março. Na contramão de duas anteriores – em setembro e dezembro do ano passado, que indicavam redução expressiva dos tumores –, esta registrou que um deles continuou diminuindo, mas que dois haviam crescido. Um desses, que media cerca de 8 por 8 milímetros, passou a 13 por 12 mm. O outro, de 24 por 22 milímetros, aumentou para 63 por 46 mm. Um susto não previsto no protocolo do tratamento.

É este maior que desde 2 de maio está sendo atacado por radioterapia. Está numa ótima posição para ser atingido, como disse o radio-oncologista responsável. Serão dez aplicações seguidas, nos dias úteis. Posso ter tosse, cansaço, dificuldade para engolir e irritações na pele. Escrevo isso horas antes da sexta aplicação. Passei a subir dois lances de escada algo mais devagar, e tive, noite dessas, um curto acesso de tosse. Como meu estado geral é bom, começando pela disposição, confio que não vá passar disso. 

Estamos falando de um tratamento que começou em julho do ano passado, como esta série irregular vem contando. Primeiro com um combinado de quimioterapia e imunoterapia, por quatro sessões. Como a químio amorteceu pés e mãos, além da conta, entre outros transtornos administráveis, ficou só a imunoterapia, já laureada com o Prêmio Nobel de Medicina do ano passado.

Já se foram mais de dez aplicações só com ela – pembrolizumabe, 200 miligramas a cada 21 dias, no caso sem efeitos colaterais. Vieram as reduções significativas – em mais de 30%, segundo as tomografias de setembro e dezembro – e, então, os aumentos de março. 

O oncologista que comanda os trabalhos determinou, por conta dos aumentos, uma nova incursão nas cercanias potencialmente atingíveis. Deu tudo certo na ressonância magnética do cérebro, e, igualmente, no PET-CT que scaneia o corpo todo. Este, para sacramentar, confirmou o crescimento indicado pela tomo.

No hospital de excelência em que faço o tratamento – tudo pelo convênio –, os pacientes da radioterapia recebem uma sacola verde-cheguei, com alças pretas, para levar e trazer o uniforme azul-anil de material descartável que veste a todos. A ala dos sacolas-verdes, no primeiro subsolo, está sempre movimentada por gente que já foi ou será alvo da radiação. Já peguei ‘fila’ com até meia dúzia de azulões na vez – e olha que o meu horário é no começo da noite. 

Já fiz rádio, há dez anos, quando venci um câncer de orofaringe. Um dos médicos, felizmente e por pura sorte, é o mesmo de hoje. Ainda não tinha sacolas-verdes. O procedimento exigia uma máscara plástica aparafusada na cabeça, para evitar movimentos e desvios de rota da região irradiada, a garganta. Ontem como hoje, tudo isso é precedido – para ter precisão – por tomografias e raios X complementares de planejamento, detidamente estudados por radio-oncologistas e técnicos. 

No meu caso, resultou em três marcas de nanquim – uma ao lado do peito esquerdo, e duas laterais ao tórax. É nelas que um equipamento chamado acelerador linear tem de acertar a radiação, a partir de energia elétrica, com precisão máxima para só atingir, e destruir, o tecido doente. Você entra na grande sala que abriga o acelerador linear, cumprimenta rapidamente a simpatia de dois ou três assistentes, deita na posição certa, assiste eles saírem para a sala contígua de comando da máquina – e aguarda o tiroteio dos feixes com as orações que prefira. Uma parte da máquina move a mira para os riscos de nanquim – um por um, cada um no seu quadrado, para um lado, para outro, aproximando mais, ou menos, com ruídos variados que lembram vizinhos perfurando paredes. Tudo isso não demora mais que quatro minutos, se tanto. 

A par de um bom estado geral, há incômodos, como não poderia deixar de ser. O mais frequente é uma leve pressão na lateral esquerda do tórax. Senti que ela aumentou alguma coisa entre dezembro e março – o que bateu com os milímetros que ganhou. Tossir, apressar o passo, vencer degraus, bocejar, respirar fundo – fazem a pressão virar uma pontada de dor, momentaneamente. São os tais querendo mais espaço no enfrentamento com as células que a imuno vai criando, como se fossem os white walkers querendo causar e sentar praça. Não passarão!, poderia dizer a passionária Arya Stark, que matou o facínora. O que só se verá – já que é tudo do jogo – nos próximos episódios.

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