REUTERS/Rahel Patrasso
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Depoimento: O dia em que a haste enfiada no nariz descartou coronavírus. Era “Sapucaivírus”

Para afastar dúvidas, repórter do 'Estado' foi submetido a exame do Covid-19. 'Um colega de redação não parava de me perguntar no WhatsApp: 'É coronavírus?'"

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 17h18

Um dia você está na Marquês de Sapucaí, pula, dança, atravessa 700 metros sob uma forte chuva, recebe aplausos do público... no outro, a fatura chega e você para no hospital com a leve desconfiança de que o coronavírus pode ter aparecido para queimar o filme do seu carnaval. Sempre termino meus dias festivos no Rio com uma leve depressão, mas desta vez, a ameaça parecia maior: o risco de aumentar a contagem de milhares de infectados em meio ao surto de proporções globais que aterroriza o mundo.

Minha odisseia “da Sapucaí ao inferno” começou no domingo retrasado, quando desembarquei em Brasília, encerrando uma temporada de oito dias alegres no Rio. Voltei pra capital federal com dor de cabeça, tosse, gripe, febre, além da inevitável nostalgia pelos desfiles no Sambódromo. Trabalhei na segunda-feira, mas achei melhor consultar a minha otorrino no dia seguinte, já que a dor persistia. Enquanto isso, um colega de redação não parava de me perguntar no WhatsApp: “É coronavírus?”

Logo depois de me examinar cuidadosamente, a otorrino sentenciou: rinossinusite e faringolaringite, duas “ites” companheiras de guerra que me acompanham desde sempre. O pulmão parecia ok, mas a febre de 38ºC ainda levantava dúvidas. A conclusão da doutora era o de que era melhor fazer logo o exame do Covid-19, mais para afastar qualquer dúvida. 

Vi que a coisa era séria quando a médica me pediu pra usar uma máscara no consultório. “Não precisa surtar”, ela me disse. Surtei. “Você esteve na arquibancada, no meio de multidões?”, ela me perguntou. Sim, passei o carnaval no Rio, as multidões fazem parte da paisagem, lhe respondi. “Ficou perto de chineses e italianos?” Provavelmente, mas não cheguei a fazer um Censo do público, estava de folga. Tinha ficado oito horas debaixo de chuva durante o Sábado das Campeãs, que reúne as seis primeiras colocadas do carnaval carioca. Ventou, fez frio, desfilei. 

Do consultório fui para o pronto-socorro de um dos principais hospitais de Brasília. O médico tentou me tranquilizar – meu estado clínico indicava uma infecção leve, e o raio-X do tórax mostrou que o pulmão estava bem. “Não vou morrer hoje”, pensei. (Caro leitor, você já deve ter percebido – eu gosto de um drama.)

Fui levado ao laboratório do hospital para o exame do coronavírus, cujo diagnóstico é feito a partir de uma amostra de raspado (swab) de nasofaringe. O material é recolhido da mucosa do nariz com uma haste flexível. Parece horrível, e é. Quando a enfermeira enfiou o palitão nas minhas narinas, não tive dúvidas – “Eu vou morrer hoje”. Ela tentou me tranquilizar informando que outras seis pessoas já haviam passado pelo mesmo procedimento antes de mim naquele dia.

A dor é praticamente insuportável, mas o exame dura rapidinho. Me senti cobaia de um experimento. Uma lágrima esboçou no olho esquerdo, mas segurei. O resultado do exame saiu dois dias depois: “não detectado”. Ufa. Era “Sapucaivírus”.

Voltei hoje a trabalhar – este depoimento que compartilho contigo é o primeiro texto que escrevo depois da licença médica de cinco dias. Ainda estou levemente abatido. O que será do Brasil e do mundo em meio à multiplicação do vírus? E a tensão nos mercados financeiros, o dólar e o barril de petróleo? E o mais difícil: como sobreviver aos 341 dias de contagem regressiva para o carnaval 2021?

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