Arquivo pessoal
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Depoimento: 'Vi um hospital se transformar pelo coronavírus'

Pedagoga, que estava com o marido internado no Albert Einstein para realização de um transplante, conta como viu o hospital mudar com a chegada e avanço do novo coronavírus

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2020 | 14h48

"Quando entrei com meu marido no Hospital Albert Einstein, em 20 de fevereiro, para acompanhá-lo em um transplante duplo de rim e fígado, o hospital estava de um jeito e, quando saí, em 31 de março, era completamente outro. Nesse intervalo de um mês e dez dias, vi a pandemia do coronavírus transformar o dia a dia de enfermeiras, médicos e pacientes.

No começo, o hospital estava cheio, com o pronto socorro lotado e uma movimentação intensa. Afinal, o primeiro caso da covid-19 tinha sido descoberto lá. Meu marido seguia o procedimento padrão de um paciente transplantado: primeiro Unidade de Terapia Intensiva (UTI), depois semi-intensiva e, finalmente, o quarto. Meus filhos visitavam o pai normalmente.

Apesar de ele ter feito o transplante, a gente não usava máscaras e os médicos também não. Mas, de um dia para o outro, comecei a ver todo mundo usando máscaras, luvas e o fluxo de pessoas no hospital diminuir. Médicos e enfermeiras se revezavam para reduzir o risco de contágio e também porque estavam voltados para o combate à covid-19. Em poucos dias, já não via ninguém nos corredores. Os poucos que encontrava estavam todos equipados.

Um dia, quando cheguei ao hospital, meu marido tinha mudado de quarto, porque a ala onde ele estava seria fechada para receber os pacientes com coronavírus. Presenciei áreas sendo fisicamente fechadas com uma espécie de parede para receber pacientes contaminados.

Na primeira semana do isolamento, fiquei com muito medo de ir ao hospital. Não por mim, mas por ele. Tive medo de contaminá-lo porque a sua imunidade estava baixa. Fiquei alguns dias sem ir e meus filhos não podiam visitá-lo. Eu e as crianças falávamos com ele só por meio de chamadas de vídeo no celular.

Depois, percebi que meu marido não ficou bem com esse distanciamento. Daí, resolvi voltar a visitá-lo, mas tomando todos os cuidados. Comecei até a deixar o carro na rua e andar dois quarteirões para chegar ao hospital, para evitar o contato com os manobristas.

Agora, meu marido já está em casa, mas tem de ir ao hospital três vezes por semana para fazer hemodiálise. Toma todos os cuidados: limpa a cadeira de rodas com álcool em gel, usa máscara, luva e vai direto para o setor da hemodiálise. Infelizmente, não temos outra opção. Temos que passar por isso, até terminar o tratamento e o rim voltar a funcionar normalmente.

Só me dei conta, de verdade, da gravidade do que estava acontecendo quando vi o hospital se transformando. Hoje estou com meu marido em convalescença no meio de uma pandemia. Estou sendo testada duplamente e tenho que ter o dobro de cuidado."

*Viviane Sala Santos, 42 anos, pedagoga

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